
  -- Nota --
    Este livro foi scaneado e corrigido por Gesuel Tonon;  para uso
exclusivo de deficientes visuais, de acordo com as leis de
direitos autorais.
    Para  este fim se utilisou de um sintetizador de voz.   Portanto
o livro pode conter erros de diagramao e outros.
    Data: setembro / 2001
  -- Fim da nota --
  ****


JOS MAURO DE VASCONCELOS

 Vamos Aquecer o Sol

 OMANCE

2a Edio

EDIES MELHORAMENTOS
     1974

 Comp. Melhoramentos de So Paulo, Indstria de Papel
 Caixa Postal 8120,
 So Paulo
 FAX: X-1974

 Nos pedidos telegrficos basta citar o cd.
 7-0-03-049

 Para D. Antonietta Rudge Ciccillo Matarazzo Luizinho Bezerra E Wagner
Felipe de Souza Weidebach, o "amigo". E ainda Joaquim Carlos de Mello


 " Ce ne sont ps seulement ls liens du sang qui forment Ia parente,
mais ceux du coeur et de rinteiligence." Montesquieu.

 NDICE
 PRIMEIRA PARTE: Maurice e eu

1. A metamorfose ................................ 13
2. Paul Louis Fayolle ............................ 21
3. Maurice ...................................... 29
4. Risada de Galinha ............................. 39
5. Sonhar ....................................... 51
6. Vamos aquecer o Sol ........................... 64
7. O adeus de Joozinho .......................... 74

 SEGUNDA PARTE: A hora dele: o Diabo

1. A demorada deciso ........................... 87
2. O doer de uma injustia ....................... 97
3. Corao de criana esquece, no perdoa ......... 107
4. O cao e a fracassada guerra das bolachas ...... 117
5. Tarz, o filho dos telhados .................... 138

 TERCEIRA PARTE: O meu sapo-cururu

1. A casa nova, a garagem e Dona Sevruba ...... 159
2. A mata de Manuel Machado .................. 175
3. Meu corao chamava-se Ado ................ 191
4. Amor ........................................ 202
5. Piranha do Amor Divino ...................... 211
6. A estrela, o navio e a saudade ................. 219
7. Partir ........................................ 225
8. A viagem .................................... 234

ltimo captulo

1. O meu sapo-cururu .............. 243

 NOTA SOBRE O AUTOR ..................... 251

 *****

 PRIMEIRA PARTE

 MAURICE E EU

 PRIMEIRO CAPTULO

 A METAMORFOSE

 DE REPENTE NO existia mais escuro nos meus olhos. O meu corao de
onze anos se agitou no peito amedrontado.
 - Meu So Jesus do carneirinho nas costas, ajudai-me! A luz crescia
mais. E mais. E quanto mais crescia o medo aumentava a tal ponto que se
eu quisesse gritar no Conseguiria. Todo mundo dormia calmamente. Todos
os quartos fechados respiravam o silncio. quase saltando das rbitas.
Queria rezar, invocar todos os meus santos protetores, mas nem sequer o
nome de Nossa Senhora de Lourdes escapava dos meus lbios. Devia  ser o
diabo. O diabo com Que me amedrontavam tanto. Mas se fosse ele a luz no
seria a cor da lmpada e sim de fogo e sangue e haveria por certo o
cheiro de enxofre.  Nem sequer poderia chamar Em socorro o Irmo
Feliciano, o Fayolle querido. Fayolle nessa hora deveria estar no
terceiro sono, roncando bondade e paz, l no colgio  Marista. Uma voz
soou macia e humilde.
 - No se assuste meu filho. S vim para ajud-lo.
 O corao batia agora contra a parede e a voz saiu fina e medrosa como
o canto primeiro de um galinho.
 - Quem  voc? Alma do outro mundo?
 - No, tolinho.
 E uma risada bondosa repercutiu pelo quarto.
 - Vou fazer mais luz, mas no se assuste que nada de mal poder
acontecer.

13

 Disse um sim indeciso mas fechei os olhos.
 - Assim no vale, amigo. Pode abri-los. Arrisquei um, depois o outro. O
quarto tinha adquirido uma luz branca to bonita que pensei ter morrido
e me encontrar no  Paraso. Mas isso era impossvel. Todo mundo em casa
dizia que o cu no era para o meu bico.
 - Olhe pra mim. Sou feio mas meus olhos s inspiram confiana e
bondade.
 - Aonde?
 - Aqui, ao p da cama. Fui-me aproximando da beira e criei coragem para
olhar. O que vi me encheu de pnico. Fiquei to horrorizado que um frio
perpassou-me a  alma inteira como se fosse Um zper. Retornei tremendo 
posio anterior.
 - Assim no, meu filho. Eu sei que sou muito feio. Mas se voc tem
tanto pavor vou-me embora sem ajudar. Sua voz se transmudara numa
splica que resolvi conterme.  Mas foi com bastante vagar que me
arrastei para o seu lado.
 - Por que esse medo todo?
 - Mas voc  um sapo?
 - E da? Sou.
 - Mas voc no poderia ser outra coisa?
 - Uma cobra? Um jacar?
 - Eu preferia, porque as cobras so lindas e to lisinhas. E os jacars
nadam to elegantemente.
 - Desculpe, mas no passo de um pobre e amigo sapocururu. Bem, se isso
lhe faz mal, irei embora. Pacincia. Entretanto repito:  uma pena.
Ficou to triste e emocionado  que por pouco mais o sapo rajado
choraria. Aquilo comoveu-me porque eu era to mole dgua.
 - T certo. Mas deixe-me respirar mais forte, depois eu poderei at me
sentar porque comeo a me acostumar com voc.

14

 Realmente as coisas comearam a mudar. Talvez pelo brilho manso dos
seus olhos e pela atitude parada do seu corpo grotesco. Arrisquei uma
frase de simpatia. Frase  Essa que brotou meio gaga. Algo me aconselhava
a trat-lo por senhor.
 - O senhor como se chama? Ele sorriu. Era claro que estava admirado
daquele tratamento. Mas no era  toa que se encontrava um sapo falante.
Isso implicava em  respeito da minha parte. Coou a cabea e respondeu:
 - Ado.
 - Ado de qu?
 - Simplesmente Ado. No tenho sobrenome. A moleza me bateu por dentro
novamente. Por que diabo eu teria que me emocionar at com um sapo.
 - O senhor no quer usar o meu? Eu no me importo. Olhe como fica
bonito: Ado de Vasconcelos.
 - Obrigado, amigo. De um certo modo eu vou morar tanto com voc que
indiretamente estarei participando do seu nome. Ouvira bem o que falara?
Morar comigo? Deus  do cu, Nossa Senhora das Mangabas! Se minha me de
criao o visse no meu quarto, daria um grito chamaria a Isaura com uma
vassoura e tacava Ado pela escadaria abaixo. E como se no bastasse
tudo isso, Isaura ainda tinha De pegar Ado pelas perninhas e atir-lo
da balaustrada de Petrpolis.
 - Adivinho tudo o que est pensando. Porm no existe esse perigo.
 - Ainda bem, respirei aliviado.
 - E voc, como deverei trat-lo? De Zez?
 - Por favor; Zez no existe mais. Era um menininho bobo de
antigamente. Era um nome de moleque de rua... Hoje mudei muito. Sou
menino polido, arrumado...
 -  triste. Sobretudo triste. Talvez um dos meninos mais tristes do
mundo, no?
 - Eu sei.
 - Voc gostaria de voltar a ser Zez?

15

  - Nada volta na vida. De uma maneira gostaria. De outra no. Aquele
negcio de apanhar tanto e passar fome... Retornava aquela velha dor que
sempre queria me  perseguir. Voltar a ser Zez, a ter um p de
laranja-lima, perder o Portuga de novo?...
 - Confesse a verdade. No gostaria mesmo? Naquele tempo voc tinha uma
coisa que no sente h bastante tempo. Uma coisa pequenininha e muito
boa: a ternura. Confirmei  desalentado com a cabea.
 - Nem tudo est perdido. Voc ainda tem a ternura das coisas, seno no
estaria conversando comigo. Fez uma pausa e comentou com muita
seriedade.
 - Olhe, Zez, eu estou aqui para isso. Vim ajudar voc. Ajudar a
defender-se de tudo na vida. E voc no vai sofrer tanto por ser um
menino muito s... e estudar  Piano. Como Ado descobrira que eu
estudava piano? E que era um dos maiores martrios da minha vida.
 - Sei de tudo, Zez. Por isso eu vim. Vou morar no seu corao e
proteg-lo. No acredita?
 - Acredito sim. Uma vez na vida eu j tive um passarinho dentro do
peito que cantava comigo as coisas mais lindas da vida.
 - E cad ele?
 - Voou. Foi embora.
 - Ento isso significa que voc tem uma vaga para me abrigar. Nem sabia
o que pensar. No podia garantir se sonhava ou se vivia uma maluquice.
Era magrinho e tinha  o peito achatado onde as costelas faziam um
reco-reco. Como Ali iria caber um sapo to grande?
 - No seu corao eu ficarei pequenino que voc nem vai sentir direito.
Vendo a minha hesitao ele explicou mais.
 - Olhe, Zez, se me aceitar com voc tudo vai ser mais fcil. Eu quero
lhe ensinar uma vida nova, defend-lo de tudo que  ruim e varrer aos
poucos essa teia de  Tristeza

16

 Que o persegue sempre. Voc descobrir que mesmo sozinho no sofrer
tanto.
 - Ser que precisa tanto?
 - Precisa para que na vida voc no seja um homem muito sozinho.
Morando no seu corao um novo horizonte abrir-se-a. Logo voc notar
uma metamorfose em sua vida.
 - O que  metamorfose?
 - Uma mudana. Uma transformao.
 - Sei. Verdade  que eu sabia tambm que j perdera todo o medo e
repugnncia do sapo-cururu. At parecia que a gente era amigo h uns
duzentos anos.
 - E se eu aceitar?
 - Voc vai aceitar.
 - E que deverei fazer?
 - Voc, nada. Eu sim. S precisar ter muita coragem e deciso para
permitir que eu penetre no seu peito. Fiquei todo arrepiado como se uma
fasca eltrica me  raspasse os ps.
 - Pela boca?
 - No, bobo. Mesmo porque no daria passagem.
 - Ento como?
 - Voc fechar os olhos e eu me deitarei em seu peito e vou penetrando,
penetrando...
 - E no di?
 - Di nada. Eu descerei sobre os seus olhos uma grande sonolncia.
Lutava contra o meu medo. Chegava a sentir sobre minha pele o frio
gelado da sua barriga viscosa.  Ado tornou a ler os meus pensamentos.
 - Me d a mo. Obedeci suando frio.
 - Voc vai sentir que a minha tambm  macia. m milagre se dava. A mo
de cururu tinha crescido do tamanho da minha e possua um calor amigo e
terno.
 - Viu? Com os dedos examinei toda a sua palma. Sentia-me perplexo.

17

  - O senhor tambm estuda piano? Deu uma risada gostosa.
 - Por qu?
 - Porque no tem sequer um calo na mo. Eu sou assim tambm, no posso
subir numa rvore, machucar os dedos, nem sequer estalar as juntas. Tudo
isso  proibido  Para No estragar os estudos do piano. Suspirei
desalentado.
 - Est vendo? Voc precisa de mim.
 - E um dia vou deixar de estudar piano?
 - Voc detesta tanto assim a msica?
 - No  que eu no goste. O que no gosto  passar a vida em cima das
teclas. Num sem-fim de exerccios, de escalas que no acabam mais. A eu
me lembrei de uma  coisa.
 - Sabe, seu Ado, at que eu gosto de tocar a escala cromtica.
 - Sei, seu Zez. Descobria agora que a nossa intimidade proibia de que
eu o tratasse de senhor. Rimos ao mesmo tempo.
 - Ser que voc me ajuda a deixar de estudar piano?
 - Ora, Zez. Isso no posso garantir. Talvez d um jeito de voc no
continuar sofrendo muito.
 - J  alguma coisa. Ele me olhava de baixo com certa insistncia.
Olhou o relgio de pulso como a me lembrar que as horas passavam. Nem
titubiaria mais. S o  fato de no me chatear com o piano j me
antecipara uma deciso.
 - Que devo fazer?
 - Abra o palet do pijama e no tenha medo.
 - No terei.
 - Agora precisa me ajudar. Jogue a ponta do lenol no cho e me puxe
para cima. Feito. Ado agora se encontrava bem perto de mim. Com a luz
prxima seus olhos  adquiriam um azul de cu quando o cu fica bem azul.
J no o achava to feio e desagradvel.

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 - S quero que me conte a verdade. Vai doer?
 - Nada de nada.
 - Mas voc no vai comer o meu corao?
 - Vou. Mas vai ser to doce como se mastigasse uma Nuvem.
 - E se o meu pai um dia botar o raio X?
 - Ningum descobrir. Porque com o tempo eu vou virar um corao igual
em forma ao que voc tinha antigamente.
 - Eu quero ver tudo.
 - No prefere dormir?
 - No. Vou me encostar na parede e ficar meio reclinado para assistir.
 - Ento eu vou fazer que seus ouvidos escutem uma msica bem bonita.
 - Posso escolher?
 - Pode.
 - Eu queria ouvir a serenata de Schubert e Rverie de Schumann.
 - No piano?
 - Sim. Ado passou as mos em meus cabelos e sorriu.
 - Zez! Zez! Confesse que voc no odeia tanto o piano.
 - s vezes eu o acho lindo.
 - Vamos?
 - Vamos. A msica comeou a ressoar lindamente. Ado deitou-se sobre o
meu peito e tudo era macio como o vento.
 - At logo. Vi que ele encostava a boca no meu peito e comeava a
penetrar. Ado no mentira. Nada doa e tudo acontecia rapidamente.
Pouco mais s existiam suas patinhas desaparecendo Em minha carne.
Passei a mo sobre o lugar e tudo ficara lisinho. Ent e no resisti.
 - Ado, voc est a? A voz agora vinha mais baixa.
 - Estou, Zez.

19

  - J comeu meu corao?
 - Estou comendo. Mas no posso falar de boca cheia. Espere um pouco.
Obedeci contando os dedos. Ia ser formidvel. Ningum poderia adivinhar
que eu no tinha mais um corao comum. E sim um sapo-cururu to amigo.
 - J?
 - Pronto. Estava era gostoso. Agora voc precisa dormir e amanh ser
um novo dia. Espreguicei-me todo cheio de felicidade. Puxei a coberta
para aquecer meu peito e meu cururu que batia compassadamente e sem medo
algum. Uma coisa me fez sentar de sopeto
 - Que foi agora, Zez?
 -  que voc se esqueceu de apagar a luz. Essa  diferente.
 - Eu lhe ensino. Encha bem as bochechas e sopre. Obedeci e tudo voltou
a ser escuro no meu quarto. O Sono vinha fechando as minhas plpebras
pesadamente. E eu  sorria.
 - Ado, j dormiu?
 - No, por qu?
 - Obrigado por tudo. E voc pode me chamar de Zez todo o tempo. Mesmo
que eu fique homem um dia. Pode chamar que eu gosto, t? A resposta
vinha longe, longe,  quase que no se ouvia mais.
 - Dorme, meu filho, dorme. Dorme que a infncia  muito linda.

20

 SEGUNDO CAPTULO

PAUL LOUIS FAYOLLE

BATERA  porta do meu quarto e como no respondia, meteu os dedos calejados na porta e
abriu-a. Primeiro assustou-se  com o meu gemido. Mas no o levou a
Srio.
 - Avie, seu moo. T na hora do colgio. No vai querer ficar dormindo
todo o tempo. Com o continuar dos meus gemidos ela aproximou-se da cama
e estranhou o meu amolecimento. Nunca fora daqueles meninos preguiosos.
Tinha de levantar, pronto levantava. D congestionados. De imediato
passou a mo na minha testa e resmungou preocupada.
 - Vigie meu So Francisco do Canind esse menino est ardendo em febre.
Fechou o palet do meu pijama e puxou as cobertas sobre o meu corpo.
Saiu rpida para procurar  socorro. A sonolncia tomava conto dos meus
olhos de novo. A moleza tornara-se to gra
 - Deve estar aprontando mais uma. Est arranjando motivo para faltar ao
colgio e no estudar piano hoje. Porm, quando passou a mo na testa,
mudou de opinio.  Foi logo acusando tudo. So essas amgdalas. Dormiu
com a janela entreaberta e o frio da mad nervosa. E tomava meu partido.

21

  - Tadinho. O bichinho est doente. Sempre to quietinho, to
caladinho. Vamos esperar o doutor chegar da missa. Quando o meu pai
chegou da missa nem titubeou.
 - Pneumonia e das boas. A foi um corre-corre danado. Farmcia.
Injeo. Comprimidos...
 - Se no melhorar precisamos aplicar ventosas. Respondi meio fatigado.
 - No  preciso nada. Isso passa.
 - Como sabe que isso passa? Que tem de passar, tem.
 - Mas no  pneumonia no. Meu pai passou as mos na cabea.
 - E isso agora. A gente passa a vida em cima dos livros e vem um
bobinho desses ensinar o padre-nosso ao vigrio. Estava apavorado com a
tal de ventosa.
 - Que  ventosa?
 -  uma coisa simples para fazer expectorar. Uma coisa que vai mexer
com o seu sangue. Ora bolas! voc no pode entender disso.
 - Como  que se faz?
 - Fazendo. E no pergunte tanto que a febre piora. Ficou com pena de
mim e explicou mais calmo.
 -  simples. A gente coloca sobre o peito e sobre as costas. Pode ser
feita at com uma xcara de caf. E no tenha medo que no di. Uma
coisa espicaou-me por dentro. Ser que no iria fazer mal ao cururu?
Ado devia estar escutando tudo e por certo ta
 - E essa seringa que leva horas para ferver? Foi reclamar e a seringa
apareceu pronta com remdio dentro e a ordem imediata:
 - Vire a bunda pra cima. Virei. Outra reclamao.
 - Esse mofino no tem nem carne. Minha me recriminou-o.
 - Deixe de afobao, homem. Afinal voc acaba de vir da missa e da
comunho.

22

 Eu tive vontade de rir. Porque ele era assim mesmo. Com tudo se afobava
e passava logo. Mas em vez de rir soltei um berro que foi bater nas
palmas dos coqueiros Da vizinhana.
 - Pronto, pronto, j passou. Isso di mesmo. Mas se dissesse que dia
era pior. O cheiro do ter me massageando as ndegas me trouxe um pouco
mais de tontura.  A meu pai sentou-se na beira da cama e ficou me
olhando. Era to raro ele prestar-me a aten Azul, to raro ver os seus
olhos quase negros e pequenos. Peguei em sua mo e para surpresa minha
no a retirou.
 - No  pneumonia no.
 - Ento o que ?
 - Foi o sapo-cururu que comeu o meu corao e eu fiquei assim. Ele
arregalou os olhos e passou de novo a mo na minha testa.
 - Est delirando de novo. Uma vo bem fininha e baixa segredou-me. Era
Ado.
 - Seu bobo, voc no v que gente grande no com preende nada. Que
mesmo que voc diga a maior verdade do mundo de nada adianta.
 - Desculpe, Ado. Meu pai se admirou.
 - Desculpe o qu?
 - No  nada, nada mesmo. Devo estar sonhando
 - Voc est  gira. Fica falando que um sapo-cururu engoliu o seu
corao e me chama de Ado. Ia levantar-se. Segurei quase sem forar a
sua mo contra o lenol.
 - Eu vou morrer? Que bobagem. Isso passa logo. Ao meio-dia se no
melhorar, ai sim, aplico as ventosas.
 - E o colgio?
 - Nada de se mexer. Tem  de ficar quietinho. Nada cte aula, nem de
piano. At se curar. Pelo menos por uma semana.

23

 Saiu e fiquei sozinho. Sozinho no, porque Ado deu mostras de sua
presena.
 - Zez, Zez, voc precisa tomar mais cuidado; no pode contar o nosso
segredo pra ningum.
 - E no conto mesmo. S tentei contar porque fiquei com medo que as
ventosas fizessem mal a voc.
 - Est certo. Mas todo cuidado  pouco. Estava me dando sono de novo.
Tinham-me trazido caf Com leite mas eu engulira tudo enjoando. Melhor
era ficar Parado  como se nada existisse.
 - Ado!
 - O que ? No fique me chamando  toa. Voc ouviu bem o que seu pai
falou. Tem que descansar. Porque quando ficar bom, no se esquea que
vamos comear uma nova  Vida juntos.
 - S quero lhe dizer uma coisa. Tem uma pessoa que eu preciso contar. E
voc vai gostar muito dela.  o Irmo Feliciano, no colgio. Ele  to
bonzinho, to amigo.
 - E ele vai entender?
 - Sem dvida. Ele entende tudo o que fao.
 - Ento veremos. Agora, cale-se.
 - S uma coisinha mais. Ser que a gente no podia combinar de falar
sem falar?
 - No pensamento?
 - Sim. Assim a gente no se cansava e ningum descobria.
 -  uma soluo. Ento pense uma coisa para ver se d certo. Pensei:
vou passar uma semana sem estudar piano e sem ir ao colgio. Ado deu
uma risada gostosa  que at balanou o meu peito. Respondeu-me de
imediato, no pensamento.
 - Malandrinho. Agora veja se durma. Fechei os olhos satisfeito. Dera
certo. Ningum poderia mais descobrir o nosso segredo. Tudo ia de bom
para melhor em nossa  amizade. Achara um amigo, ia ter uma

24
 Semana de folga e ansiava para saber de que forma minha vida iria
melhorar. Entrei no colgio, subindo a escadinha resoluto. No tinha
mais nada de doena. Queria  mostrar a Ado todos os cantos por que
passava minha vida.
 - Viu, Ado? Logo voc vai conhecer Irmo Feliciano. Entrei na sala da
diretoria carregando a minha pasta de livros, que por sinal era muito
pesada para o meu  tamanho e para a minha magreza. Por trs da
secretria alta vi a cabea avermelhada do Irmo F sempre, porque como
assistente Do diretor ele vivia escrevendo. Acheguei-me do lado e
esperei que ele me notasse. E como demorava. No resisti.
 - Paul Louis Fayolle. Soltou tudo como se fosse movido por uma corrente
eltrica. Jogou os culos bruscamente sobre a mesa. Seu rosto
iluminou-se como se fosse  um sol enorme.
 - Chuch! Sentia saudades do modo como ele me tratava. Chuch. No sabia
o que queria dizer e nunca perguntara o que significava. Era um nome,
uma inveno, uma  coisa cheia De ternura que o Irmo Feliciano criara
para mim. S ele me tratava assim. Ficou u Mesmo depois quando me sentei
na cadeira ao seu lado ele continuou a olhar-me, a analisar-me Todo.
 - Ento, voc voltou, Chuch?
 - Voltei, sim. J no aguentava mais ficar em casa. Estava feliz perto
de algum que nunca me faria mal ou deixaria que me maltratassem. Fora
ele o primeiro Irmo  A descobrir a solido da minha alma. A tristeza do
menino incompreendido cujos olhos s de De um menino pobre dado para ser
criado por um

25

 padrinho rico e sem filhos. A mudana repentina de um menino de rua,
dono do sol, da liberdade e das arteirices, preso a um vnculo de uma
famlia nova, irremediavelmente  Perdido, ignorado e esquecido. Quantas
vezes Fayolle no se interessara plos meus Mostrando que era impossvel
retornar para a minha rua to longe, ao meu subrbio distante. Ele sim,
o primeiro a me descobrir e a me proteger. S os outros irmos  Maristas
sabiam-no chamar-se Paul Louis Fayolle. Eu descobrira o segredo. Podia
chamar-lhe de Fayolle e voc quando estvamos a ss. Na frente dos
outros meninos,  Ele voltava a ser Irmo Feliciano e senhor.
 - Conte tudo. Voc est mais magrinho, Chuch. Sorriu e antes que eu
comeasse ele se lembrou de uma coisa.
 - Telefonei sempre para sua casa para saber da sua sade. Soube?
Confirmei com a cabea.
 - Fiquei preocupado, meu filho. Mas agora tudo passou e eu j dei ordem
na sala de refeitrio dos irmos; Voc no recreio das duas, depois da
aula de religio,  vai comer um pedao de doce que eu deixarei todos os
dias.  s falar com o Manuel que ele es
 - Obrigado. Olhou o relgio de pulso e viu que dava tempo.
 - D tempo sim, Fayolle. Eu vim mais cedo no carro dele. Ele foi
receitar no Hospcio.
 - Ento conte. No estava nem com vontade de contar da minha doena.
Dor passou, no tem mais que ter interesse. O ponto alto era da
existncia de Ado. Nem sabia  como comear.
 - Voc promete que no vai rir de mim e nem pensar que eu sou maluco do
po. Fayolle fez um ar muito srio de espera. Contei tudo e fiquei
olhando bem dentro dos  seus olhos. Temia descobrir alguma sombra de
dvida ou de zombaria. No havia Nada nos seus olhos.

26

 - Ento, Chuch, voc tem um sapo-cururu em forma de corao? Fiquei um
pouco aturdido. No pensara at aquele momento, se o corao tinha forma
de sapo ou era  o contrrio.
 - Devo ter. Isso  bom. Ele vai me ajudar muito. Porm resolvi no
contar por enquanto que o sapo se chamava Ado. Podia ser que Ado no
gostasse.
 - Ento voc acredita, Fayolle?
 - Claro que acredito. Na vida a gente acredita em tantas coisas. 
sempre bom esperar por um momento bom no corao. Sentia que Fayolle
estava meio confuso e no  queria me decepcionar e de repente veio um
raciocnio maluco daqueles que me surgiam contin
 - Eu acho que no  nada demais a gente acreditar ter um sapo no
corao. Pelo menos eu vi o que aconteceu comigo. Porque a gente tambm
no acredita que na hstia  Tem o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus
Cristo? Fayolle me olhou com a maior doura e
 - Pois ento, Chuch, eu no estou desacreditando nada do que disse.
Voc mesmo no me contou uma vez que quando era pequerrucho tinha um
passarinho que cantava  Dentro Do peito?
 - Contei sim.
 - Pois ento, eu s espero que o seu sapo lhe ensine tudo de bom, que
conserve o seu corao sempre honesto. Calou-se e ficou sorrindo a
fitar-me longamente. Depois  olhou o relgio de pulso e trouxe-me 
realidade.
 - Est quase na hora, Chuch. J, j, a sineta vai tocar. Levantei-me.
Fayolle ainda comentou.
 - Depois a gente conversa mais. Fui-me encaminhando para a porta.
Virei-me para acenar-lhe um adeus e ele rolava os culos entre os dedos
esperando que eu sumisse  no corredor. Pensei para Ado.
 - Que tal? Gostou dele?
 - Muito. Esse  amigo at debaixo dgua.

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 O sol iluminava todo o corredor e o cu azul parecia retalhado pelas
paredes. Ser que Ado no sentia falta da liberdade antiga, do sol, da
chuva, do canto das  Cigarras, do rudo dos meninos soltando papagaio,
do barulho dos pies rodopiando na rua?
 - Nem um pouco. Fiquei admirado e comentei.
 - Voc  um danado. Mas quero ver se voc aguenta oito horas de aula
aqui. E trs de piano l em casa.
 - Zez querido. Cada pessoa no mundo tem o seu destino. Eu quando vim
j sabia de tudo.

28

 TERCEIRO CAPTULO

MAURICE

- JOOZINHO, acabou-se a moleza. Vamos 
luta. Nem precisava apresentar Joozinho ao meu sapo-cururu. Talvez
fosse a coisa mais conhecida dele. Abri a cortina  da sala para que a
luz do dia, para que o sol maravilhoso viesse encher de vida todos os
seus cantos. Como sempre, surgia aquele desalento de comear. Depois
esquentava  e ia em frente. Antes de abrir a tampa do piano olhei a
cabea da negra. Uma negra de terracota que minha av ganhara de Paris
quando fizera quinze Anos. Segundo  meu pai aquela figura de turbante
branco e olhos tristes seria um dia minha herana. Tratava-a com muito
respeito e achava que a negra Brbara at Que gostava  das minhas
msicas quando tudo saa certo. Mas dessa vez recomendei:
 -  melhor, Dona Brbara, a senhora baixar o turbante at os ouvidos
porque estou sem estudar h uma semana e os dedos esto enferrujados. A
abri a tampa de Joozinho  e tirei com calma o pano verde bordado com
uma pauta cheia de notas amarelas. Joozin sustenidos e bemis. Eu no
compreendia nunca porque ter sustenido e bemol. Bastava um. Ou sustenido
ou bemol. Desde que um l sustenido Era um si bemol, pra que  tanta
confuso? Na realidade o sustenido era muito mais simptico porque
parecia um bando de gaiolinha pendurada. Gostava do cheiro sempre Novo
que o meu piano  guardava na alma. Nunca na vida poderia esquecer aquele
odor. J me preparava para sentar

29

 os dedos no piano quando um raio largo de sol veio danar assanhado
sobre o rosto da negra Brbtar ara. Como o sol se tornava lindo quando a
gente tinha sade.  Nessa hora, l muito longe, Totoca estaria indo para
a escola Martins Jnior. A garotada toda Estaria varrendo a sala,
arrumando o quarto, preparando a cozinha. E eu ali, encerrado numa sala
s vendo um fio de sol. J ia icando com os olhos cheios de lgrimas
Quando ouvi a voz de Ado.
 - Esquece, Zez, no adianta mesmo. Aos poucos voc vai esquecendo,
esquecendo e quando se lembrar tudo estar to distante que voc nem vai
sofrer. Voltei  realidade.  Primeiro passei os dedos levemente pelas
teclas. Eu gostava de Joozinho. Ele no ti falhava, a culpa me
pertencia. Um batido de p no teto indicava que minha me estava
estranhando a minha demora. Dois era para recomear tudo de novo. Trs
era  alarme geral. Se no me concentrasse Ela descia para verificar a
razo. Poucas vezes, no comeo, as trs batidas apareceram. Convenci-me
de que era melhor fazer  tudo bem feito porque passava mais depressa E
no haveria "temporal". E a vida era aquela. Antes do caf, meia hora de
piano. Depois do caf, mais vinte minutos  at chegar a hora da sada
para o colgio. Na hora do almoo: quarenta Minutos at almoar e voltar
ao colgio. Fazia meus estudos quase sempre nos Vigiados e  voltava para
casa s cinco-e-meia. Um banho, uma roupa limpinha e mais um Pouco de
piano para esperar o jantar. Jantava e tinha meia hora para brincar. Mas
brincar  com quem? No tinha amigos. Ningum gostava, l em casa, que me
aparecesse Um amigo. Eu at ficava nervoso com medo que isso
acontecesse. Fazia festas para o cachorrinho  Tuiu que era todo aleijado
por causa de um atropelamento. At que O bichinho me adorava. Geralmente
sentava-me no degrau da escada dos fundos que dava para o stio  da
Capitania dos Portos. Podamos ver o Rio Potengi antes que anoitecesse.
Os

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 Barcos deslisando lentos com os restos do sol iluminando de ouro as
velas pandas e brancas. Agora seria melhor porque ficaramos os trs
sonhando: Tuiu, Ado e  eu.
 - Um dia ns vamos fugir num barco para o alto mar, no vamos Ado?
 - Ora se vamos. Tuiu ouvindo minha voz abanava a cauda.
 - Eu levo voc, Tuiu. Podemos levar o pobrezinho, no podemos, Ado?
 - Nem se fala. Aquela era a meia hora mais rpida do mundo. Vinha a voz
de minha me.
 - Pronto, j brincou muito. Est na hora. Entrava, lavava as mos
olhando meus dedos esguios como se os odiasse. Dirigia-me para a sala e
abria a tampa de Joozinho.  Relia a sua marca todas as vezes que assim
procedia. Era um piano Ronish. As primeiras  Perdia-me no mundo de Coup
Czerny e tome escalas e exerccios at a hora de dormir. Aos domingos
para aproveitar o tempo que no ia s aulas, estudava quase a  manh
toda. Primeiro as lies, depois um pouco de piano para variar. Raros os
domingos Que meu pai resolvia ir  praia. A sim, um mundo de
encantamento se realizava.  J nadava como um peixinho. E at nisso
aparecia a minha condenao.
 - No nega que tem sangue de bugre. No pode negar que  Pinag. Nem
ligava mais, tinha que esticar os vinte minutos do banho de mar. Porque
a praia era um amontoado  de observaes. Cuidado com o sol. No demorem
muito por causa Da garganta dele. Se fic Depois do almoo era pedida a
minha caderneta de notas. Tudo se encontrava em ordem: boas notas. Vinha
o exame maior: "Voc se confessou e comungou"? Sim. Rememoravam  Os dias
da semana para ver se eu no devia nada, se no fizera nenhuma
malcriao. Dava para ir.

31

 Vestia-me todo bonitinho para a sesso das duas. Na sada vinham as
ordens. "Bote o bon de couro. Tem quinze minutos para sair do cinema e
chegar aqui". Se atrasasse  Cinco minutos j tinha gente no porto para
me esperar. "V ao Cine Carlos Gomes. Est Me contar o resumo do filme."
Sa desnorteado. Dava tempo de passar no cinema Royal para ver os
quadros. Felizmente tinham desistido da ideia do bom-dia. Eu j  perdera
dois cinemas aos domingos, Porque me negava dar bom-dia ou boa-noite.
Claro que tinha minhas razes. Eles no eram meus pais. Eu fui levado
com menos idade  e no sabia escolher. Tudo e tudo Era motivo para me
castigar. Sempre me faziam sentir que no era filho. Pior ainda, a tudo
eu justificava amargamente: fazem  assim comigo porque no sou filho.
Queriam Me fazer perfeito no sei para qu. Caminhava quase indiferente.
 - Sabe, Ado, o que ele fez comigo? No, voc ainda no morava nem
pensava comigo. Pois bem. Voc j viu que eu sou o mais novo e menor
aluno da minha turma, no  Viu? Ado concordava e escutava atento.
 - Pois bem. Quando comeou o ano e eu entrei para o primeiro ano
ginasial fiquei todo contente e orgulhoso. Deram-me uma lista de livros
e cadernos que no tinha  Mais fim. Somava tudo vinte e cinco mil ris.
Fui correndo ao consultrio do meu pai para m  o que tem mais matrias,
Ado?
 - Ora, Zez, em matria de estudos eu no entendo  nada. S tenho
mesmo  prtica de vida.
 - Desculpe, sim?
 - Est bem, mas continue.
 - Subi a escada do consultrio e fiquei sentadinho esperando que ele
desocupasse e abrisse a porta. Nem demorou muito, mas estava to aflito
que pareceu uma semana.  Ele abriu, fez um sinal para esperar. Fora
atender o telefone e marcar alguma consulta.

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 Tirou e abriu a nota dos livros. Somou tudo devagar, retirou os culos e
me fitou secamente.
 - Voc no vale o preo desses livros. Est bem. Em casa lhe dou o
dinheiro. Ado se impacientou. Queria saber o fim. Mas eu me detivera
porque bobamente me encontrava  com os olhos molhados em plena rua.
 - E o que foi que voc fez, Zez? Continuava engolindo a minha emoo
em pedaos...
 - Fale, Zez, no fique assim. Estou aqui para ajuda-lo. O que foi que
aconteceu, Zez?
 - Bem. Eu morri. Sa dali com a lista na mo como se todos os livros
pesassem como moedas enormes. Veio ento aquele pensamento:
 - Se eu fosse filho, ele no falava assim.
 - No se incomode, Zez. Vamos esquecer tudo. Vamos ao cinema. Voc tem
duas horas de liberdade. Parei para olhar os cartazes. "Uma Lio de
Amor". Maurice Chevalier  e Helen Twuelvetrees. Uma tentao. Nunca vira
aquele artista de chapu de palha. O pre vira numa sesso noturna. Tinha
at me contado a histria e eu poderia repeti-la em casa. Portanto... A
indeciso paralisava minhas pernas. Mas Ado surgiu em  meu socorro.
 - Entre, Zez.
 - Mas se descobrirem?
 - Por que havero de descobrir? No me resolvia. Mandava o bom senso
que Ado me aconselhasse o contrrio. Possivelmente se encontrava
irritado com a histria  que lhe contara e queria me dar uma
Compensao. Comprei o ingresso com a maior naturalidade.  Se no
servisse no deviam pass-lo na matin. Fui para Um lado bem escondido
retirei o meu bon e espere a sesso comear. Felizmente no vimos
ningum conhecido.

33

 De noite no jantar, contrariando o costume, ningum perguntou nada do
cinema. Acreditavam piamente que eu no desobedecera. Que no arriscaria
a perder um ms de  Cinema se contrariasse as ordens recebidas. Naquela
noite antes de dormir fui para o Joozi com os dedos do sonho. Estava
to magnetizado Que minha me estranhou.
 - Voc j passou da hora. Que  que deu hoje? Vamos, chega. Amanh voc
continua. Sentia que ela estava muito satisfeita. Mas no tanto quanto
eu. Vesti o meu  pijama, fui escovar os dentes. Resolvi at economizar
nas minhas oraes. Em vez do Tero cost j rezava tanto no colgio que
fazia calos na boca. O que eu queria mesmo era conversar Com Ado.
Conversar com ele e com o meu travesseiro que era cmplice tambm  de
todo o meu sonhar.
 - Voc acha que o diabo vai me aparecer porque no rezei o tero
inteiro?
 - Bobagem, Zez. No existe diabo. Nunca existiu. As pessoas ms  que
inventam essas histrias para assustar os outros.
 - Mas  s do que eu tenho medo.
 - Mas por qu? Eu estando com voc no tem que ter medo de nada. Nem de
alma, nem de bruxa, nem de besteira nenhuma.
 - Isso, porque voc  corajoso. Eu no posso esquecer as aulas de
religio. Botam o diabo em tudo. S Fayolle fala diferente.
 - Ento? Acredite nele que  melhor. Estava me lembrando de uma coisa.
 - Voc j viu o Padre Monte?
 - Aquele magrinho de culos.
 - Sim. O confessor do colgio. Pois voc nem sabe como  bom a gente se
confessar com ele. Perece que nem escuta o que a gente fala. Vai logo
dando trs pequenas  Ave-Marias e perdoando. Um santo. Fiz uma pausa.

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 - E da?
 - Da. Uma vez eu fui me confessar e no sabia que o Padre Monte tinha
ido a Recife e ficou duas semanas por l. Pois quando entrei no
confessionrio  que notei  A diferena. Era um padre grando com o
nariz pingoso e as orelhas de abano. O danado me pe Um caro danado e me
deu trs teros de penitncia.
 - Mas que pecado to grande uma criana como voc pode ter?
 - Ora, Ado. Pecado, pecado. Pecado que todo menino tem. S que a gente
tinha que se lembrar quantas vezes fez. Eu fiquei to nervoso que nem
sequer me lembrei.  Tudo isso seria muito bom se na semana seguinte eu
no fosse de novo a confisso. Sabe o que
 - No.
 - Perguntou dessa vez com aquela voz fanhosa: ento, dessa vez contou?
Perdi at a fala. Porque no catecismo tinham garantido que o padre
quando sai do confessionrio  Esquece tudo. Estava assombrado. Pouco
mais saa correndo pela igreja afora sem acabar A oportunidade de ir 
praia ou ao cinema. Criei voz e contei tudo. No final o padre estava
furioso. Dizendo que nem sequer tentara melhorar. Que um menino assim
Estava condenado ao inferno. E se eu levasse um tiro e morresse em
pecado mortal? Iria direto para o inferno. Satans estaria me esperando
com um garfo para me  Jogar nas brasas eternas. Fiquei zonzo.
Apavorado. E por fim ele me receitou como castigo trs rosrios de
penitncia. Sabe l o que  isso, Ado? Nove teros. E  Eu teria que
rezar num dia para poder comungar no dia seguinte.
 - E depois?
 - Depois, voltou, felizmente o Padre Monte e tudo ficou como antes: a
gente pagando os pecados baratinho. Mas a verdade  que eu passei noites
horrveis. Ficava  Dormindo de luz acesa e qualquer barulho que
acontecia, tremia da cabea aos ps pensando que ia morrer...

35

  - De hoje em diante no tem mais disso. Estou aqui.
 -  mesmo. Suspendi os braos no travesseiro e suspirei.
 - Que foi agora, Zez?
 - Nada.  que estava doido para vir dormir e conversar outro assunto e
acabamos perdendo um tempo enorme e no tocamos no que interessava. E
agora tenho que dormir  Para levantar-me s seis horas.
 - Ento se  assunto comprido vamos deixar para amanh. Certo?
 - Certo. Bocejei compridamente.
 - Ado!
 - Diga.
 - Desde que voc veio morar comigo que eu estou achando a vida melhor.
 - Isso no  bom?
 - Se . Mas eu fico pensando muitas vezes.
 - No qu?
 - Voc no vai morrer, vai?
 - No, eu no morro. Nunca morro. Meus olhos comeavam a se fechar.
 - Ser que um dia voc vai embora?
 - Isso pode ser. Mas somente quando souber que voc no ir precisar
mais de mim. Vamos dormir?
 - S mais uma perguntinha. Voc gostou?
 - De qu? Da histria do padre?
 - No. Estou falando do cinema. Dele.
 - O artista? O tal do Maurice Chevalier?
 - Claro. S que se pronuncia Morice e no se diz o erre do final de
Chevalier.
 - Voc sabe que eu no entendo de estudos, quanto mais de francs.
 - Isso no importa. S estava ensinando. Sabe de uma coisa, Ado?
 - O que  agora?
 - Descobri uma maravilha. Nem vou falar, seria felicidade demais.

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 - Conte assim mesmo.
 - Ser que ele pode virar meu pai? Ado deu um salto dentro do meu
peito e jogou o sono pra longe.
 - Pai?
 - Sim, pai. Meu pai. Ele nem podia falar de espanto e quando conseguiu
sua voz estava cheia de prudncia.
 - Olhe, Zez, voc teve um pai. Depois como me contou procurou outro
que era um portugus. Depois foi dado para esse pai de criao. Que 
que voc quer mais?
 - Desses todos s o portugus parecia pai. Mas morreu bem cedo e eu nem
tinha seis anos. Agora eu queria um pai alinhado assim como Maurice. Um
pai alegre que parece  Que tudo na vida  lindo para ele.
 - Em resumo, um pai de sonho.
 - Voc me ajuda?
 - Ajudar em qu?
 - Voc no disse que me queria ver feliz? Que veio morar comigo para
criar um mundo de esperanas e outras coisas. Pois bem. A est.  o
momento de me ajudar.  Ajudar A ter um pai de sonhos. Entendeu?
 - Sei bem o que voc diz. Mas para sapo essa histria  muito estranha.
 - Voc nunca teve um pai?
 - Que tive, tive. Mas sapo  diferente. A gente nasce numa poro de
ovinhos juntados por uma linha. Quando chega o tempo a gente vira um
pequeno peixinho negro  Com um rabinho. E passa a vida nadando pra l e
pra c, em bando. Depois a gente vai crescen At ficar grande e viver
comendo mosquito e bichinho. Ou ento obedecer uma ordem maior, como
aconteceu a minha vinda para voc. Nessa altura o meu prprio sono
tinha ido pr belelu.
 - Voc nunca encontrou um seu irmo?
 - Sim, mas foi s de passagem. Ele estava indo viver

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 l para as selvas de Gois. Queria viver perto de um rio grande. Se no
me engano, num grande rio chamado Araguaia. Parecamos estranhos.
Desejei-lhe boa viagem  E ele partiu. Mas vamos dormir. Apague a luz.
Seno daqui h pouco algum vem ver o que h.
 - T bem. Apaguei a luz e ajeitei o travesseiro. Falei a ltima coisa
daquela noite.
 - Mas voc vai ajudar, no vai, Ado?
 - Durma, Zez. Voc tem cada coisa...

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 QUARTO CAPTULO

RISADA DE GALINHA

tar VINHA AFOBADO, quase correndo
ladeira acima, na Junqueira Aires. Precisava encontrar Tarcsio
Medeiros, o nico amigo que  eu tinha. A gente sentava junto na
carteira. Tarcsio nunca me perdoara uma coisa que fizera. Um Um dia na
aula de religio o irmo viera Com a mo cheia de santinhos. Era para
premiar os bem comportados. Olhou a aula inteirinha examinando. Depois
perguntou  com uma certa insistncia:
 - Quem foi que assistiu a todas as aulas sem conversar? Primeiro
levantaram-se os realmente bem comportados. Depois os duvidosos. Os que
tanto podiam ter falado  como no. No  que o sonso do Tarcsio
levantou-se com Toda a seriedade e foi receber? Veio se remexeu dentro
de mim. Ado me instigou: "vai, Zez." Levantei-me e foi aquela risada
de toda a classe. Sabiam que eu falava muito e vivia inventando
traquinagem. No liguei. Caminhei vermelho para a mesa  e estendi A mo.
O santo ficou balanando no espao obedecendo a indeciso do Irmo. Ele
encarou-me curioso. Sua voz era quase uma sentena.
 - Voc no falou, Vasconcelos? Confirmei com a cabea.
 - Est dizendo a verdade?
 - Sim senhor.

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  - Olhe que eu posso no acreditar. Veio a bomba da inspirao.
 - Pois se Tarcsio  meu vizinho e ganhou. Por que eu no posso? Se ele
no falou, com quem eu ia falar? Foi uma risada geral. At o irmo
disfarou o riso com  a mo na boca. O santo desceu e voltei mais
vermelho para o meu canto, ciente da minha desone mas logo ele trouxe
carambola do stio da sua casa e colocou na minha carteira sem que eu
visse. No recreio a gente se Falou como se nada tivesse acontecido.
Agora vinha eu como louco, com o corao aflito. At Ado estava
preocupado. "T vendo, Zez, voc ser muito feliz se tudo terminar sem
que saibam em sua casa."  Pensei para Ado: "que  que voc quer que eu
faa, o negcio pegou, se alastrou." No banco marcado Tarcsio me
esperava. Sentei-me bufando e me abanei com a mo.  O rosto parecia um
pimento. Nem falamos boa-tarde Tarcsio foi logo me dizendo.
 - Ouvi dizer que o Irmo Manuel vai pegar voc hoje.
 - Eu sei.
 - Mas foi voc que inventou a risada de galinha?
 - Nem sei.
 - Como nem sei? Tem que saber.
 - De um certo modo foi. Calamos e nos meus ouvidos parecia ouvir, agora
que o medo aumentava, um coro de vozes rindo a risada da galinha. Aquilo
se alastrara no  colgio. Qualquer coisa Que acontecesse de errado,
estourava a tal risada. Confesso que no c catstrofe. Era no refeitrio,
No recreio. At no dia que Joo Baleia foi-se ajoelhar na missa e
quebrou o banco, a risada estrugiu. Deus do cu! Dentro da igreja  em
pleno ms de maio. O cunhm-cunhm Aparecia em qualquer canto. At nos
dormitrios onde o silncio era uma lei. Se uma cama rangia l vinha o
cunhmcunhm-cunhm  em tom de falsete que desmoralizava Tudo. Os irmos
se reuniram para tmar uma providncia,

40
 Aquilo no ficava bem num colgio fino, de alunos de famlia. E
comearam a dar uma busca para descobrir o autor da inveno. No
demorou muito. "Foi o Vasconcelos!"  Muitos irmos se admiraram.
Custavam a crer que eu, o menor da classe, um garotinho fra Nada poderia
fazer por mim. Dei um pulo e fiquei em p.
 - Sabe de uma coisa Tarcsio? No vou me incomodar com isso. Ele se
espantou da minha atitude. Geralmente eu era to cordato e medroso.
 - Que  isso? Nem estou reconhecendo voc.
 - Pois . Minha vida agora vai mudar. Dentro em breve vou fazer minha
independncia ou morte. Os olhos dele se arregalaram mais.
 - Tanto que no vou falar mais nisso e que resolvi dizer agora mesmo a
voc que ontem fui ver aquele filme, escondido, "Uma Lio de Amor."
 - Voc est maluco!
 - No estou. E o filme no tem nada demais. S uma poro de beijos e
de abraos. Nada mais.
 - Deixaram em sua casa?
 - Nem deixaram e nem souberam. De agora em diante vou mudar.
 - Mas quem  que anda metendo coisas na sua cabea, Z? Quase que o
segredo saiu, mas Ado cutucou-me por dentro. E me contive.
 - Ningum. Agora vamos para o colgio. O que tem de acontecer vai
acontecer mesmo. Entramos resolutos. Todo mundo me olhava com
curiosidade. A notcia se espalhara  com rapidez. Nem bem andara dez
passos e uma voz me estacou:
 - Vasconcelos! Levantei os olhos para Arquimedes. Arquimedes era um
aluno mais adiantado, que mais mandava no colgio depois dos irmos. Era
um brao direito,  uma segurana. Havia at uma certa pena nos olhos de
Arquimedes.

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 Ele em geral to autoritrio me falava brandamente. Fazamos bem um
quadro bblico: Golias e Davi.
 - Siga-me. Obedeci. Nessa hora Tarcsio tinha se sumido no mundo. Fui
escoltado at uma sala vazia.
 - Sente-se. Obedeci. Arquimedes encostou-se numa banca, cruzou os
braos e fitou-me longamente. No parecia acreditar muito em minha
culpa.
 - Ento, Vasconcelos?
 - No sei de nada.
 - Est bem. Calamo-nos e ele ficou rodando entre dedos a correntinha do
relgio de bolso. Esperamos em silncio mais de dez minutos. E se fosse
como antigamente  eu estaria at Tremendo, com vontade de vomitar. Mas
agora era diferente. Ado estava a meu  pouco depois s se ouvia o
chiado das botinas raspando o cimento em direo s aulas. Logo em
seguida o barulho das oraes.
 - Agora, vamos. Segurou-me o brao para que no fugisse.
 - Por favor, Arquimedes, me solte.
 - Posso confiar em voc, Vasconcelos?
 - Dou minha palavra de honra. Soltou-me mas aproximou-se mais ao meu
lado. Sabia onde me levava. Para a classe do segundo ano ginasial. A
maior e mais numerosa.  Entramos. A classe estava apinhada. Outros
alunos permaneciam at em p plos corredores. En salva de palmas
estourou ensurdecedora. No palanque, atrs de sua mesa, Irmo Manuel me
aguardava. Nunca seu rosto de barba negra me pareceu to ameaador.
Nunca  seus olhos negros fuzilaram tanto. Arquimedes deixou-me frente a
frente do Irmo e retirouse. Agora Um silncio de morte gelara o
ambiente.
 - Cruze os braos. Obedeci sem pressa.

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 - Suba aqui no palanque. Obedeci, mas no ato descruzei os braos. A voz
veio mais violenta.
 - J disse ao senhor para que cruzasse os braos. Obedeci encarando-o
orgulhosamente.
 - Abaixe os olhos. Fiquei olhando o bico das minhas botinhas e as
minhas calas malfeitas de pega-bode. Ento ele abriu a fala e foi
rpido graas a Deus. Comentou  sobre a risada. Falou-lhe dos efeitos
"malficos". E ordenou com uma voz que at Satans  risada de galinha
seria expulso do colgio". A turma toda concordou porque com Irmo
Manuel no se brincava. Ele ainda fazia mais do que prometia. Virou-se
para  mim.
 - E para comemorar uma to grande reunio. Para findar de vez com essa
medonha risada de galinha, convoco que os senhores, em coro, comemorem o
mais alto possvel  A despedida dessa coisa horrvel. A maior e a ltima
risada de galinha para o autor. Depoi da monstruosidade que se tornava
aquela risada em falsete. A coisa durou trs minutos. Irmo Manuel pediu
silncio e ainda recomendou ao se retirarem: "No quero  nunca mais
ouvir um pio quanto mais uma risada de galinha."
 - E quanto ao senhor... O dedo crescia para mim.
 - Vai ficar uma semana de castigo de braos cruzados durante todo o
tempo da tarde. Pode se retirar. Sa sem sentir os ps. Mas meu orgulho
me sustentava. Ado  estava admirado da minha coragem. Tarcsio
aparecera e tomava o meu partido.
 - Z, eu guardei sua pasta. Tome. Caminhvamos para a nossa classe.
Meus olhos iam baixos como se medissem o calor do cimento. Tarcsio
falava baixinho.

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  - Quando voc se virou, Irmo Manuel comeou a sorrir. No sei se ele
estava achando gozado ou se se arrependia de ter feito aquilo. Mas a
verdade verdadeira   que nunca mais se ouviu falar da risada de galinha
no colgio.
 - Eu levo a sua pasta para a carteira. No podia nem agradecer. Fui me
encaminhando para o lado do tablado, subi, cruzei os braos e fiquei
como se estivesse petrificado.  Quando acabou o castigo com o bater da
sineta, senteime no cho, tal o meu cansao Penico. Tarcsio tinha
aberto minha pasta e retirado o meu copo. Foi at o filtro e me trouxe
um copo dgua. Passara todo o tempo sem ir ao recreio e sem beber.
Depois ele me segredou.
 - Quando der o sinal dos Vigiados, Irmo Feliciano quer falar com voc.
Ele espera no refeitrio dos irmos. Agora eu vou-me embora. Ser que na
sua casa vo saber?  Dei de ombros indiferente a tudo.
 - Amanh cedo a gente se encontra na Praa do Palcio. Fiz sim com a
cabea. Depois que a sineta tocou, novamente cabisbaixo fui procurar
Fayolle. Ele estava  at plido e preocupado.
 - Pobre Chuch! Sente-se. Voc deve estar morrendo de cansao, no?
Sentei-me mas no tinha coragem de levantar os olhos para ele. Fayolle
tentava afastar para longe  a minha humilhao.
 - Guardei um pouco desse doce. Eu sei que voc gosta.  rocambole.
 - Obrigado, mas no quero.
 - Voc est zangado comigo?
 - Nunca. Mas continuava de olhos baixos. A ele fez uma coisa

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 Que me doeu l dentro. Com as pontas dos dedos levantou o meu queixo.
Fazia exatamente como o meu portugus Manuel Valadares.
 - Se no est zangado coma um pedao e beba um pouquinho de guaran.
Obedecia a contragosto e devagarzinho.
 - Sabe, Chuch, eu no podia fazer nada por voc.
 - Ningum podia mesmo.
 - Mas eu preciso conversar seriamente com voc. Acredita em mim?
 - Claro, Fayolle.
 - Voc no inventou aquela risada de galinha, no foi?
 - Sim e no.
 - No acredito que voc fosse capaz. Diga quem ps a culpa em voc.
Conte-me a verdade. Assim poderei falar ao Irmo Manuel e diminuir o seu
castigo.
 - Voc pode duvidar, Fayolle, mas eu fui culpado da coisa. Eu lhe conto
tudo. Aquilo era uma brincadeira que os meninos da Escola Pblica
faziam, l em Bangu, no  Rio. No fui eu quem inventei no. Apenas
conversando com uma turma eu ca na besteira de c A risada e o fiz
vrias vezes. Acharam gozado e voc sabe como  menino. Batizaram a
rizada de Galinha e a coisa cresceu. Se espalhou logo. Depois todo o
colgio...
 - Oh! Chuch! Voc no  to culpado assim. De qualquer forma
conversarei com o Irmo Manuel. Pelo menos acho que voc ficar s uma
semana. E eu vou reduzir,   Quase Certo, a sua pena para uma hora.
Amanh eu lhe direi. Levantei-me e peguei a pasta.
 - Voc s beliscou. No comeu nada.
 - Depois de tudo isso ningum tem vontade de comer nada.
 - Onde vai?
 - Tenho que ir aos Vigiados para fazer as lies at s cinco.
 - Tem vontade de ir?

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  - Estou morrendo de vergonha e humilhao.
 - Ento vamos conversar um pouco mais. Eu dispenso a hora dos estudos.
Quer?
 - Quero. Mas primeiro eu preciso ir ao banheiro. Estou com a bexiga
cheia. Ele indicou-me a porta.
 - V l no dos Irmos.  at mais limpo. Ficou esperando a minha volta,
mas ao chegar notei que a sua grande apreenso se dissipara. Fez-me
sentar  sua frente.
 - Ento, como foi o seu domingo? ontem?
 - Como sempre. Vim  missa. Comunguei. Fiz os estudos. Os de piano
tambm para variar. A conversa estava dura de sair. Uma tristeza
escorregadia que no acabava  mais doa em meu peito.
 - Chuch, eu estive meditando muito sobre uma conversa que tivemos.
 - Qual delas? Tivemos tantas.
 - Aquela que voc me contou sobre o sapo-cururu que voc tem no
corao.
 - Sei.
 - Como amigo seu eu at pediria que no a contasse para ningum.
 - Tem medo que me levem para o hospcio? Ele riu devagar.
 - No. No  sobre esse aspecto. Falo daquela comparao que voc fez
da hstia. Entende?
 - Entendo.
 - Do jeito que voc falou, muita gente pode pensar que  heresia ou
blasfmia mesmo. Fiquei surpreso.
 - Voc tambm pensa assim, Fayolle?
 - No, porque conheo muito voc e sei que no tem maldade no seu
corao. Foi por isso que pensei muito sobre o assunto. S que gostaria
que modificasse o seu  Raciocnio.
 - No estou entendendo bem.
 -  fcil. Cristo  a maior esperana dos homens, no ?

46

.
 - Voc no duvidou da hstia consagrada, duvidou?
 - Deus que me perdoe. L em casa  proibido a gente jurar pela hstia
consagrada.
 - Pois ento faa o seguinte. Pense que Cristo  a esperana dos homens
e que o seu sapo tambm  uma esperana. Alguma coisa que Cristo lhe deu
como uma graa.  Pensei um segundo sobre aquilo que parecia to difcil
mas no era. Se Fayolle falava assim
 - Est bem. No vou falar mais aquilo. E tambm no vou falar a ningum
de Ado. S a voc.
 - timo. timo. Agora coma mais um pedao de bolo. Uma ideia nova de
contar a Fayolle os outros meus planos estava me arranhando a alma. Ele
descobriu que uma nuvem  De alegria comeava a Varrer a minha tristeza
para os lados de Macaba.
 - Voc no est escondendo nada, Chuch?
 - Como adivinhou?
 - Olhando os seus olhos. Que foi? Supliquei-lhe emocionado.
 - Voc vai acreditar em mim?
 - Sempre acreditei.
 - Pois bem. Voc gosta de Maurice? Ele franziu a testa interrogando-se
antes de me perguntar.
 - Que Maurice?
 - Maurice Chevalier. ~ Ah! O artista francs? ~ Esse mesmo. Eu
desobedeci. Ado estava de acordo e em vez de ir ver filme de meninos
fui ver o seu filme "Uma Lio de Amor."
 - Ih! Chuch! No devia ter feito isso. ~ Por qu? Quem  Maurice
Chevalier? Me conte tudo o que voc sabe sobre ele.
 - No sei muito . S o que ele  um artista. Um Chansonnier. Um artista
de vaudeville.
 - Que  tudo isso?

47

  - Chansonnier  cantor, vem de chanson, voc sabe. Vaudeville  teatro
musicado e danado.
 - Mas o filme no tinha muita dana nem muita msica. At que ele
cantou pouco pr meu gosto. Mas no tenha medo que no escandalizou nada
como se diz l em casa.
 - Mesmo assim no  filme para a sua idade. Alguma pessoa o viu no
cinema?
 - Fiquei escondidinho num canto escuro. Ficamos calados um momento. Ele
coava a sua cabea ruiva de cabelos cortados bem baixo. Deu um assovio
sem msica como  Sempre Fazia quando estava embaraado.
 - Afinal, Chuch, por que tanto interesse nesse artista?
 - Voc j o viu trabalhar? No. Eu sei. Mas ele  to humano. Tem um
sorriso to bom.  engraado. S veste roupas alinhadas. Eu decidi com
Ado que ele vai ser  Meu pai.
 - Credo, menino! J vem voc com mais uma das suas imaginaes. Mas
vendo o meu semblante srio e os olhos quase cheios dgua ele modificou
docemente as suas expresses.  Fayolle voltava a descobrir em mim o
menino sozinho de Sempre.
 - No fique assim, Chuch. Conte mais.
 - S isso. Isso mesmo. Ele pegou nas minhas mos e me perguntou com
seriedade.
 - Mas por que voc quer ter tantos pais? O seu  um homem bom que s
quer a sua felicidade, Chuch...
 - Talvez. Mas eu queria um pai que me visse como gente. Que quando me
desse um presente no alegasse que no mereo. Que esquecesse que eu sou
filho de uma ndia.  Que... Soltei suas mos debrucei a cabea na mesa e
escondi-a entre meus braos. Fui tomad
 - Queria um pai que fosse ao meu quarto me dar boanoite. Que passasse a
mo na minha cabea. Que entrasse no meu quarto e quando eu estivesse
descoberto me

48
cobrisse de mansinho. Que me beijasse o rosto ou minha testa desejando
que eu dormisse bem. Fayolle tocou-me nos braos e esperou a minha crise
se acabar.
 - Eu entendo, Chuch. Entendo. Puxou um leno de xadrez preto e branco
para limpar minhas lgrimas. O pior  que aquele leno se parecia com o
de Manuel Valadares.
 - Vamos, vamos. Limpe os olhos. Assoe o nariz. Voc teve um dia muito
ruim. Tudo concorreu para que sofresse muito. Mas isso vai passar.
Amanh ser um novo dia.  Levantou-se como se tivesse uma grande ideia.
 - Olhe Chuch. Voc pode me esperar quinze minutos. Promete que no
sair daqui? Funguei dizendo que sim.
 - Volto j. Saiu. Demorou-se o tempo prometido e voltou contente.
 - Consegui. Falei com o Irmo Manuel. Ele o espera no corredor. Vai
perdoar o seu castigo. Agora v, Chuch. V com coragem. Sa para o
corredor, e no fim, Irmo  Manuel me esperava rodando as bordas do
cinto. Meus ps danaram-se a pesar como chumbo. Mas
 - Vai, Zez. E nada de malcriao. Irmo Manuel crescera duzentos
metros e agora estava a menos de cinco passos de braos cruzados.
Comecei a caminhar tremendo  todo. No conseguia erguer meus olhos Do
cimento.
 - Vasconcelos! A voz transmudara-se. No devia ser o mesmo homem. A
foi que eu tremi mais. Tremia tanto que as lgrimas saltavam-se dos
olhos. Vendo que me encostara  numa janela Para no cair. Ele veio em
minha direo. Ajoelhouse perto de mim e seguro
 - Que  isso, seu choro? Enfiou a mo no bolso da batina e apanhou um
leno tambm de xadrez preto e branco, limpou meus olhos sem perguntar
nada. S ento ele  fez aquela confisso.

49

  - Eu precisava fazer aquilo meu filho. Pensa que eu gostei? Pensa que
no  duro dizer tudo o que disse a uma criancinha como voc?
Levantou-se e me suspendeu  nos braos.
 - Agora, chega. No se fala mais nisso. Irmo Feliciano me contou tudo
e voc no tem culpa alguma. Est bem? Depositou-me no cho e sorriu no
rosto escurecido  pela barba negra.
 - Tudo certo? Estendeu-me a mo para que a apertasse e eu obedeci.
 - Agora v e esquea tudo. Ele mesmo pegou os meus ombros e girou meu
corpo, Deu-me uma palmadinha me empurrando.
 - Maluquinho!...

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 QUINTO CAPTULO

SONHAR

 L EM  CASA o PESSOAL j no estranhava mais nada
do que eu fazia. Minha irm era elogiada por todas as visitas que
apareciam. Entretanto eu detestava aquilo. Bastava  Saber que tinha
gente e sumia. Se por acaso encontrava-me fora da casa dava um jeito de
entrar pela janela do meu quarto sem que se notasse. Odiava ter de
estender  A mo, dar um sorriso ou murmurar qualquer palavra simptica a
qualquer pessoa que no casse em minha simpatia. Ningum se importava
mais se terminado o piano,  Mesmo que me concedessem uma meia hora de
folga antes de dormir, eu me encaminhasse para o mundo do meu quarto.
Quase sempre j encontrava Maurice sentado naquela  poltrona grande que
ningum queria por estar meio desbotada e com as molas frouxas. Outras
vezes aparecia quando Eu j estava deitado e acabara de rezar. Vinha
sempre naquele seu jeito simptico, abrindo o sorriso largo e mostrando
o brilho dos olhos que variavam entre cinza E azul.
 - Como vai, meu garoto? Abaixava-se e beijava-me no rosto, querendo
logo saber de tudo que eu fizera ou que acontecera. Suas roupas eram
lindas. O vinco da cala  impecvel. E sempre trazia Um perfume fino que
fazia bem s narinas. Mas essa noite estava  muito cedo para ir filmar
nos estdios. Chegando tarde permaneceria Menos tempo comigo.
 - Estou preocupado, Ado.

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  - Bobagem, Zez. Espere um pouco e deixe de ser afobado. Expliquei-lhe
meus receios.
 - Talvez Maurice no tenha filmagem amanh e poder ficar mais tempo
com voc. J no aconteceu uma vez?
 - Trs vezes.
 - Ento... Fiquei calado e comecei a rezar a Nossa Senhora de Lourdes
que adorava. Pra mim ela era a maior de todas as Nossas Senhoras. Eu
tinha tamanho respeito  por Ela que At subestimava as outras. Por
exemplo, sempre achava que Nossa Senhora de Fti era atendido. E Maurice
chegou fazendo surpresa como sempre. Ele entrava por qualquer canto.
Raramente pela porta para no fazer barulho e no chamar a ateno  do
povo de casa. Era delicioso aquilo. Maurice penetrara pelo quarto
descendo pelo teto. No encontrava dificuldades nenhuma em perpassar
qualquer parede ou mesmo  a janela sem que Ela estivesse aberta. E no
havia jeito de querer ensinar aquela mgica.
 - Ento?
 - J estava quase pegando no sono. Voc demorou tanto, Maurice.
Encostei meu rosto em sua mo.
 - As filmagens acabaram mais tarde e como amanh ser folga...
 - Bem que Ado me avisou.
 - Esse Ado  um grande espertalho.
 -  mesmo. Voc no veio de chapu de palha hoje?
 - Estava fazendo frio l. Precisei pr uma roupa mais quente e no
combina com o chapu de palha. Nunca ele explicara bem onde era esse
"l" e tambm ficava com  cerimnia de perguntar-lhe. Uma inquietao
perpassava no meu rosto e isso chamou a ateno
 - O que foi agora?
 - Uma coisa. Tenho pensado muito nesses dias.
 - Pois ento falemos disso. No ficou combinado que no teramos
segredos entre ns?

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 - Mas  dodo perguntar. Como ele ficasse a me indagar com os olhos
desembuchei.
 -  que eu tenho medo que acontea alguma coisa com voc.
 - E por que ir acontecer-me? Senti-me mais aflito e perguntei aos
borbotes.
 - Voc no vai morrer, no , Maurice? Deu uma risada alegre.
 - Pretendo demorar muito a fazer isso. Tenho muito boa sade e
disposio. Vendo que quase eu chorava mudou toda a sua expresso.
 - O que isso agora? Com  mesmo que aquele irmo no colgio chama voc?
 - Chuch.
 - Ento, Chuch que coisa  essa?
 -  porque eu no gosto muito de gostar de algum. E quando isso
acontece eu fico com medo que as pessoas morram.
 - J morreu muita gente que voc quis bem?
 - Muita gente no. S um homem que me ensinou que a vida sem ternura de
nada valia. Contei-lhe rapidamente a histria de Manuel Valadares, o meu
bom Portuga que  um trem chamado Mangaratiba tinha levado. Maurice
apertou-me a mo comovidssimo.
 - Que idade voc tinha, Chuch?
 - Entre cinco e seis anos.
 - . A vida tem dessas maldades. No devia ter-lhe acontecido tanta
tristeza com essa idade.
 - Eu falo isso, Maurice, porque gosto muito de voc. E foi to difcil
encontrar algum como voc na vida que nem sei...
 - Pode sossegar, pode sossegar. Tudo vai continuar bem. No vou morrer
e voc no vai ficar triste.
 - Tambm gostaria de fazer uma pergunta igual a que j fiz a Ado.
 - Voc vai embora um dia?

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  - Quem sabe? Ficarei com voc at voc no necessitar de mim. At
sentir que voc j  um homenzinho que sabe tomar suas atitudes. Est
bem assim?
 - Est, mas isso vai demorar bastante.
 - No sei. Voc  um menino muito vivo. Fiquei um pouco mais consolado.
Entretanto, apesar da presena de Maurice alguma coisa ainda doa l
dentro.
 - Posso s lhe falar mais uma coisa triste?
 - T bem. S mais uma e chega.
 -  curtinha. Sabe Maurice, eu nunca soube para onde levaram o meu
Portuga morto. Nunca. Tambm o que  que pode fazer uma criana de seis
anos? Pouco depois da  Sua morte mudamos de lugar, depois retornamos a
Bangu e logo, logo, fui dado a esse meu pai
 - Ento voc deve esquecer-se das coisas que ficaram para trs e
estudar muito para ajudar os seus. Senti uma vontade de rir.
 - Por que isso agora?
 - Porque muitas vezes voc diz as coisas como Ado. Parece at que
combinaram.
 - Ento o nosso amigo Ado  um moo ajuizado. Todas as pessoas tem ou
vo adquirindo uma coisa que comea a nascer em voc e que se chama
simplesmente bom senso.  Agora vou ficar mais um pouquinho, porque j 
tarde. No por mim. Mas por voc que tem de
 - Voc toma caf na cama como fez no filme?
 - Sempre.  muito agradvel.
 - Aqui no Brasil a gente  muito atrasado. No se usa isso.
 - Tambm no  muito necessrio. Quando preciso vou  mesa como
qualquer pessoa.
 - Maurice lembrou-se.
 - Ontem voc ia contar algo e adormeceu antes de comear. A histria da
guerra da farda. Lembra-se?
 - Foi uma guerra danada mesmo. Mas no sei se inte-

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 Ressa muito. No teve um fim horrvel como a risada da galinha.
 - Ento foi uma estripulia sua no colgio?
 - Foi. Mas no passei dessas duas. Quando entrei no colgio no ano
passado a farda da gente era abotoada at o pescoo. E voc nem pode
imaginar como isso incomodava.  Com o calor que sempre faz de dia. A
gente trancado naquelas classes quentes. O suor e A farda e virei o
colarinho. Puxei a camisa para fora deixando a gola entreaberta sobre a
farda. Ficou uma lindeza. De agora em diante, s a usaria assim. Logo
que  Sasse de casa, j sabe, gola aberta e camisa pra fora. Mas nem
tudo saiu como eu pensava. De cara na entrada do colgio dei com o
diretor, o Irmo Jos. Maurice,  Aquele irmo  francs como voc. S
que tem umas sombrancelhas to grossas e to unidas que parecem a ponte
de Igap. Quando ele se zanga aquela massa preta se  Levanta sobre a
testa parecendo a figura de porco-espinho.
 - Que novidades so essas, Sr. Vasconcelos. A voz rugiu.
 - Componha-se! Obedeci tremendo e beijei sua mo peluda e suada. Quando
voltava para casa, parei no banco do jardim da S. Joguei minha pasta e
entreabri a farda.  Que gostosura. Meu amigo estranhou aquilo.
 - Experimente, Tarcsio.  bom que  danado.
 - No. Se passa um irmo por aqui a gente toma caro.
 - Passa nada. A turma est rezando brevirio ou coisa parecida essa
hora. E mesmo, a gente est fora do colgio. Mesmo assim Tarcsio no se
decidiu.
 - Vou experimentar no meu quarto l em casa. O diabo me atiou a ideia.
 - A gente podia comear uma guerra. A guerra da farda.
 - E terminar levando uma daquelas como voc levou com a risada da
galinha?
 - Se voc no quer, no faz mal. Vou comear e voc vai ver como pega.

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 De fato, todos os momentos possveis l estava eu de farda
revolucionria. O atrevimento chegou a tal ponto que aparecia nos
recreios com a farda entreaberta. Entrava  Na aula e l vinha a voz.
 - Vasconcelos, postura. Obedecia. Mas na primeira oportunidade voltava
a insistir. A foi o diabo. Virou ladainha. Lengalenga. Vasconcelos,
postura. Postura Vasconcelos.  Vasconcelos, postura. Postura
Vasconcelos. E a coisa crescia.
 - Vosconcelos, castigo. Fechava a farda e ficava contra a parede de
braos cruzados. Veio a ameaa.
 - Voc vai perder nota no boletim, Vasconcelos. Perdia nota, levava
caro, ameaavam at de telefonar  minha casa. Isso seria o pior.
Felizmente a ameaa no  vingou. Lutei tanto por minha guerra que ela
logo deu frutos. Tudo que  errado pega logo. Os  Postura! Castigo!
Notas! e zs! bastava a turma se safar do colgio e as fardas comeavam
a ser abertas. Agora estava defronte de Fayolle.
 - Chuch, no faa isso. Feche a farda. Ficava com pena dele e fechava.
 - Desculpe, Fayolle.
 - Agora voc tem que ir comigo at a sala de reunio dos irmos. Por
que voc faz isso, Chuch? Nunca vi um pinu como voc inventar tanta dor
de cabea. Segui  lentamente os passos de Fayolle. Penetramos no recinto
amplo. Todos os irmos do colgio estav me postasse bem em frente mas
no exigiram que cruzasse os braos. Era horrvel ser observado em
silncio por todos aqueles olhares auteros. O prprio Fayolle
Sentara-se do outro lado. Se desviava do Irmo Manuel dava em cheio com
os olhos do Irmo Joaquim. Apenas o Irmo Flvio tinha um ar simptico e
disfarava um sorriso.  Po-

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 Deria at pensar um pouco mais se o encarasse rindo ele daria uma bruta
gargalhada. Quem iria tomar a iniciativa da acusao? Uma coisa se
tornava evidente. Estavam  empurrando no silncio a bola de um para o
outro. Irmo Luiz nunca tomaria essa iniciati Irmo Joo nem queria
olhar para o meu lado. Pois fora ele que me desenvolvera o gosto para o
portugus e ainda por cima Se orgulhava disso. Irmo Estvo, conhecido
pelas costas por Frankstein, na certa preferia me dar uma palmada e
deixar a coisa como estava para ver se melhorava. Mas a atitude partiu
mesmo do irmo diretor.  Suas imensas sombrancelhas se movimentavam
devagar.
 - Sr. Vasconcelos. Pronto! Estvamos em cena os dois. Meus cabelos
loirinhos quase brancos se empapavam na testa suada. O que saiu da minha
garganta no foi voz  e sim um arremedo.
 - Presente, Irmo Jos. Fayolle afundara o olhar sobre a banca e
deveria j ter contado todas as manchas ali existentes. Talvez at
rezasse por mim.
 - Bem, Sr. Vasconcelos, o Sr. vai nos dar o prazer de mostrar como usa
a sua farda, pois no? Fiquei indeciso. Mas as suas sombrancelhas
espessas se levantavam  fazendo que os seus olhos negros e brilhantes
parecessem uma coruja zangada.
 - Por que essa demora? O Sr. se envaidece de us-la assim a toda hora
desrespeitando a disciplina colegial. Meus dedos gelados demoravam a
acertar entreabir os  colchetes da gola. Tremia todo. Entretanto urgia
obedecer. Consegui o desejado e pouco mais a
 - Foi o Sr. quem inventou essa moda? A voz no saa. Irmo Manuel
arriscou um palpite.
 - No vai dizer agora que no foi o autor. A risada da galinha est
certo. Ns aceitamos a explicao. E agora?
 - Fui eu mesmo, Irmo Diretor. Eu sozinho.
 - E por qu?

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 Que adiantaria negar? Iria jogar com a sorte falando a Verdade.
 - Porque  uma farda muito feia.
 - E que mais?
 - Porque assim a gente no sente muito calor e no Fica com falta de
ar.
 - Mais alguma coisa?
 - Fica mais bonita desse jeito.
 - Mais alguma explicao?
 - Com a farda aberta eu tenho sempre pouca dor de cabea. Tem horas na
aula quando a gente presta muita ateno e faz muito calor minha cabea
arrebenta. Calei-me  E os olhos estavam cheios dgua. A voz do Irmo
Jos apareceu to branda que me assustei.
 - O Sr. sabe o que o espera?
 - Na certa, vou ficar de castigo a vida toda. Vou escrever mil linhas
dizendo que no devo usar a farda assim. Por fim vo telefonar para
minha casa e perderei  Todos Os meus cinemas e a praia. Dizem que
corao no di mas o meu doa. Primeiro comeou u no rosto.
 - E eu... eu prefiro morrer. Arrombar o vidro do armrio de Qumica,
pegar uma pedra de veneno. Assim ningum vai mais judiar de mim.
 - Est bem. Est bem. No precisa morrer dessa vez. Quanto ao castigo 
uma coisa a estudar. Agora, retire-se e v se sentar na sala do Irmo
Feliciano e depois  O chamaremos. Obedeci. Andando como se tivesse
emagrecido muito e no pesasse nada. Fiquei s sumir pelo Primeiro
buraquinho que aparecesse. Perdi at a noo do tempo. E s dei por mim
quando a grande sineta ordenava o reinicio das aulas. Levantei os  olhos
e Fayolle vinha caminhando devagar para o meu lado. Seus olhos possuam
um ar de grande

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 Satisfao. Passou por mim e dessa vez nem quis brincar segurando as
borlas do seu cinto.
 - Chuch! No atendi ao seu chamado. Nem sequer sentia vontade de olhar
em sua direo.
 - Olhe, Chuch, tenho uma grande novidade para voc. Certamente
conseguira reduzir a minha pena. Ou ento no iriam mais telefonar para
a minha famlia.
 - S conto se voc olhar pra mim. No fique zangado comigo porque por
nada nesse mundo eu gostaria que tivesse acontecido toda essa confuso.
Suspendi os meus  olhos para ele. Seu rosto era de novo aquele sol
iluminado de bondade. Com uma mo segurava um
 - Voc acredita em mim, Chuch?
 - Acredito sempre. Se no acreditar em voc em quem mais vou acreditar
na vida?
 - Ento venha c. Obedeci e ele suspendeu meu rosto suavemente.
 - Aconteceu um milagre, Chuch. Um milagre que nem eu mesmo esperava.
Sabe o que foi? Voc ganhou a guerra.
 - No vo me punir, Fayolle?
 - No. Ao contrrio. Cresceu a admirao por voc porque acharam que
voc  muito inteligente. Discutiram muito e chegaram a concluso que a
razo se encontrava  Com voc. Se ele no fosse um religioso eu at que
daria um beijo no seu rosto bondoso como
 - Agora, eu s lhe conto o resto. O que decidiram se voc me responder
o que quero saber com honestidade. Fiz uma cruz no peito, jurando.
 - Voc no falou a verdade dizendo que... aquele negcio do veneno. Que
iria roubar na sala de Qumica, falou?
 - Eu menti, Fayolle. Ele respirou forte se aliviando.
 - Eu menti, Fayolle. Porque no precisava arrombar o vidro do armrio.
Uma vez Irmo Amadeu estava tirando

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 a poeira das pedras e eu o ajudava. Quando ele se distraiu eu roubei um
pedao que trago sempre comigo. Muitas vezes eu sinto vontade de morrer.
De novo os olhos  Tentavam me trair.
 - Mas Chuch, voc  uma criancinha ainda. Nem chegou a fazer doze anos.
Por que pensar assim?
 - Porque eu sou uma criana desgraada, desgraada. Sou um menino
infeliz e todo mundo vive me dizendo que eu no valho a comida que como.
Que sou ndio. Que sou  Bugre Pinag. Que nasci para pegar na enxada. A
me rebentei de chorar.
 - Tudo isso  bobagem. Voc no  nada disso. O que se passa  que voc
 um menino muito estudioso, muito inteligente e muito vivo. Voc no
diz que todo mundo  Se admira de voc ser to pequenininho e ser to
adiantado? Voc se esqueceu que vai ser o  Chore. As coisas vo
melhorar com a passagem do tempo. Eu sei que voc ser uma criana feliz
como qualquer outra. Eu no sou seu amigo? Pois bem. Muita gente no
Mundo no tem sequer um amigo. Voc no acha? Minha emoo triste
esbarrava na bondade do Irmo Feliciano e equilibrava meu bom senso.
 - Assim, sim. Tome. L vinha de novo o leno de riscadinho branco e
preto.
 - Est melhor assim?
 - Est.
 - Se eu lhe pedisse uma coisa voc faria? Mas uma coisa de amigo para
amigo. Promete?
 - Prometo.
 - Olhe que voc me prometeu. Se cumprir vou mandar comprar balas de
figurinha. Aquelas balas Holandesas que todo menino coleciona no lbum.
Voc no coleciona?
 - No. Nunca tenho dinheiro para comprar. Quando tenho vontade de tomar
sorvete que me faz mal  garganta, gasto o dinheiro do bonde e volto a
p para casa. Fayolle  juntou as mos e suspendeu-as.
 - Um monto assim.

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 Sorri.
 - No  preciso, Fayolle. Pra voc eu fao tudo sem precisar de
presente. O que ? Uma indeciso se manifestou em seu rosto como se
temesse perder uma parada.
 - Deixe-me ver a pedra do veneno. Nem retruquei. Enfiei a mo no bolso
do dim e o som de trs bolinhas de gude repercutiu. A pedra se achava
aninhada entre elas.  Trouxe-a  palma da mo e ela na Luz ficou mais
linda e azul.
 - Pode pegar nela. Fayolle segurou-a entre os dedos.
 -  bonita, no ?
 -  bonita mas muito triste. E sobretudo perigosa. Olhou-me l no fundo
dos meus olhos. Olhou-me como nunca fizera antes. Sua voz suplicou-me:
 - Voc no quer me dar essa pedra, Chuch?
 - Pra que voc quer, Fayolle? Voc  feliz. Tem Deus no corao. No 
assim que voc fala?
 - Certo. Mas no quero que o meu pequenino Chuch morra ou faa e pense
besteiras. J imaginou como vou ficar preocupado se souber que voc tem
sempre isso no seu  Bolso ou imaginar o perigo que voc corre?
 - T bem, pode ficar com ela. Se eu quiser morrer vou procurar outro
jeito. No faz mal.
 - Isso. Assim que eu gosto. Voc tem muito que viver, meu filho, e esse
negcio de morrer a gente deixa na mo bondosa de Deus. Vencera a
parada.
 - E o resto, Fayolle?
 - Que resto, Chuch? Com a emoo da nossa conversa se esquecera de
tudo. Bateu na testa sem fora.
 - Que cabea essa, meu Deus! Deu uma risada feliz.
 - Acontece que o milagre aconteceu como eu disse. No s no vo
castigar voc como permitiram que usasse a farda como bem quisesse.
Estamos quase no fim de julho.  Qualquer aluno poder usar a farda como
bem aprouver.

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 No ano que vem j foi combinado. A nova farda vai ter esse
formato. Voc venceu, Chuch. Agora v. Pode entrar atrasado que Irmo
Amadeu no dir nada. J foi  Combinado. Fiquei em p sem me decidir
olhando a sua felicidade.
 - Viu, Chuch, como a vida s vezes  bonita?
 - E  mesmo. Fui caminhando de costas at a porta para no perder um s
daquele momento da sua alegria. Ainda parei na porta a ponto de ouvir o
seu comentrio:  coeur d'or! Virei-me para Maurice e ele me fitava
carinhosamente.
 - Falei demais, no falei, Maurice?
 - No. Foi interessante.
 - Pois estava pensando que a conversa era chata.
 - Nem um pouco. Sabe, meu garoto, que voc  uma das mais raras
sensibilidades que j encontrei? Aquilo dito por Maurice me deixava todo
inchado. Olhou o relgio  De pulso.
 - Que lindo!  de ouro?
 - Todo. At a pulseira.
 - Nunca vi coisa mais linda no mundo. Na verdade no tenho visto muito
relgio na vida. Quando eu crescer vou ter um, um dia.
 - Certamente. Mas sabe o que o relgio est dizendo? Que so horas de
criana fechar os olhos para sonhar.
 - Voc sonha muito, Maurice?
 - Poucas vezes. A gente vai ficando homem, caminhando na vida e as
coisas vo sempre se modificando.
 - Pois eu sonho pra burro.  s deitar a cabea no travesseiro, alisar
o corao como Ado me ensinou e pronto.
 - Quem me dera. Quem me dera. Ento vamos ver como voc se apronta para
sonhar.
 - Assim. Amoleci o travesseiro e coloquei a cabea nele. Maurice puxou
o lenol sobre o meu peito.
 - Agora, "monpti", vou lhe avisar uma coisa para que no sofra muito.
Est bem? Vou passar uma semana sem poder aparecer. Mas logo que puder
voltarei. Portanto,  S na prxima quinta-feira.

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 Segurei suas mos entre as minhas e ele as foi retirando lentamente.
Passou a mo nos meus cabelos.
 - Maurice, o que  que  "monpti"?
 - A abreviao de Mon petit. Meu pequenino.
 - Sei. Fechava os olhos com fora para no v-lo partir. Estava
chegando o momento que ele era mais meu pai. Maurice me beijou no rosto
e sussurrou.
 - Boa noite, Chuch. Sonhe, meu filho. A paz da noite, a paz do escuro
se fizera no meu quarto. O sono vinha chegando to forte que mal pude
ouvir uma vozinha l  longe muito amiga, muito amiga.
 - Boa noite, Zez.
 - Boa noite, Ado.

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 SEXTO CAPTULO

Vamos Aquecer o soPaul Louis Fayolle l

AFINAL, ZEZ, pare com isso por amor
de Deus! Chega. Logo voc far doze anos e tem que mudar.  uma chorao
que irrita qualquer  cristo. Chega! Pare com isso.
 - Eu sei, Ado, mas voc viu como as coisas acontecem. Por mais que eu
queira, fico com os olhos sempre molhados.
 - E da? Voc no  um homem?
 - Sou sim. Sou homem mas tenho vontade de chorar, pronto. J ia ficar
emburrado. Ado se apercebeu disso e mudou a ttica.
 - Olhe pela janela, Zez. O dia est to lindo, o cu to azul, as
nuvens como carneirinhos, tudo to igual como no dia em que voc soltou
o pssaro do seu peito.  Principei a achar que Ado estava certo.
 - Sobretudo o sol, Zez. O sol de Deus. A flor mais linda de Deus. O
sol que aquece e faz germinar as sementes. Lembrei-me de uma poesia que
a gente lera na classe  e que falava do sol germinando as sementes.
Aquele Ado era um danado.
 - O sol que amadurece tudo. Que torna o milho da sua cor e transparece
as guas do rio. No  to lindo, Zez?
 -  sim. Eu no gosto quando o dia no tem sol. Acho bonita a chuva que
vem e vai logo. Quando ela demora muito a gente fica cheio de bolor.
 - Se esse sol de Deus  to lindo imagine ento o outro. Fiquei
espantado.

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 - Que outro sol, Ado? S conheo esse que por si s j  muito grande.
 - Falo de um outro maior. O sol que nasce no corao de qualquer um. O
sol das nossas esperanas. O sol que aquecemos no peito para aquecer
tambm os nossos sonhos.  Fiquei maravilhado.
 - Ado, voc tambm  poeta, no?
 - No. Apenas percebi antes que voc a importncia do meu sol.
 - E o meu?
 - O seu, Zez,  um sol triste. Um sol cercado de lgrimas em vez de
chuvas. Um sol que no descobriu todo o seu poder e a sua fora. Que
ainda no embelezou todos  Os seus momentos. Sol fraco, meio aborrecido.
 - E o que preciso fazer?
 - Pouca coisa.  s querer. Voc precisa abrir as janelas da alma e
deixar entrar a msica das coisas. A poesia dos momentos de ternura.
 - A msica como as que toco?
 - No  bem assim. Voc faz msica de dentro pra fora.  uma msica sem
finalidade.  preciso que ela venha pra dentro da sua alma.  voc que
se precisa regar  De Msica e no fazer uma msica fria para os outros.
Continuava espantado com tudo que Ado
 - O principal, Zez,  voc descobrir que a vida  linda e o sol que
aquecemos no peito foi-nos dado por Deus para aumentar todas essas
belezas.
 - Quer dizer que chorando eu empapo os raios do meu sol.
 - Claro. E eu vim aqui para no deixar o seu sol esfriar. Est certo?
Concordei.
 - Ento aperte a minha mo como amigo e vamos aquecer o sol!
 - Como  que eu posso apertar a sua mo se voc est escondido no meu
peito.
 - Pense como das outras vezes.

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5 Vamos aquecer o sol
 Fechei os olhos e pensei. Imediatamente senti a sua mo quentinha roar
a palma da minha mo.
 - Ado vamos conversar?
 - Isso no  hora, Zez. Voc deve concentrar-se no estudo. Na subida
da ladeira quando a gente for para o colgio, conversa.
 - No tem perigo, no. Eu posso tocar isso at de olhos fechados, quer
ver?
 - No, Zez. Por amor de Deus. Estou ouvindo passos l em cima. Sua me
j acordou. Daqui h pouco ela desce.
 - Est bem, se voc no quer. Voltei para as minhas fusas e semifusas,
colcheias e semicolcheias. Uma mola estourou por dentro da minha
saudade. Tuim! Teria que  esperar mais trs dias para que Maurice
voltasse. E de nada adiantava apressar o corao. El vezes me fizera
surpresas? Uma quando naquela quinta-feira eu estava com o diabo no
corpo e abrira Joozinho de mau Humor. Minha vontade era socar todas as
notas,  ver as cordas se partirem com molinhas voando por todos os
lados. At a boca desejava morder aqueles martelinhos de Feltro l
dentro. Era uma daquelas horas que  nem sabia como principiar os
exerccios. Nem por sombra a possibilidade de acender o meu sol.
Sentei-me no banquinho Sentindo a alma com a lngua de fora. Os dedos
se encontravam duros como varetas de ferro. Nisso ouvi um psiu e me
virei encantado.
 - Ol, Chuch.
 - Voc aqui a essas horas? Maurice sentara-se numa das poltronas da
sala e punha o dedo nos lbios como a me pedir silncio. Sussurrei bem
baixinho.
 - Por que voc veio?
 - Senti que voc precisava de encorajamento.
 - Hoje preciso mesmo.
 - Nem tanto. Toque para mim, s para mim. Obedeci e tudo se transmudou.
Fiquei to envolvido que

66
 Nem sequer ouvi minha me que descera para me ver estudar. Quando ela
assim fazia era por se achar muito satisfeita com os meus progressos.
 - Assim  que eu gosto. Estudando sem m vontade e com afinco. Fiquei
apavorado com medo que ela fosse se sentar no colo de Maurice.
Felizmente ela escolhera outra  cadeira. Outra vez Maurice me apareceu
em plena porta da aula, fez uma reverncia, tirou  sua alma. De repente
a figura de Maurice se transformou noutra bem distante. Naquela em que
eu me imaginava na escola pblica e via na minha ternura o meu Portuga
me dando Adeus. Ia ficar triste quando Ado me advertira.
 - Zez, Zez, olha o sol! Tinha razo. No poderia nunca ter o meu
Manuel Valadares. Nunca, nunca. Um trem malvado o matara.
 - Esquea Zez. Pense em Maurice que  melhor. E era mesmo. Maurice no
ia morrer nunca. Ele mesmo prometera. No havia trem, aeroplano, navio,
couraado, coice  De cavalo... Nada que pudesse fazer-lhe mal. Contudo
Maurice estava longe e precisava espera
 - Ado, podemos conversar agora?
 - E sua me?
 - Ela demora ainda e o que estou tocando  canja.
 - Que tanto voc me quer dizer?
 - Voc gostou daquele irmo magrinho e alto que chegou?
 - O Irmo Ambrsio?
 - Ele. Voc no apreciou a aula de literatura que ele deu? - - Pra
falar a verdade, Zez, quando vi que voc estava to entretido e
interessado, aproveitei para  Tirar um bruto cochilo.
 - Que crime, Ado. Ele  timo. Vai ser o nosso professor no ano que
vem. Tudo que ele diz  diferente e prometeu que vai puxar pelo bestunto
da gente.
 - Puxar pelo qu?
 - Bestunto. Foi assim que ele falou e explicou; se voc

67

 no tivesse dormido saberia o que era. Bestunto  o mesmo que cabea.
 - Sei.
 - Mas no vai dizer que voc tambm dormiu hoje na hora da missa?
 - Ah! Ali estava acordadssimo. Foi uma das coisas mais gozadas que eu
j ouvi.
 - E se voc visse.
 - Foi o mesmo que se estivesse vendo. A cena estava vivinha na minha
memria. Na tabuletinha da parede estava escrito o numero 214, um
cntico em louvor a So  Jos. A gente comeava a cantar regido pelo
Vozeiro de Irmo Jos e acompanhado pelo harmnio
 - "Voai, voai, celeste mensageiro Ide a Jos com fervor recorrer Que
suavize o transe derradeiro Do Cristo que vai perecer... Do Cristo que
vai perecer."  Depois entrava outro verso e a gente voltava ao refro.
 - Acontece que Irmo Jos caiu no maior dos sonos. At a cabea ficou
pendida. Ningum tinha coragem de acord-lo. Nem mesmo os outros irmos.
Aquilo deveria se  Dar normalmente. Mas no aconteceu. Quando soou a
sinetinha do evangelho e todo mundo j tin E meteu sozinho o vozeiro.
"Voai, voai, celeste mensageiro Ide a Jos com fervor recorrer..." Foi
aquela gua. A risada estourou larga. Precisou o Irmo Ambrsio de um
lado e o Irmo Manuel  de outro, ficar andando ao lado das fileiras de
bancos para refrear A hilaridade. Mesmo assim alguns alunos pegaram
banca. Eu passei pela tangente como dizia Irmo  Joaquim. O Irmo Jos
ficou vermelho como um pimento.
 - Voc acha Ado que Fayolle riu?
 - Nem por sombra.
 - Nem por dentro?
 - Duvido. Aquele irmo  um anjo.

68

 - Gordo daquele jeito? Nunca vi anjo assim.
 - Estou falando no sentido figurado.
 - Voc est  falando difcil. Fiquei um momento imaginando Fayolle de
asas bem grandes e douradas com os braos cruzados no peito anunciando a
Virgem. No, no  dava certo. Naquela mesma tarde eu fui conversar com
Fayolle. Queria saber umas coisas. Mas  olhou com simpatia.
 - Voc no riu mesmo, Fayolle?
 - Que ideia, Chuch.
 - Mas no foi engraado?
 - Concordo que foi.
 - Nem por dentro voc riu?
 - No podia Chuch. Ele  um velhinho. Foi duro e humilhante para ele,
no acha? Voc ainda  muito criana para sentir isso. Sem dvida Ado
tinha razo como sempre.  Fayolle era um anjo. Olhei insistentemente
para a sua figura e tentei imaginar umas asa
 - Que tanto voc me observa?
 - No  nada no. Fayolle ser que voc sabe de uma coisa?
 - Que ?
 - Como  que anjo voa? Ele sorriu.
 - L vem voc com as suas ideias.
 -  srio. Eu queria saber. A gente s v anjo parado de asas fechadas.
Sempre de braos cruzados como quem acabou de voar e est chegando. Ser
que eles batem  Asas Como andorinha e pardal? Fayolle coou os cabelos
vermelhos e encaracolados. Pena que n zero s deixando uma trunfinha na
Frente.
 - Olhe, Chuch, pra falar a verdade no sei e nunca tinha pensado nisso.
Deve ser porque os anjos no gostam

69

 que sejam vistos voando ou porque voam no escuro e as pessoas no podem
ver. A explicao no me satisfazia muito, mas vendo o esforo que
Fayolle fazia para me  dar uma resposta resolvi concordar.
 - E agora?
 - Posso falar com voc de homem pra homem?
 - Chuch no me venha com complicaes.
 -  que eu ouvi uma coisa.
 - Que coisa?
 - Estou desconfiado do que seja mas quero saber o certo.
 - Bem, diga.
 - O que vou lhe perguntar eu j ouvi duas vezes. Primeiro pelo Irmo...
Segredei o nome do irmo ao seu ouvido.
 - E depois quando Maurice me contou uma coisa em que ficara muito
zangado.
 - Que foi, desembuche logo.
 - Est bem. Mas voc deu licena. Que  que quer dizer M? E-M-E? Ele
botou a mo na boca para no soltar uma baita de uma risada.
 - Quer saber mesmo, Chuch?
 -  bom a gente saber de tudo.
 - Pois bem. M  o mesmo que Merde.
 - Igual a nossa, mas s com E no fim?
 - Exatamente.
 - Que gozado!
 - Que acha voc de gozado nisso?
 - Em francs  to bonitinho. Parece o nome de uma gatinha de luvas. J
sei.
 - Voc no pode estar falando isso na frente de todo mundo, Chuch.
 - No vou falar mesmo. L em casa quando tomo caf sozinho, pela janela
eu vejo o muro. E sempre aparecem duas gatas magricelas. Uma  Miss
Snia em homenagem a  Uma inglesa velha que vive fazendo tric. A outra
 Diluvia em homenagem  Arca de No que e

70
 Para viajar nela. Ontem apareceu uma outra gatinha sem nome. Ela anda
to de mansinho como se estivesse de luvas. Vou botar esse nome nela.
Fayolle ria a no  mais poder.
 - Gosto de voc assim, Chuch. Maluquinho inventando coisas. Sem aquela
tristeza de antigamente.
 - Desde que Ado veio que um sol de alegria aparece sempre em mim.
 - Isso  bom. Mas, diga-me Chuch, como  que voc sabe que so trs
gatas? Fayolle estava me cotucando pra que eu dissesse besteira.
 - Muito simples. Dadada me disse que s as gatas tem trs cores. E isso
ela aprendeu no serto.
 - Est vendo. Mais uma. Vivendo e aprendendo. Um cotuco arranhou o meu
peito. A voz de Ado vinha angustiada.
 - Chega, Zez. Pare de sonhar. Sua me acabou de descer as escadas e
est vindo para o nosso lado.
 - Que seria agora, meu Deus? Estudara direitinho. Ela no dera l de
cima nenhum sinal alarmante...
 - Pode parar, um pouco. Minhas mos obedeceram e me virei para o seu
lado. Ela se sentara na cadeira de Maurice e isso me fazia mal.
 - Venha sentar-se aqui defronte. Trazia um papel em suas mos enrolado
e nos olhos uma tristeza como nunca vira. Foi diretamente ao assunto.
 - Voc sabe que seu pai est doente e vai ser operado? Como poderia
saber. Ele estava sempre vermelho e forte. Verdade que de vez em quando
tinha umas febres esquisitas.  Chegava a quarenta graus e no dia
seguinte j se encontrava debaixo da gua do chuv
 - Pois ele vai ser operado. Vamos passar dois meses no Rio para isso.
Por que ela estava me contando aquilo? Mesmo antes de a gente tomar
caf?

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  - Est vendo esse papel? Desenrolou-o.
 - Leia.  alguma coisa que "deveria" interessar a voc. Numa letra meio
garranchosa estava escrito: Valsa Nmero 10, a Valsa Chopins 64, no 2 e
Noturno-Opus 9 n.  2, De Chopin.
 - Sabe o que  isso?
 - Sei.
 - So encomendas que Dona Maria da Penha fez para que eu trouxesse do
Rio. Ela vai fazer um recital de seus alunos no Teatro Carlos Gomes e
voc iria abrir o espetculo.  Ela disse que se puxasse mais por seus
estudos at que voc poderia fazer exame par
 - Quando viajarmos para o Rio voc vai ser internado no Colgio Santo
Antnio. Minha alma deu um salto mortal. Que bom!
 - E durante dois meses voc no ter quem controle os seus estudos.
 - E como poderia? Estudar naquela baguna do colgio. Com meninos
fervendo em todo canto. E ainda mais com um piano surdo, cego e vesgo.
Desafinado e velho. Tonto  E poeirento.
 - No adianta dizer nada. Sei do que estou falando. Vou lhe fazer uma
pergunta muito importante. Que ser muito importante em sua vida. Olhou
com os olhos calmos  para o meu rosto como se adivinhasse
antecipadamente a minha resposta.
 - Voc quer continuar estudando piano? Sim ou no? Ado me futucava
aguadamente. "Diz logo que no, bobo. No  por isso que voc esperou a
vida inteira?"
 - Sim ou no? A resposta veio seca e dura como se meus lbios fossem de
pedra.
 - No. Ela tomou-me o papel das mos.
 - Est bem. Voc decidiu. Continuar estudando at

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 A prxima aula e ir devolver isso  sua professora.  uma pena! A
desabou a tempestade. No que me gritasse ou falasse duramente. Parecia
mais que ela falava  para si mesma.
 - Quando voc fechar esse piano, nunca mais poder abri-lo, entende?
Nunca mais. Mas tambm nunca darei lpis ou tinta para voc fazer um
desenho ou uma pintura.  Tudo que se refira a isso ser proibido.
Somente o que for necessrio nas lies do colgio Para voc iniciar uma
coleo e tantas outras coisas mais. Agora no tem nada disso. Ergueu-se
com o papelzinho na mo.
 - Voc decidiu. Agora feche o piano e v tomar o caf. No se demore
para no chegar atrasado ao colgio. Virou as costas e saiu.
 - Que foi que se rebentou dentro de mim, Ado?
 - No sei. Mas se voc tomou uma atitude no volte mais atrs. Agora
voc poder subir em rvores, fazer exerccios e outras coisas, no 
muito bom?
 - . Dizia aquilo sem muita convico. Mas de uma coisa estava certo.
No voltaria atrs. Fui estendendo o pano verde de feltro sobre as
teclas de Joozinho com  um cuidado que nunca tivera antes. Olhei seu
nome escrito em letras de ouro: Ronish. Fechei  de traio a um amigo.

73

 STIMO CAPTULO

O ADEUS DE JOOZINHO

 TENHO MAIS trs dias de estudo,
Ado, e uma aula para e despedir da professora Dona Maria da Penha.
 - Ela vai sentir?
 - No creio. Tantas vezes lhe falei que queria deixar de estudar. Tanto
reclamei. Tamanha era a minha m vontade que ela na certa ficar at
aliviada.
 - De uma coisa voc tem que ter certeza. Falou que deixava, pronto.
Nada de voltar atrs ou deixar que os outros influenciem a sua deciso.
Porque, Zez, essa   Uma oportunidade nica. Se no deixar agora no
deixar nunca. Vai ficar velhinho de cabelos
 - No voltarei.
 - E fique certo que sua me vai cumprir a promessa. Nunca mais colocar
os dedos nas teclas do piano.
 - E pensa que eu quero?  como missa. A gente e obrigado a assistir a
tanta missa que quando eu crescer no passarei nem perto de uma igreja.
Ento quando voc  Fica Interno, no escapa. Queira ou no.
 - Nem vai rezar mais?
 - Isso  diferente. Rezar  conversar com Deus. Uma conversa gostosa,
comprida e preguiosa. Com Deus a gente pode rezar at deitado que ele
gosta. Agora, Ado,  Vou ficar calado. Esse exerccio  difcil que 
danado e preciso prestar muita ateno na m
 - Hoje ele volta.
 - Maurice?

74

 - Claro seu bobo, quem mais poderia voltar? Estou louco que chegue de
noite. Mas soltei um suspiro imenso.
 - Que foi, Zez. A saudade era maior agora?
 - Estava pensando no jantar.
 - . E voc tem que ser bonzinho, civilizado e simptico.
 - Como ser ele, o escritor?
 - Sei tanto quanto voc. Que  portugus, que mora no Rio e est
vendendo um livro seu chamado "Poeira do Diabo."
 - Ser que  bom?
 - Algum j leu alguma coisa do livro?
 - Creio que meu pai. Mas deram um sumio nele. Esconderam tanto que no
deve ser livro para menino no. Qualquer quarta-feira quando a gente no
tem aula vou fuxicar  Tudo e ler escondido.
 - Voc t  doido, Zez.
 - Vou fazer que nem os livros de medicina.
 - Que  que tem os livros de medicina?
 - Aqueles da estante l de cima. Aquele mundo de livros. Voc no sabe
que eu vi um por um, escondido?
 - No.
 - Um domingo meu pai estava sentado perto de uma das estantes folheando
uns livros. No sei porque cargas dgua eu passei perto. Ele tirou os
culos do nariz e  Me Chamou. Olhou-me bem enrgico e falou com voz
sria.
 - Est vendo esses livros? Correu com o dedo indicador toda a estante.
 - Pois bem. No quero que o senhor bote os dedos em cima de nenhum
deles, ouviu? Concordei com a cabea e me afastei intrigado. Que  que
teriam aqueles livros  que eu no podia ver? Sabe, Ado, eu nunca tinha
reparado neles at ento. Fiquei Matutando,  quando a sua me tem
reunio de Damas de Caridade e voc fica sozinho com Dadada... Pronto...
Ningum vai saber."
 - E voc?

75

  - No tem nenhum xem. Na primeira quarta-feira danei-me para ver.
Fiquei muitas quartas-feiras fazendo isso. Voc sabe como  bom a gente
fazer coisa proibida.  Mas no valeu muito a pena.
 - Se no valeu a pena por que voc ficou tantas quartas-feiras
espiando?
 - Porque queria ver tudo. Tintim por tintim.  um tal de mulher pelada,
de homem pelado, mas tudo com pereba, talho, tumor, vermelho, ferido,
perna quebrada,  Brao Torto. Uma coisa horrvel.
 - E que foi que voc ganhou com isso?
 - Nada. At foi pior porque quando aparecia na mesa uma carne
sangrenta, meio crua, eu ficava at com o estmago revirado.
 - E ele descobriu?
 - Descobriu nada. Gente grande s vezes  muito boba. Eu marcava os
lugares direitinho e tinha cuidado de no trocar nada. Virava as pginas
dos livros e recomeava  outro estudo. Logo voltava para a conversa com
o meu sapo-cururu.
 - Sabe o que eu descobri ontem, Ado?
 - Como  que vou saber se no me contou?
 -  que deixando o piano, posso voltar muito cedo para casa. No
preciso fazer os estudos nos Vigiados. Estudarei em casa mesmo e vou ter
tempo de brincar. Mas  Brincar Mesmo. Vou subir na mangueira, no p de
sapoti. Vou roubar goiabas no vizinho. Quando tem Mais. Meu pai agora me
manda passar na casa de Cascudinho para pedir livros emprestados. Outro
dia Cascudinho me perguntou se gostava de ler e que logo que  eu
"pudesse" Ia me emprestar uns livros de aventura para eu ler escondido.
 - E como voc vai fazer?
 - Fazendo, ora. Quando vier estudar em casa vou fazer tudo na mesa da
sala de jantar. Voc j passou a mo embaixo da mesa?
 - Claro que no. Que ideia, Zez.
 - Pois a mesa  elstica. Tem mais duas tbuas embai-

76
 Xo que formam uma espcie de prateleira. Ali a gente pode esconder
qualquer coisa. A gente fica lendo, lendo. Quando ouvir os passos na
escada, a gente troca tudo,  Pe o livro embaixo da mesa e puxa os do
estudo para o lugar dele. Ningum vai desconfiar
 - Isso realmente  bem feito, Zez. Bem pensado.
 - Sabe, Ado, por falar em esconder eu descobri a toca dos mistrios
daqui de casa.
 - Que  isso?
 - Voc ainda no morava comigo e no pode saber. Eu sempre desconfiava
quando via uma revista com pgina arrancada. Devia ser coisa que criana
no podia ver. Tanto  Futuquei que descobri. Naquela estante giratria
tem um meio onde botam tudo. Foi assim  E com tudo isso  mostra. Bati
no peito para demonstrar.
 -  ali que eu descubro tudo que no posso ver. Dei um suspiro de
alvio, porque o relgio estava batendo sete e meia. Logo, logo, me
mandariam para o colgio.  Na Praa do Palcio, Tarcsio estaria me
esperando com a sua farda to linda, to na moda. Co No Sei o que
custava a minha me deixar que as minhas fossem feitas como a dos outros
meninos. Que custava que as Patativas ou o Tenente Dobico costurassem as
minhas Fardas? Mas no, era aquela maldade. Dona Beliza, a irm de
Ceio, criava aqueles monstros fora de moda para que todo mundo
caoasse de mim e me judiasse.
 -  um bicho do mato. Quando v gente fica desejando logo ir para o
quarto. Era um modo de minha me desculpar a minha impacincia. Tambm
aquele diabo daquele  jantar no acabava mais. Era uma conversa chata,
fazendo mistrio de tudo. S Era um tal de

77

 pedacinhos. Parando nos momentos que deveriam ser mais interessantes.
Quando consegui dar boa-noite para todos e sentir a porta do meu quarto
fechando nas minhas  costas  que respirei feliz. Maurice estava l.
Tinha sol por toda parte. No cabelo, no sor nos braos. Abracei-o com
tanta vontade que ele me falou.
 - Cuidado, monpti, seno voc me atira contra a cadeira.
 - Ah! Maurice, Maurice. Que saudades. Essa semana no passava nunca.
Tenho tanta coisa. Tanta novidade para lhe contar.
 - Deixe-me v-lo. Afastei-me obedecendo.
 - Est bem. Est bem. Muito corado mas sempre magrinho e franzino.
Precisamos dar um jeito nisso. Ele voltou para a cadeira e fiquei a sua
frente na cama.
 - Maurice, primeiro preciso lhe perguntar uma coisa. Uma coisa que est
num livro que h trs dias s se fala aqui em casa. O escritor jantou
com a gente e foi  Por Isso que demorei tanto a vir.
 - O que ser? Soltei a pergunta como se arremessasse uma pedra.
 - Que  Cocana? Maurice arregalou os olhos.
 - O qu?
 - Isso mesmo? Cocana. Ontem perguntei a Fayolle e ele enrolou, enrolou
e me disse que quando eu tivesse quinze anos eu poderia saber. Maurice
alisou minha franja  loira.
 - Bem, eu no serei to rigoroso assim. Farei por menos, quando voc
tiver quatorze anos e meio, contarei. Se voc descobrir antes no
ganhar nada. Porque  completamente  Sem importncia. E isso comparado
a tanta coisa interessante que voc disse ter p
 - Tenho mesmo. E voc filmou muito?
 - Bastante.

78

 - Cenas de amor? Apontou-me o indicador com tamanho encantamento que
sorri.
 - Monpti, monpti! Fiz muitas cenas em que cantava num caf ao ar livre.
 um filme apenas engraado que estou fazendo para cumprir contrato e
at aparecer uma coisa  Mais interessante. Olhou-me como sempre gostava
que ele fizesse.
 - E ento? As novidades.
 - Maurice meus dias esto contados.
 - No vai me dizer que vai morrer de novo. Ora Chuch, voc j passou
dessa fase.
 - No. Ningum vai morrer.  que abandonarei os estudos de piano e vou
ser gente de novo. Contei-lhe todos os pormenores e ele ouvia atento.
Quando terminei Maurice  estava meio preocupado.
 - Mas ser que voc ficou totalmente satisfeito com essa soluo?
 - Creio que sim, Maurice. Tudo foi muito definitivo.
 - Ento vencemos a guerra com o primeiro inimigo. Espantei-me.
 - E tem outro?
 - Outro talvez mais importante. Venha c. Sentei-me no brao da
poltrona e ele me puxou contra o seu peito fazendo com que meu rosto se
apoiasse em sua cabea.  Aquilo Era tudo que eu desejara de um pai. Sua
mo segurou-me o queixo e senti que seus dedos voz saiu Mais carinhosa.
Se eu ainda fosse choro j tinha aberto o berreiro. Mas controlei-me a
ponto de s sentir os olhos umedecidos.
 - Monpti, o seu inimigo maior de todos est aqui.
 - A garganta?
 - Sim. Precisamos o mais breve possvel tirar essas amgdalas.
Choraminguei meio desesperado.
 - Xi Maurice,  a coisa que eu tenho mais medo depois do diabo.
 - Isso passa. Depois voc  corajoso. Um homenzinho

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 que sabe vencer o medo. Voc no me disse que tinha horror a sapo.
 - Tinha sim.
 - E no entretanto o seu maior conselheiro  um sapo que mora no seu
corao.
 - Mas Ado  encantado. Ficamos calados e eu para no sair daquele
carinho que nunca tivera na vida. Para permanecer nem que fosse meia
hora mais, seria capaz  de fazer cento e cinquenta Operaes de
amgdalas.
 - Ento, Monpti.
 - Voc quer mesmo, Maurice?
 -  para seu bem, meu filho. Sua mo voltara de novo a acariciar meu
cabelo loirinho e fino.
 - Depois no  bom ter sempre a garganta inflamada. Voc no gosta de
sorvete?
 - Sou louco.
 - Sem as amgdalas voc poderia tomar a toda hora cada sorveto.
Poderia ficar mais tempo na gua do mar sem se resfriar. O pus que se
cria na garganta vai descendo  Para os rins e para o estmago. Mais
tarde voc ficar sempre sofrendo desses rgos. De me dissera. S que
ele falava mais amigo e menos ameaador.
 - Voc  amigo do Dr. Raul Fernandes?
 - Nunca ouvi falar.
 - Gozado como voc repetiu as mesmas palavras dele.
 - Todo mundo sabe disso. No  preciso ser mdico ou amigo de mdicos.
O que me diz?
 - Uma vez tentei fazer uma operao de garganta e foi um verdadeiro
fiasco para mim.
 - H quanto tempo?
 - Mais de dois anos.
 - Bom isso ento j faz muito tempo. Sabe por que quero que voc se
opere, Chuch?
 - Calculo. Mas ser que voc no quer ficar de vez me chamando de
Monpti. Eu gosto mais.

80
 Maurice riu.
 - Daqui a pouco chamo voc de bebezinho. Pois bem, Monpti, quando voc
se livrar dessas malditas e sujas glndulas, ver iniciar-se uma nova
fase em sua vida. Primeiro  Voc vai esticar, crescer. Depois vai ficar
forte e musculoso. Vai ter o peito estufa
 - Vou poder quebrar a cara de uma poro de meninos que judiam de mim
porque sou pequeno?
 - Sem dvida. De todos eles. Que me diz. O medo voltava a tomar conta
da minha deciso.
 - Agora no vai ser possvel, porque "eles" esto de viagem marcada
para o Rio dentro de oito dias.
 - No fuja ao assunto. Podemos esperar um pouco mais. Assim voc vai
endurecendo a sua coragem. Heim?
 - Se voc quer eu vou fazer. Vai ser duro me acostumar a essa ideia.
Quem vai gostar muito  Fayolle.
 - Todos ns vamos gostar. O seu amigo Fayolle, Ado, eu...
 - Maurice, voc acredita mesmo que eu possa ter um sapo-cururu no
corao. Parece uma ideia meio esquisita, no? s
 - Por que no acreditar? A gente acredita em tanta coisa nessa vida.
Mesmo porque voc est numa idade que todos os sonhos vivem uma
realidade. Suspendeu a mo  pra ver as horas. Que coisa as pessoas
grandes terem a mania de sempre espiar as horas. E log
 - Eu sei, Monpti, mas tive uma semana durssima. Voc compreende?
Comecei a me erguer. Ele tambm. J ia em direo  cama.
 - Vai dormir hoje de roupa e sapato? Camos na risada.
 - Tirei rapidamente os sapatos e comecei a despir-me. Ele mesmo apanhou
o meu pijama debaixo do meu travesseiro. Vesti primeiro as calas e
depois o palet. Os  dedos  De Maurice comearam a abotoar o meu palet.
E eu sen-

81

 tia um desejo enorme de nunca mais crescer. De ter Maurice perto de meu
corao e que o meu pijama tivesse duzentos e oitenta e dois mil botes.
Passei o dia com  a ideia remoendo a minha cabea. Recordava todos os
pedaos da minha fracassada primeira op um alarme dos diabos. Era o
maior heri do mundo por ter de fazer uma operao. Mas quando chegou a
hora, que me vestiram uma espcie de camisa de Fora e apareceu  uma
agulha desse tamanho, meti o berro. Tentaram me segurar. Vieram
enfermeiros. A gritaria continuava to alta que deviam estar ouvindo at
nos Bairros altos  de Natal. Foi uma tragdia. Um Deus nos acuda e uma
vergonha maior do meu fracasso. De olhar encabulado para as pessoas que
me gozavam onde quer que Fosse. Nem  tinha vontade de pensar uma
conversa com Ado. De tarde, como era quarta-feira, fiquei estudando na
mesa da sala de jantar. Os meus dedos alisaram o esconderijo  Da mesa
onde os livros ficariam. Onde os livros iriam ajudar-me a sonhar mais um
pouco. A conversa de Maurice rondava os meus ouvidos. Sbito, lembrei-me
de uma  coisa e levantei-me. Ado advinhou o meu intento.
 - Olhe, Zez, que sua me proibiu.
 - Ningum vai saber de nada. Dadada no vai contar pra ningum. Fazia
uma semana que abandonara os estudos e a primeira saudade de Joozinho
se manifestava. Entrei  na sala e fui cautelosamente para o seu lado.
Ergui a tampa e Aquele cheiro que nunca pod
 - Oi, Joozinho. Afastei o banquinho, sentei-me e distendi os meus
dedos sobre o teclado. Comecei a tocar todas as msicas que gostava.
Nada de exerccios. Primeiro,  a Chanson Triste, De Tchaikovisky. Depois
um noturno. Em seguida Rverie, de Schumann.

82
 Porque no tinha ningum para me obrigar. Porque estava gostando do que
fazia. Tocava com a alma, com o corao e tudo aquilo me fazia muito
bem.
 - Viu Joozinho, assim  que  bom. Estranhava que uma semana sem
exerccios no fizera nenhuma diferena em minhas mos. Toquei mais uma
msica e senti uma estranha  tristeza que no esperava pelo Menos to
cedo. Fechei o piano colocando o pano de feltr se reavivava. Tinha
certeza de que dessa vez no iria mais falhar. Amendrontava-me. Se
fracassasse outra vez ele poderia se agastar comigo e nunca mais me
chamar  de Monpti. E Sem isso eu preferia morrer. Mas morrer mesmo. De
noite como no estudava mais piano estava no porto com minha me e com
minha irm, olhando a vida  calma da ladeira Junqueira Ayres. Vinha
passando uma professora Que lecionava na Escola Domstica. Era uma
senhora de uma certa idade que vencia com dificuldade  a aspereza da
ladeira. Parou defronte do nosso grupo e cumprimentou A todos. De
repente aconteceu uma coisa atroz. Ela se dirigiu para a minha me.
 - Hoje de tarde fiquei parado junto ao seu porto um bom pedao de
tempo. Tinha um anjo tocando piano que era uma beleza. Minha me olhou
bem dentro dos meus olhos  e nada disse. Fiquei vermelho e confuso. Dois
dias depois quando voltava do colgio senti pobre dizia.
 - Que  que voc tem, Zez
 - No sei, Ado. Uma coisa que me entristece tanto. Entramos em casa e
joguei a minha pasta sobre a mesa da sala. Algo fazia que as minhas
pernas caminhassem Para  A sala de visitas. Cheguei l e ca sentado
sobre a poltrona de Maurice. No lugar de Jooz

83

 enorme. Agora aquela sala iria morrer de silncio. Procurei angustiado
por Sinh Brbara. Ela se encontrava sobre uma mezinha do lado como se
fosse destronada.
 - No faz mal, Brbara. Quando eu for homem e voc me pertencer de vez,
eu vou comprar um piano ainda mais lindo para voc. A verdade que minha
alma se esvaziara toda. Fazia fora para que meus olhos no se enchessem
dgua. A voz de Ado falou baixinho l
 - Olhe o sol, Zez, vamos aquecer o sol.

 Fim da primeira parte.

84

 SEGUNDA PARTE

85 - 86

 A HORA DELE: O DIABO

 PRIMEIRO CAPTULO

 A DEMORADA DECISO

 J NEM PARECIA QUE Joozinho morara tanto tempo naquele ngulo da sala.
Os mveis como que se tinham distendido, crescido e aos poucos foram
tomando todo o seu lugar. Mas a verdade  que a sala sem ele tornara-se
completamente morta e feia.
 - Esquece, Zez. No se culpe porque voc no cometeu nenhum crime.
Tinha de ser.
 - Eu sei, Ado. Mas voc est vendo que devagarzinho vou-me esquecendo
dele.
 - Por que no volta a ler o livro de Tarz?
 - Logo,logo. Ah! Tarz! Cascudinho tinha descoberto para mim um mundo
novo que arranhava todo o meu sangue ndio. Tarz dos Macacos vivendo na
selva, voando nos cips, brigando Com os gorilas. Nadando com os
crocodilos e hipoptamos, fazendo-se acompanha mundo. Quase devorava "As
Feras de Tarz." Dava aquela vontade de ser gente grande logo para fugir
para a selva, fazer uma tanga de couro de veadinho, colocar uma faca Na
cintura. E tudo seria muito fcil. No era neto de ndios? No tinha
sangue selvagem? O Amazonas no possua lees como a frica, mas os rios
amaznicos eram Todos imensos, cheios de jacars e antas. No cansava de
ver o livro de cincias naturais. Adorava aquela matria que ainda por
cima se encontrava sob o ensino de Fayolle. Cascudinho pra gente, mas
Dr. Luiz da Cmara Cascudo para os que vinham de fora visit-lo cheios
de respeito e de admirao. Pois Cascudinho olhava pra Mim e parecia
advinhar o

87

 que precisava ver. Mesmo debaixo da minha aparncia franzina ele
descobrira o mundo de ansiedade e aventura que me ia n'alma. Quando
acabasse com a srie Tarz, J escalara a srie Scaramouche, logo em
seguida o "Gavio do mar" e outros piratas maravilho qualquer mas a
vontade de reencontrar Tarz parecia arrefecida agora.
 - Zez, que tem voc hoje?
 - Nada, Ado. S uma coisa me estrangulando a garganta, um comeo de
tristeza nadando por dentro.
 - Voc est de novo com dor de garganta?
 - No  isso, Ado. Falo no sentido figurado que voc tanto emprega e
que o Irmo Ambrsio sempre est usando.
 - Ento o qu? Fugia-me tambm a vontade de conversar.
 - J sei, voc est se preocupando porque vai interno, no ? Isso vai
ser muito bom, Zez. Vai ser uma liberdade danada. Poder jogar bola e
quem sabe at entrar  Num time de Luiz de Mello.
 - Que nada. O Itarar s aceita quem joga bem e eu sou fundo de doer.
 - Quem sabe se treinando um pouco...
 - No d. Meu negcio  nadar. Isso sim. Parece que fico maluco quando
vejo gua. Calei-me de novo.
 - J sei, Zez. Durante dois meses vai ficar sem ver Maurice.
Certamente no poder visit-lo. Aquele assunto que no queria falar nem
comigo mesmo, fazia um certo  mal.
 - Essa conversa di.
 - Por isso precisa ir se acostumando.
 - Eu sei. No colgio no poder vir me ver. Falar comigo toda a noite
como sempre fazemos. O jeito que tem  dormir e ele aparecer nos meus
sonhos quando tiver  Uma Saudade bem grande. Dei um grande suspiro.

88

 - Mas no  colgio interno, nem a falta de Maurice que est me
amargurando agora.
 - Ento fale.
 -  dele. Voc reparou como ele anda meio triste e preocupado? Agora
ele nem canta mais no banheiro. "Acorda abre a janela, Stella." Perdeu
aquela mania de reclamar  De tudo. Fica em silncio, s lendo, perdido
no mundo dos livros e dos jornais.
 -  normal. Uma operao sempre  uma operao.
 - . Voltei ao meu mutismo.
 - Bem, Zez, respeito os seus sentimentos. Se no quer falar agora, no
fale. Eu conheo muito voc para insistir...  No colo de Maurice, a
conversa continuou. Falei-lhe das minhas preocupaes.
 - Reze, Monpti. Uma operao sempre  uma operao. Mas voc no contou
que ele  forte pra burro?
 -  sim.
 - Pois ento, ele ficar bom logo. Quando voltar estar curado e a vida
ir para a frente.
 - Mesmo assim estou sentindo uma coisa diferente por ele.
 - Voc no gosta dele?
 - Gosto um pouco. Afinal ele  um pai arranjado, mas meu pai. No  um
inimigo em absoluto. Eu sei que criana no compreende s vezes o que
gente grande quer.  Mas Na sua maneira ele deve querer o melhor pra mim.
 - Estou gostando de ver. Est pensando de um jeito muito bonitinho. A
ele me afastou acrescentando:
 - Sente um bocadinho na cama, porque hoje estou sentindo um calor
incrvel. Obedeci mas sem me afastar muito de Maurice. Queria aproveitar
os momentos, todos os  momentos, sabendo que iramos ficar longe dois
meses.
 - Sabe o que  Monpti? Inconscientemente voc gosta muito dele. E isso
 bom.

89

  - No gosto nem a metade do que gosto de voc. Maurice riu.
 - Gosta sim. E um dia, quando voc conseguir colocar as coisas como
elas so ao alcance de suas mos, voc o amar muito mesmo.
 - Ser?
 - Garanto. Um dia voc vai gostar dele como ele . Porque a gente no
pode pedir s pessoas mais do que elas podem dar.
 - Igualzinho.
 - Igualzinho a qu?
 - Irmo Ambrsio disse isso uma vez com outras palavras e tambm que a
felicidade est onde est e no onde queremos que ela esteja. No foi
bem isso. No sei repetir  Suas palavras, porque Irmo Ambrsio fala
muito bonito, sabe? Um dia eu gostaria de ap opostos e cada um era mais
ocupado que o outro.
 - Maurice.
 - Hum.
 - Voc conhece Johnny Weissmuller?
 - No.
 - Deus do cu! O artista que faz o papel de Tarz no cinema.
 - Ah sei!
 - Esto anunciando "Tarz, o Filho das Selvas" no Cinema Royal. No
vejo a hora de assistir. Sentia-me um pouco decepcionado com Maurice.
 - Eu pensei que l onde voc trabalha, todo mundo se conhecesse.
 - Ih querido. L  um mundo enorme. Uma cidade imensa. No 
pequenininha como Natal. Mesmo porque ele trabalha contratado na Metro e
eu sou da Paramount. Aquela  Que tem uma montanha com uma coroa de
estrelinhas.
 - Eu sei de tudo. A Metro  um bruta Leozo.
 - Mas tem uma coisa. Daqui a trs anos, esto estudando um filme comigo
na Metro.

90
 Olhei desconfiado para ele. No estaria fazendo aquilo para me
consolar? Maurice advinhou os meus pensamentos.
 -  serio. Esto estudando uma grande produo musical em que voc me
ver ao lado de Jeanette Me Donald. Ns j fizemos um filme juntos de
muito sucesso "Alvorada  Do Amor."
 - No vi. Ouvi comentrios aqui em casa. Mas no cheguei nem perto do
cinema. Se soubesse que era voc. Mas, voc compreende, eu era muito
pequeno.
 - E o que  agora?
 - Era ainda menor. Mas continue.
 - Pois bem, se eu for trabalhar na Metro vou conhecer o Tarz.
 - Que felicidade!
 - Por que tanto entusiasmo agora?
 - Quando eu crescer, quero ser igualzinho a ele. Ir para a selva, morar
l. A como tenho sangue de ndio vou me dar muito bem. Voc acredita,
Maurice?
 - Geralmente acredito em tudo que voc diz, mas dessa vez...
 - Por que no posso?
 - Simplesmente porque para viver na selva a pessoa precisa de muita
fora e resistncia alm de outras coisas.
 - E eu no vou poder ter tudo isso?
 - Poderia se quisesse. Fiquei vermelho como um pimento. Sabia onde
Maurice pretendia chegar.
 - J sei, Maurice, voc quer falar da operao da garganta. Eu j
prometi que fao.
 - Mas quando?
 - Agora no vai ser possvel. Voc sabe que vou ficar interno por dois
meses. S quando eles vierem do Rio.
 - Ora, meu filho, isso no  problema. Converse com o seu amigo Fayolle
que ele resolve tudo. Fiz um comeo de beio. Mas a nem foi Maurice que
me chamou a ateno  e sim Ado que me admoestou.
 - Voc sabe que ele tem razo, Zez. Uma hora voc tem que se decidir.
Maurice nada falava, s olhava fixamente para mim.

91
 L
  - Est bem. Vou falar com Fayolle.
 - Assim que se age, Monpti. Quero ver voc forte, queimado do sol,
nadando como um peixe. Quebrando a cara de todos esses meninos que
judiam de voc. Isso no   Bom?
 - Que , . Mas voc vai me prometer uma coisa.
 - Prometo.
 - No dia da operao fica assistindo, torcendo por mim.
 - Fico sim. Nesse dia nem que pague uma multa, deixarei o meu trabalho
para estar a seu lado. Olhou o relgio. Meu corao deu um pulo
pioc-ploc. Surgira o momento  que no desejava por nada no mundo.
 - Monpti, venha c. Abriu os braos e me estreitou.
 - Preciso ir.
 - Ns vamos ficar separados dois meses mesmo, Maurice?
 -  preciso no? Passou os dedos sobre os meus olhos.
 - No quero choro. Isso passa logo e mesmo voc vai ser muito feliz
brincando com uma infinidade de meninos da sua idade.
 - Talvez. Mas vou sentir muito a sua falta.
 - Guarde-me no seu corao ao lado de Ado. Lembrese de mim de vez em
quando.
 - Isso vai ser difcil. Ele se espantou.
 - Difcil lembrar-se de mim, Monpti?
 - Sim. Porque para lembrar-se a gente precisa primeiro esquecer. E isso
eu no posso nunca. Ficou alisando os meus cabelos sem soltar-me.
 - No vou ajudar voc a deitar-se hoje.
 -  melhor. Eu viro para a parede e no vejo voc partir. Senti um
vazio no meu corpo, na minha alma, quando ele foi se afastando de mim e
desapareceu na parede.  Era como se o quarto fosse ficando s escuras
lentamente.

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 Quando relatei a Fayolle as minhas resolues ele ficou perplexo.
 - No entendi bem, Chuch. Voc resolveu fazer operao da garganta de
uma hora para outra.
 - Conversei muito com Maurice e ele exige. Ado fica o tempo todo
martelando a minha pacincia com isso.
 - E que  que eu tenho que fazer?
 - Voc vai comigo ao mdico sem que ningum l em casa saiba e combina
a operao. Irmo Feliciano coou a cabea como sempre fazia na apario
de um embarao.
 - Mas, Chuch, no posso fazer isso!
 - Poder, pode. Maurice me garantiu que podia.
 - Sim, est certo. E a minha responsabilidade?
 - Ningum morre disso. Operao na garganta  fcil. Depois seria uma
surpresa quando eles voltassem.
 - Mesmo assim preciso pensar.
 - No pode pensar demorado, no. Tem que ser j. Voc tambm no vive
falando disso. Falando de sorvete e tudo mais? Ele ganhou tempo tirando
o relgio do bolso,  puxando o leno de xadrez para limpar o suor da
testa.
 - Vamos fazer uma coisa, Chuch?
 - Vamos.
 - Faremos tudo o que voc quiser. Mas quando os seus pais retornarem da
viagem.
 - Assim no tem graa.
 - Tem. Porque faremos tudo que combinarmos. Quer ver? Quando eles
chegarem na certa voc fica ainda trs dias internado aqui. At
arrumarem a casa, darei um jeito  Nas coisas. Pois nesse perodo a gente
vai ao mdico e combina a operao.
 - Sem eles saberem.
 - Segredo absoluto. Agora tem uma coisa.  pra valer dessa vez. Voc
tem que me dar a sua palavra de honra.
 - Dou agora mesmo.
 - No precisa ser j. Quando chegar mais perto do momento. Voc
entendeu o que quis falar, no Chuch?

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  - Entendi sim. No quer que eu faa na ausncia deles porque pode
acontecer alguma...
 - Exatamente.
 - Ento est bem. Mas quando eu for operar eles no podero saber.
 - Garanto. E quando voc vem?
 - Eles embarcam daqui a dois dias. E assim que partirem venho com minha
trouxa. Voc conseguiu aquilo com o Irmo Luiz?
 - Consegui, seu danadinho. Voc ficar com os maiores. Irmo Ambrsio
no ficou muito de acordo com a ideia.
 - Irmo Ambrsio  antigo. Voc j imaginou, Fayolle, ficar no meio de
menino buchudo? Ele riu.
 - Agora v correndo pra aula, Chuch, que a sineta j tocou. E foram os
dois meses mais felizes da minha vida at ento. Joguei bola, me
arranhei, briguei, corri,  apanhei sol. E minha garganta por milagre
merecia nota dez. No se manifestou nenhuma vez.  o Irmo Manuel.
 - Olha o rosto desse moleque, corado como ma.
 - Era do que esse cabra precisava. Brincar com outros meninos da sua
idade. Sair da gaiola. Podia fazer de tudo. Ningum proibia nada. A
gente fica responsvel  pelo que fazia. Nessa poca minha famlia
aumentou um pouco. Fayolle me dava dinheiro para os chamado "Nesse
Sculo Vinte." Como Maurice estava longe achei que ela podia ser minha
irm. E sendo uma irm to alinhada, to diferente da irm chata que eu
tinha,  poderia bem Se casar com Johnny Weissmuller e a gente ia pra
selva sem perigo algum. Outro filme notvel. "A Mulher Pintada" com um
ator

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 Que nunca vi antes: Spencer Tracy. Num filme de mergulhador de prolas
onde um artista brasileiro fazia um nativo. Era Raul Roulien. Mas esse
eu no quis pra tio,  No. S Spencer Tracy. Depois eu arranjei dois
irmos: George Raft e Charles Boyer. Eram i Para o cinema. Deixava que
eu assistisse ao filme que bem me desse na telha. Ele compreendia que
nada daquilo me faria mal. Quando chegava quatro horas, ele disfarava,
Dava uma volta na Praa Andr Albuquerque e ia me esperar no fim da
praa. Vinha contando tudo que vira no filme e ele se deliciava. Quando
lhe falei sobre minha  nova famlia ele caiu na risada.
 - Mas, Chuch, no  gente demais?
 -  o que! Eu sempre tive muitos irmos, Fayolle. Ele voltava a
entender a minha solido e a ver a falta dos meus irmos que ficaram
longe.
 - S que eu no entendo uma coisa. Essa sua nova irm  filha de
Maurice?
 - No pensei nisso ainda.
 - E ela  irm dos seus dois novos irmos?
 - Isso no tem importncia, Fayolle.
 - Como no? E esse seu tio  irmo de Maurice?
 - Bem que podia ser porque ele tambm tem um gnio timo e  uma
bondade em pessoa. Agora meus irmos no se do. Charles e George so
como Caim e Abel. Se odeiam  Quando estou com um no posso estar com
outro. Eles tambm no so filhos de Maurice e nem no banco da Praa e
continuava rindo.
 - Se voc contar mais fao uma embrulhada dos diabos.
 -  meio complicado, mas no tanto.
 - Diga uma coisa, Chuch, quando  que voc tem tempo de ver todo esse
seu mundo?
 - Na hora que d vontade. At na sua aula de Cincias Gerais. Eu pego o
livro, vem um ventinho pela janela e

95

 tudo se tranforma. Nem parece que estou na aula, no colgio.  to bom.
Ele erguia o corpo gordo, passava a mo na minha cabea e me elogiava.
 - Dessa cabea ainda vai sair muita coisa. Por enquanto sonhe e seja
feliz, meu filho. Apressava o passo.
 - Vamos que eu tenho doce e queijo no refeitrio. Quero que encontrem
voc pelo menos menos magrinho. E eu vivia, brincava, sonhava. S no
queria pensar em Maurice  porque no dava jeito dele vir ao colgio. Da
minha verdadeira famlia, nem me lembrava. passada. Ela me dava
notcias. Meu pai fora operado. Estava bem. Ia completar os dois meses
no Rio Para recuperar-se. Outras vezes era a minha irm mesmo que
telefonava  para o colgio para que me dissessem qualquer coisa sobre a
sade do meu pai. O tempo voou. Meu pai regressou. Fiquei uma semana
ainda interno no colgio. E uma  bela manh, parti para o hospital.
Suava frio como sorvete de coco. Fayolle me acompanhou e permaneceu no
consultrio. Operao de garganta no precisava de sala  especial. Fui
aceitando tudo mas Ado me encorajava por dentro e na Porta, Maurice com
uma camisa esporte azul-claro sorria sempre me encorajando tambm.

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 SEGUNDO CAPTULO

O DOER DE UMA INJUSTIA

Pois era  s RETIRAR aquelas
bolotas da garganta e nhec-pluftuf danei-me para esticar. Minhas calas
que eram conhecidssimas  como as do maior pega-bode do colgio, por
Mais que baixassem as bainhas, me tornaram o mai braos se transformavam
em razoveis batatasdoce, Vivia agora procurando ao.
 - Pega-bode! Soronha! Protegido! Bofete, tapa, pontap e olho rocho.
No levava mais desaforo para casa. Comecei a adorar as aulas de
Educao Fsica. Esforava-me  em tudo para crescer sempre mais E ficar
forte. At Maurice se admirava.
 - Eu no disse, Monpti? J no usava aquela brincadeira antiga comigo.
Bastava eu contar uma histria que comeasse assim: Quando eu era
pequeno...
 - Voc, Monpti ainda conseguia ser menor? Agora no, na minha turma j
tinha passado at a altura do Joo Rocha, um toco de homem. Talvez o
mais velho da minha  Turma E que no futebol era intransponvel. Se o
cara passava, caa. Entretanto, minha loucura era mais Tarz ainda.
Realmente certas aulas da tarde com a proteo do Irmo Feliciano, eu
cabulava. Ia voando, contornando as ruas principais, evitando a do
consultrio do meu pai para procurar o Centro Nutico Potengi. Tinha
mania De usar

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 umas sunguinhas to diminutas que cabiam na palma da mo.
 - Chuch, por amor de Deus tome cuidado. Voltava cada dia mais
vitorioso.
 - Chuch, todos os dias no d. Tem de ser de trs em trs dias.
Exultava com o meu sucesso.
 - Sabe, Fayolle, hoje consegui ir do Centro Nutico at o Sport e
voltar. Qualquer hora fao aquilo na sopa sem cansar. Fayolle ouvia
encantado.
 - No sei, Chuch, se o que fao est muito certo. Mas d gosto ver que
j no  mais aquela criancinha triste e miudinha. Cada dia por sua
causa tenho de fazer  Um Ato de contrio.
 - E no vale a pena?
 - Vale, mas vivo rezando desde que voc vai nadar at voltar. Meu
corao fica em sobressalto todo tempo.
 - No h perigo, Fayolle. Logo, logo, j poderei ir at o cais da
Tavares de Lira.
 - Tudo isso  timo, meu filho. Tudo. Mas sente-se aqui nessa cadeira
que vamos ter uma conversinha muito sria. Obedeci. Que seria? Algum ia
me delatar em casa?
 - Eu sei de tudo que se passa l no Centro. Ri.
 - Ora, Fayolle, voc est preocupado porque a gente muda a roupa um em
frente do outro. Que fica tudo misturado: homem com menino?
 - No, isso  bobagem. No h maldade nisso. Afinal voc tambm est
ficando um homenzinho. Enchi-me de orgulho.
 - Eu conversei com os maiores que vo l remar aos domingos. Sei que
tem uns garotos maiores que vo nadar perto dos navios ancorados. No 
isso?
 - Tem sim. Mas s os grandes nadadores como o Jonas Honrio e o
Ebnezer. Por enquanto isso  muita coisa pra mim.

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 - Mesmo quando voc nadar melhor, precisa me prometer que nunca nadar
perto dos navios.
 - Por que Fayolle?
 - Porque dizem que l est infestado de tubares que vm da barra. Que
so atrados plos restos das comidas que atiram do navio.
 - Isso tambm  verdade.
 - Pois ento!
 - S que at agora ningum foi pegado por cao.
 - Mas pode haver um primeiro, no pode? Voc vai fazer isso por mim,
Chuch?
 - Mais tarde eu posso prometer. Agora ainda no d pra que eu nade
tanto. Lembrei-me de um detalhe.
 - Fayolle, voc gosta de melancia? Ele arregalou os olhos estranhando
um assunto to diferente ao abordado.
 - No gosto muito. Fico fazendo "assim" muitas vezes. Sorri. Aquele
assim queria dizer arrotos.
 - Mas que tem isso com a nossa conversa?
 - Tem sim. O cheiro de melancia no  muito forte?
 - Terrivelmente forte.
 - Pois  um aviso que cada nadador no club conhece. Cao tem cheiro de
melancia. E quando acontece um menino cheirar primeiro, mete o berro:
"Melancia." No fica  Ningum por perto. Todo mundo vem voando para a
rampa. E se tiver um mais longe, sobe logo Conseguira ficar quase roxo
de desespero.
 - Chuch, voc foi me contar isso. Agora mesmo  que no vou ter paz na
vida. Usei a minha voz mais terna.
 - No se assuste Fayolle. Nada me vai acontecer. Eu prometo a voc que
no nado pra longe. E quando fizer meus treinos, vou sempre pelo
cantinho dos prdios. Ele  soltou um suspiro enorme e pareceu
apaziguar-se com a minha promessa.

99

  - Est bem. Mas voc prometeu.
 - Prometi.  a palavra de um homenzinho. Voc no disse que sou um
homenzinho? A gente estava de conversa solta e comprida. Pulava de um
assunto para o outro com  a maior facilidade.
 - Voc j imaginou, Ado? Tarz lutando contra KingKong? Ia ser uma
coisa fenomenal.
 - Mas Tarz perto do gorilo virava um franguinho.
 - Isso  que voc pensa. Em "Tarz, Filho das Selvas" ele lutou contra
um macaco quase do mesmo tamanho. Depois era s soltar o grito de guerra
e tudo que era raa  De elefante corria em socorro dele. Sopa no duro.
Entrava um ventinho gostoso na sala de  O vento queria me levar para
longe. Era o vento Que eu chamava de Apache. O vento que surgia quando
Winetou galopava pelas savanas e jogava para trs os seus cabelos
compridos e negros. Agora a mania de Winetou. Meu pai comprara os trs
livros e depois que lera e os abandonara na estante, ficaram no meu
esconderijo da mesa.  Sempre existia um dos tomos a minha disposio.
Sorria dos comentrios que minha me fazia com as vizinhas.
 - Essa qualidade ele tem. No d trabalho para estudar. Tira timas
notas. Apenas um pouco fraco em matemtica. Matemtica era um horror de
matria. Apenas melhorei  minhas notas porque foi Fayolle quem ensinou
lgebra em minha turma.
 - Voc viu, Ado? Todo mundo est me respeitando no colgio. Ningum
quer mais se meter a besta comigo. Voc tambm acha que estou ficando um
homenzinho?
 - Se est e to depressa que daqui a pouco nem vai mais precisar de mim
e eu posso ir-me embora.
 - L vem voc com essa bobagem de novo. Com essa  a terceira vez que
voc fala nisso.

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 - Ningum pode lutar contra o inevitvel.
 - Puxa, Ado! A gente est feliz da vida, todo de vento Apache e voc
quer bancar o esprito-de-porco. Ficvamos emburrados. E meu pensamento
se concentrava no  mistrio das coisas. A verdade que j fizera doze
anos. O tempo passava. Meu segundo ano gina eu demorasse mais na praia.
Que eu invadisse o mundo do quintal. Ali conhecia todas as rvores.
Tinha uma mina De coisas escondidas no p de sapoti. E a sensao  era
de noite, fugir pela janela. Caminhar pelo muro sem espantar as galinhas
e galgar os galhos da mangueira solteira. Grandes telas separavam os
dois galinheiros. Primeiro as galinhas "leghorn" com os vestidinhos
impecavelmente brancos. Eram todas Damas das Camlias (estava doido Para
ler o livro). Na outra separao eram  as galinhas "Rhode Island Red,"
todas muito alinhadas com as saias vermelho-queimado muito amplas e com
touquinha de renda Meio amarela na cabea. Os brincos eram  maiores. Em
tudo que faziam usavam dignidade. Ficava horas no muro vendo a vida
delas. Se abaixavam com elegncia para comer. Parecia que comiam
brilhantes em  vez de milho. Se ciscavam, deixavam escapar uma cantiga
que No irritava e a lngua delas era diferente, possivelmente ingls.
Daquele assunto passava para outro.  Deixaram em casa que tivesse um
amigo. Ele era vizinho da casa de fronte. E to preso como eu. Tinha
fama de ser o menino mais Rico da cidade. S ia pra casa de  carro e
muitas vezes eu o acompanhava ao colgio naquele carro de buzina de voz
de vaca. A sua casa era imensa e toda fechada. Era criado pelas tias que
nunca  abriram as janelas da frente com medo do sol. Domingo ia  missa
no carro sentado no meiodas duas que para no perder tempo j iam
Rezando  sada da garagem.  Uma era muito alta e magra. A outra, baixa
e redonda. As golas dos vestidos se grudavam no alto do pescoo e
parecia que s tinham um Par de sapatos de verniz  preto sempre
brilhando.

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 Assim de dois em dois meses deixavam que ele descesse as escadarias e
viesse brincar comigo amarrado de conselhos e medimos.
 - Ele vem hoje? Ado advinhava os meus pensamentos.
 - Deve vir.
 - Zez, voc tem medo delas?
 - As tias? No. Uma vez elas conversaram comigo e quando souberam que
eu s fiz a primeira comunho com dez anos persignaram-se.
 - Credo, menino. Criana deve receber o menino Jesus com seis ou sete
anos. Quando a sua pureza  muito maior.
 - Deve ser assim. Mas onde eu morava antes ningum se importava com
isso. A mais alta me olhou com pena e perguntou emocionada.
 - Por qu? Seus pais eram Capa-Verdes? A mais baixa se benzeu com esse
nome. No colgio Fayolle me explicou que capa-verde era o mesmo que
protestante. Ado cortou  A conversa e insistiu.
 - Mas ele vem mesmo hoje?
 - J disse que deve vir. Na certa as tias dele esto achando que ele
est ficando tambm um homenzinho. Homenzinho. Aquela palavra era uma
delcia pra mim. Acho  que pra Ado tambm. To homenzinho que meu pai
no queria que conversasse com as empregadas - Viu? - Isaura  que  o
seu nome." E vinha uma observao muito mais forte. "No quero voc na
cozinha. Cozinha No  lugar pra meninos".
 - Ado por que voc insiste se ele vem ou no?
 - Por que hoje no  o dia da ambulncia? Dei um pulo.
 - E no  que  mesmo. Meu primo de criao quebrara a perna. Precisava
tirar o raio X no consultrio do meu pai. Tinham conseguido ambulncia.
E como s existia  uma no hospital foi cedida Para a noite. Ela viria s
oito horas buscar meu pai.

102
 Sem saber por que fora convidado a ir com ele. Na verdade nem estava
mesmo me preocupando com a sua perna. O que eu queria era viajar de
assistncia. Isso nem  se Fala. Desde cedo que aquela ideia me
perseguia. Foi a primeira coisa que contei ao Irmo Fe quando Tudo
estivesse terminado.
 - D tempo. A gente pode brincar um pouco na calada. O jantar vai ser
servido mais cedo porque ele no gosta de trabalhar com o estmago
cheio. Est tudo combinado.  Ele tambm se chamava Joozinho. Joo
Galvo de Medeiros. Andava sempre muito bem vesti Jantado como fora
previsto e estvamos num banco de jardim defronte a nossa casa brincando
de apostar palitos velhos e queimados, de fsforos, nos carros. Cada
automvel  Que subia a ladeira a gente apostava se a chapa era
noves-fora-nada. E a brincadeira demorava porque Natal no possua muitos
carros e de noite eles andavam menos.  De vez em quando l de cima da
casa-castelo, as duas tias metiam a cabea nas janelas, tendo o cuidado
de colocar um leno no pescoo para no pegar gripe. Elas  Se revesavam
naquele gesto. Quando chegasse a hora tocavam uma sinetinha aguda. E
Joozinho ajeitando os cabelos, a blusa e as calas me apertava a mo e
partia.  O horrio habitual no suplantaria as oito e meia. No porto de
casa, Dadada (Dadada no, Isaura) ficava olhando o mundo tomando fresca
e de olho nas nossas brincadeiras.  Um miauzinho bem fraco apareceu no
canteiro do jardim. Paramos o jogo de uma vez e ficamos esperando outro.
E esse veio mais forte.
 - Vamos ver! Demos um pulo at o gramado. Meti a mo e trouxe um
gatinho novo na mo.
 - Tadinho, foi abandonado. Se ficar aqui, um carro

103

 vai pegar ele. Ou um cachorro vadio estraalha o bichinho. Joozinho
alisava o bichano em minha mo.
 -  gato ou gata?
 - Vamos ver. Ali perto do poste que tem mais luz. Virei o animalzinho
pra cima.
 - Pior ainda;  uma gatinha.
 - Como  que voc sabe? Olhei para Joozinho espantado. Tambm aquelas
tias rezadeiras escondiam tudo dele.
 -  gatinha, no v? Gatinha  rachadinha e gato tem um saquinho de
moedas aqui.
 - Posso segurar um pouco?
 - Pegue. Ele se encantou com o bichano entre os dedos. Alisava que no
acabava mais.
 - Voc nunca teve um bicho?
 - No. E voc?
 - Bem a gente tem aquele cachorrinho Tuiu que no  muito cachorro
porque  todo ruim, todo remendado.
 - Nem isso eu tenho.
 - Nem criao de galinha?
 - Nada. Tive uma ideia.
 - Porque voc no leva a gatinha pra voc. Como ela apareceu ficava se
chamando Aparecida.
 - Minhas tias no deixariam nunca. Pode ter certeza.
 - Mas se ficar aqui ela vai morrer. Voc podia levar escondido. Falava
com o jardineiro de sua casa. Naquele jardinzo ningum iria descobrir
nunca.
 - Descobriam sim. Cada manh antes da missa elas rezam no jardim at
chegar a hora. Se descobriam. L no entra nem sapo, nem lesma.
 - Que gente malvada!
 - No  no. Elas no esto acotumadas. S brinco com bicho quando vou
para a fazenda. A, sim. Ficamos em silncio pensando resolver o
problema da gatinha.
 - Por que no esconde em sua casa?

104

 - S se for no quarto da empregada. Vamos ver? Corremos em direo de
Isaura.
 - Menino, jogue esse bicho nojento fora.
 - No  nojento, no, Dadada.  uma gatinha linda. A gente precisa
esconder ela at amanh. Amanh a gente d um jeito. Voc no quer
deixar a gatinha no seu quarto?
 - T maluco! Encher meu quarto de pulgas. Implorei.
 - Coitada! Ela vai morrer. Deixe, Dadada. S at amanh. Isaura se
decidiu.
 - S se for no quarto das malas, l nos fundos. Tem uma poro de mala
velha e ela pode ficar l. Mas depende dela. Se se danar pra miar est
perdida.
 - No mia no. No v como ela est quietinha. Se no sentir frio ela
se acomoda.
 - Vamos l. Tnhamos nos esquecido das horas. O que importava era
salvar Aparecida da desgraa. Isaura apanhou uma vela na cozinha e eu
acompanhei com a gata  contra o peito. Joozinho ficou esperando no alto
da escada e eu desci sempre atrs de Isaura.
 - Isso aqui est uma sujeira dos diabos. No sei porque no tocam fogo
em tanta velharia de mala. Comeou a procurar uma menos ruim. A luz da
vela tremulando tornava  um quarto cheio de sombras e fantasmas.
 - Vai ficar  nessa aqui mesmo. No estou disposta a apanhar mais p e
mexer em teia de aranha. Nesse momento aconteceu a maior tragdia da
minha vida. Esquecera-me  de tudo. Da ambulncia, das horas e do raio X.
Meu pai se aprontara meia hora antes e re fundo da casa e deu com
Joozinho esperando. Ficou furioso e comeou a imaginar o resto.
 - Cad ele?

105

 Joozinho tremia todo com medo da sua voz. Apenas apontou para o quarto
onde a luz da vela escapava pela janela afora. Eu pressenti as coisas e
sa com o corao  aos pulos.
 - Venha c, seu desobediente. Subi as escadas castanholando os joelhos.
No teria voz para dizer qualquer palavra. Ele me deu um empurro e
caminhei a sua frente.  Paramos no jardinzinho iluminado e sua voz
acompanhava a ira dos seus olhos. Seus olhos fa
 - Ento, seu indecentezinho! Que estava fazendo no quarto com a
empregada? Seu imoral. Suba j. E no vai comigo ver o raio X. A sirene
da ambulncia soou l em  cima da ladeira. Parecia que aquilo me serrava
ao meio. Meu pai virou-me as costas e eu esta e subir a escadaria de sua
casa todo esbaforido. No podia sequer mover-me. Um n dolorido na
garganta impedia-me de chorar. Nos meus ouvidos uma pergunta ficava  se
repetindo doloridamente: Por que tudo aquilo, Meu Deus? O vento que
rodava no jardim tornava frio o suor do meu corpo que empapava toda a
minha roupa. Isaura  subia a escada e vinha em minha direo. Ela
compreendia indignada toda a extenso da minha tragdia. No se
importava do que podiam pensar a seu respeito. Mas  achava um crime no
seu modo rude de pensar, fazer aquilo como uma criana ainda.
 - V pra dentro, v. Empurrava-me docemente. Meus dentes estavam
rilhando como se estivesse mastigando cajarana amarga e verde.
 - Vamos, venha pra dentro. Amanh eu explico tudo a sua me e isso
passa.

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 TERCEIRO CAPTULO

CORAO DE CRIANA ESQUECE, NO PERDOA

QUANDO MAURICE chegou atirei-me quase desfalecido em seus braos. Meus olhos estavam
vermelhos, inchados de tanto chorar.
 - Que foi isso, meu filho? Comendo lgrimas e fungando, fui contando
aos poucos toda a histria. Maurice deixou que eu chorasse mais e s
ento tentou acalmar-me.
 - Isso passa, Monpti.
 - No passa nunca, Maurice.  uma dor, to grande como quando eu era
pequenininho e aconteceu aquela histria do Natal com o meu pai. Sempre
que chega a poca do  Natal continuo vendo os seus olhos cheios dgua e
o seu rosto barbado. No passa nunca.
 - Esperemos o tempo que esquece tudo. Agora que voc est mais calmo,
deixe-me sentar porque tive um dia inteiro de trabalho em p. Sentou-se
na velha poltrona  e puxou-me para o seu colo.
 - Assim, como no comeo. Entre minhas lgrimas estava me lembrando de
uma coisa.
 - Eu sou um bobo, no Maurice?
 - Nada disso. O que voc  e ser por toda vida, uma criana. Isso sim.
 - Eu tinha combinado com Ado que como estou um homenzinho ia evitar...
 - E pensa que no notei? Quando chego s vezes voc tenta evitar me
beijar, no  isso?

107

 Balancei fungando a cabea.
 - E pensa que isso  prprio de um homenzinho? Riu e passou as mos no
meu cabelo.
 - Pois isso  bobagem. Afinal que h de mal em um filho beijar um pai?
Nada. E fique sabendo que se voc me escolheu para pai... vai ficar
velho e barbado, me beijando  Quando eu chegar e quando eu sair. O choro
queria passar mas meus membros eram sacudi
 - Cad o meu filho que tanto falava no sol. Em aquecer o sol. Pois bem,
 numa hora dessas que a gente precisa provar as teorias.
 - Vai ser difcil. Acho que meu sol ficou gelado demais.
 - J lhe disse que amanh ser outro dia. Tudo mudar.
 - O que  que  a vida da gente, Maurice?
 - Ah! Isso no sei. Por que me pergunta?
 - Estava s pensando. Pensando que quando vim pra c eu no sabia
geografia. Pensava que aqui era a Amrica do Norte. E que da minha
janela todo dia, veria os meus  Amigos cowboys: Buck Jones, Tom Mix e
principalmente Fred Thompson. Tudo uma iluso. Se e
 - Vinha sim, porque criana no tem querer. Tem que fazer tudo que os
grandes mandarem e eu era bem pequinino.
 - Acabou?
 - Acabei.
 - Voc se esqueceu de uma coisa. Eu. Eu no sou de "l?" No venho
v-lo todas as noites?
 - Voc  diferente.
 - Concordemos com o meu caso. Mas quantas vezes Johnny Weissmuller ou
Tarz no vem aqui bater na porta dos seus sonhos. No  verdade?
 -  sim.
 - Ento voc tem um dom maravilhoso. E quem pode ter esse dom, precisa
acreditar que o sol pode se aquecer tantas vezes quantas for preciso. E
que no o quero assim

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 Nessa prostrao. Como  que vou poder trabalhar amanh se o deixo
assim nessa tristeza toda? Calou-se um pouco e ficou acariciando meus
cabelos. Meus olhos cansados  comeavam a pesar.
 - Vou ficar aqui at voc dormir. Com uma facilidade inesperada
ergueu-se da poltrona com o meu corpo amolecido e me depositou na cama.
 - No preciso mudar a sua roupa porque j est de pijama. Ajeitei-me
tremendo ainda. Ele veio de l e me falou.
 - Desaperte o cadarso do pijama. Deve habituar-se a isso. Dormir com a
barriga apertada pode dar at pesadelo. Obedeci quase adormecido. Sentia
que sua mo segurava  a minha. Pai era aquilo. Pai que ficava olhando o
meu sono at que sentisse que a calma  cochilava na cadeira. Abriu os
olhos com o meu movimento.
 - Voc ainda est a, Maurice? J  tarde.
 - Demorei um pouco mais para certificar-me de que voc estava bem e
peguei no sono. Levantou-se e se debruou na cama.
 - Agora eu me vou, Monpti. Puxou as cobertas sobre o meu peito.
 - No se descubra mais porque a madrugada est muito fresca. Ainda
acariciou meus cabelos.
 - Durma bem, meu filho, porque apesar de tudo a vida  muito bonita.
Dor era uma coisa danada de desgraada! Por que no dava um dorzo
enorme de uma vez, passava  e acabava? Contara tudo rapidamente a
Fayolle e entrei para a aula com o nariz de batatinh no podia responder
nem contar nada porque meus olhos voltavam a se encher dgua. O mundo
perdera todo o seu sentido hu-

109

 mano. Tudo me esmagava com tal brutalidade de que perdia a noo das
coisas. S aquilo l dentro me consumindo. A dor recomeou mais violenta
e debrucei o rosto  Na carteira querendo, sumir, morrer, desaparecer.
 - Imoral! Indecente! Toda a classe ficou espantada com aquilo. Irmo
Amadeu aproximou-se da banca e perguntou o que era.
 - Ningum sabe. Ele s faz chorar. Est morrendo de Chorar. Irmo
Amadeu saiu rpido da sala e retornou com o Irmo Feliciano e o Irmo
Leo. Levaram-me para  a enfermaria. No tinha foras para subir as
escadas. Carregaram-me Nos braos. Deitaram-me na
 - Beba isso que  bom. Bebi um remdio meio amargo e pouco depois uma
sensao de vazio tomava conta de mim. Minhas mos iam perdendo as
foras e meu corpo parecia  estar se aquecendo Ao sol de vero. S ficou
Fayolle olhando-me enternecidamente.
 - Fayolle!
 - Que  Chuch. Estou aqui. Mas quietinho. O remdio Vai curar voc.
Tudo renascia abruptamente.
 - Eu no estava fazendo nada, Fayolle. Nada de ruim.
 - Eu sei. Mas no chore que faz mal. No conseguia dominar-me e as
lgrimas estouravam.
 - Eu no estava fazendo nada de mal. Eu no sou indecente nem imoral.
Nem outras coisas que ele me chamou...
 - Claro que no, Chuch. Todo mundo sabe disso. Voc  um menino
imaginoso, um pouco levado, mas  s.
 - Eu no quero voltar mais pra casa. No quero voltar para o almoo.
Nunca mais vou olhar para ele.
 - Voc hoje almoa com a gente. Vou teleonar para sua casa e avisar que
voc hoje almoa com os irmos. Inventa-se que  aniversrio de um de
ns. Est bem assim?
 - Est bem. Mas eu no quero almoar com ningum. No quero mais saber
de nada. Eu quero  morrer, sumir.

110
 Criei foras e estendi a mo em sua direo. - por que voc no me d,
Fayolle? - O que voc quer, meu filho?
 - por que voc no devolve? No me devolve a minha pedrinha azul? De
que adianta a gente viver? Viver pra Qu?
 - No, Chuch. No m f a assim. No existe mais aquela pedra. Mesmo
porque voc me deu. E quem d nunca deve tomar. Chorava mais.
 - Preferia que um cao tivesse me pegado no rio do que ter ouvido tudo
aquilo que ele me disse. Fayolle no sabia mais me consolar. Seus olhos
foram ficando inundados.  Meteu a mo no bolso e retirou o leno de
xadrez. E dessa vez no foi para auxiliar- quando ele quase ordenara em
francs a Fayolle que nos deixasse a ss. E Fayolle desapareceu Pela
escada abaixo. Sentou-se na cama do lado e jogou as mos compridas
sobre os joelhos. Estava to srio que nem sequer usava aquele tique
nervoso de tremer os olhos apertadamente.
 - Sente-se na mesma posio em que me encontro. Tornava-se difcil
porque minha lassido era to grande que meu corpo quase no obedecia.
Mas sentei-me.
 - Ento. Suas palavras continuavam duras e imperiosas.
 - Vamos acabar com isso? Olhei espantado para o seu rosto magro de
mas salientes.
 - O senhor soube o que aconteceu comigo?
 - Soube. E da? Por isso vim aqui para pr um paradeiro nisso. Vim aqui
por que voc precisa se preparar para voltar para casa.
 - No voltarei mais para l. No quero me encontrar com ele e nunca
mais olhar o seu rosto de frente.

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 - Ou de frente ou de lado, j disse, voc vai voltar e j para casa.
 - Depois de tudo aquilo que ouvi?
 - Exatamente. Depois de tudo que ouviu. E que na realidade no foi
nada.
 - O senhor diz nada? Nada. O que pensa que eu sou? Mordia os lbios com
um comeo de raiva e os olhos Estavam querendo me trair. Tal foi o meu
desespero que Ergui  a voz e me esqueci de tudo.
 - O senhor ensina a gente a ir para a missa. Comungar. Trazer Deus, o
Cristo sei l o que mais no corao. Exatamente como ele faz todo o dia.
Bate no peito na  Hora Da elevao e ensina a gente a dizer: "Meu Senhor
e Meu Deus." E pra qu? De que adianta maldade Daquelas... Nervoso
comecei a bater com os ps no assoalho como se desejasse que tudo viesse
abaixo. Que o mundo estourasse naquele justo momento. Irmo  Ambrsio
ergueu-se furioso. Gritou comigo.
 - Isso. Quebre o assoalho. No quer bater com a cabea na parede? 
muito mais prtico! A eu j estava aos prantos e minha voz tornou-se
mais baixa.
 - Que adianta tudo isso, Irmo Ambrsio? Cad o amor e a caridade? 
por isso que muitas vezes vou para a comunho com raiva. Porque a gente
se no fizer, perde  A praia e o cinema. Irmo Ambrsio levou a mo
tapando a minha boca.
 - Cale-se! E cale-se. Voc vai ouvir o que ningum tem coragem de lhe
dizer. Forou os meus ombros para que me sentasse. Ficou com o rosto a
altura do meu rosto.
 - Seu ingrato. Quem  voc para julgar os outros? Voc j pensou na
preocupao desse homem que tinha um caso complicado para tratar? No.
Para voc no era nada.  Apenas uma aventura. Um passeio de ambulncia.
S. Ponha-se no lugar dele e pense. Acalmou

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 - Zeca ingrato! Ingrato  o que voc . Esse homem tirou voc da rua,
da fbrica, da pobreza, da tuberculose at. Esse homem lhe deu um lar.
Roupas. Tudo de melhor.  Deu um estudo que seus irmos no tiveram. Quer
fazer de voc um homem culto e decente.  Voc na primeira oportunidade
morde a sua mo. J pensou quantas vezes esse homem perdoou as bobagens,
as malcriaes que voc faz? E agora voc vem com essas lamrias
Acus-lo? Olhe menino... Sua voz tornou-se at trmula de emoo.
 - Mesmo que tenha cometido uma injustia. Veja bem. Uma injustia. Voc
j imaginou o pesar que deve ter se passado dentro de sua conscincia ao
saber que agiu  Talvez Precipitadamente. Talvez por um momento de
desespero, talvez por um momento de grande  para acusar O seu pai. Nem
que eu tenha de amarrar sua boca. Entendeu? Baixei a cabea enquanto ele
comeou a caminhar entre as camas da enfermaria. Tornou a  voltar a
carga.
 - E se assim falei  porque voc me obrigou. No pense que tenho prazer
em proceder dessa maneira. As coisas duras, as verdades duras precisam
ser ditas. Mas para  Que voc chegue a esse ponto precisa ser homem,
viu? Precisa crescer. Ser responsvel. O c era minha. Parecia ter
aparecido de uma geladeira imensa.
 - Est bem, Irmo Ambrsio, o que o senhor quer que eu faa? Ele me
fitou surpreso porque no esperava to cedo aquela atitude de minha
parte.
 - Assim  melhor. Tornei a inquirir.
 - Que quer o senhor que eu faa?
 - Que volte para casa. Que acabe com tudo isso. Que d uma oportunidade
a seu pai. Que tudo isso desaparea.

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 Meus olhos agora secos fitavam os seus olhos incisivos.
 - Est certo farei isso. Seu semblante se transmudou. At um sorriso
apareceu em seus lbios.
 - Assim  que se fala, Zeca.
 - Mas no vai ser fcil como o senhor pensa.
 - No comeo. Depois isso tudo passa. No  "coeur d'or" que o irmo
Feliciano o chama? Pois esse corao de ouro sabe perdoar.
 - Tudo no Irmo Feliciano  bondade. E eu no sou bom. Pra ele tudo 
bom. Pois bem, Irmo Ambrsio. Eu vou esquecer, tentar esquecer. Porque
no acredito em perdo.
 - E qual  a diferena entre esquecer e perdoar?
 -  que perdoando a gente esquece tudo. E s esquecendo, muitas vezes a
gente volta a se lembrar. Senti que ele estava perplexo com a minha
explicao. Perdera  at o jeito de me retrucar. Vendo que a tempestade
passara me deu a mo para levantar-me.
 - Sabe Zeca, voc no  mal como quer ser.
 - No tenho vontade de ser bom ou mal.
 - O que estraga em voc  que est se tornando um menino muito
orgulhoso.
 - No quero ser tbua de lavar roupa que todo mundo bate. Descemos a
escadaria da anfermaria lado a lado. Sentia que Irmo Ambrsio tentava
mandar para longe a  terrvel tormenta de poucos minutos antes.
 - Voc vai pegar sua pasta na classe e eu esperarei. Vou acompanh-lo
at o Jardim do Palcio.
 - Para qu? Eu prometi que volto para casa e voltarei.
 - Tenho certeza disso. Mas no quero que se v magoado comigo.
 - No estou magoado. O senhor at que me ajudou. Ajudou muito.
 - Ainda bem. Mas eu quero conversar uma coisa com voc. Uma coisa que
s se pode falar com muita calma. Apanhei a pasta e samos caminhando
juntos. As sombras dos

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  grandes ficus-benjamim estavam mais esticadas na areia porque
o sol comeava a desaparecer. No corao da praa, Irmo Ambrsio voltou
a me falar. Sua  voz estava meio dolorida e baixa.
 - Zeca, foi verdade aquilo que voc falou?
 - Aquilo o que, Irmo Ambrsio?
 - Que voc ia comungar com raiva.
 - No queria dizer aquilo. Saiu num momento em que estava muito
comovido.
 - Mas se saiu  porque deve haver um fundo de verdade... Suspendi meus
olhos to desesperadamente para ele, que paramos.
 - Posso lhe falar a verdade, Irmo Ambrsio?
 - Pode.
 - Ento vamos sentar naquele banco, porque me sinto muito fraco e
arrasado. Ficamos um tempo sem querer comear. Ele esperava que eu me
decidisse. Como no rompesse  o meu silncio, resolveu perguntar-me.
 - Que idade voc tem agora, Zeca?
 - Quase treze anos.
 -  verdade. O aluno mais moo da sua turma. E tambm o meu melhor
aluno de portugus e literatura. Sorri entre a indiferena e o desnimo.
 - Ento?
 - Vou falar, Irmo Ambrsio. Estou tentando um jeito mais fcil de
comear. A coisa saiu de um j ato.
 - Sabe o que ? Eu tenho a impresso de que ensinam a religio toda
errada pra gente. Fico meio desorientado. Quando fiz minha primeira
comunho, minha tia em casa  Me preparava particularmente. Dizia que eu
iria ter o dia mais lindo da minha vida. Que r Nada disso. Senti foi
vaidade. Porque era pequeno e as platinas da minha farda mostravam aos
outros que j estava no quarto ano primrio. Pensava que todos os
olhares  Se dirigiam a mim. Quando comunguei, com tanto cntico e
orao, eu

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 realmente sentia era fome. Fiquei decepcionado porque a hstia no
trouxe a diferena que me ensinaram a esperar. Foi um dia horrvel.
Fotografia em grupo. Caf,  Chocolate bem tarde. At me sentia zonzo de
fome e com tonturas. Depois novamente fotografi A tarde. Ficou faltando
alguma coisa em minha alma. Olhei de soslaio e ele fitava o cho
gravemente.
 - Depois o tempo foi passando e a comunho virou quase que uma
obrigao. Uma exigncia l de casa. Uma coisa to importante para no
perder a praia e o cinema  Como As notas da caderneta. E a gente tinha
que ir. Quase obrigado a ir. No era raiva que eu
 - Isso  horrvel.
 -  horrvel mas ningum compreende. Muitas vezes eu fico sem vontade
de me confessar e tenho de ir. D vontade outras vezes de rezar o ato de
contrio e comungar  Em pecado mortal. Irmo Ambrsio teve um
sobressalto.
 - Voc j fez isso, Zeca?
 - No. Ainda no. Mas sinto que mais tarde serei capaz de o fazer.
 - No. No faa nunca isso.  melhor no comungar. A Eucaristia  a
coisa mais sagrada do mundo.
 - E devo mentir l em casa? Eu no gosto de mentir. Porque a gente no
engana a si mesmo. Irmo Ambrsio estava confuso com o meu problema.
 - Talvez que dessa orma fosse melhor voc mentir. No tnhamos mais o
que conversar.
 - Eu preciso ir, Irmo Ambrsio. Peguei a minha pasta. Apertei a sua
mo e sai caminhando. Desanimado. Triste. Meio morto. Olhando o cho com
os ombros vergados  e sentindo quanto mais me afastava O olhar parado do
irmo Ambrsio me seguindo.

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 QUARTO CAPTULO

O CAO E A FRACASSADA GUERRA DAS BOLACHAS

A NOITE MORNA deixava penetrar um ventinho fresco pela janela entreaberta.
Malgrado isso sentia frio.  Tanto frio que me enrolava nas cobertas e as
puxava at o queixo. No podia apagar a luz na
 - Foi um dia horrvel, no, Ado?
 - De lascar peroba! Entretanto voc reagiu muito bem.
 - Pior foi na hora do jantar. Parecia que a gente estava comendo no
cemitrio. Um silncio de gelar. A comida no querendo descer,
tropeando na garganta. O tempo  No andava. Fiquei toda a refeio com
os olhos grudados no prato e nunca prestara ateno Agora em diante.
Jamais levantarei os olhos em sua direo. A qualquer momento estarei
esperando que ele movimente os lbios e me chame de novo de indecente,
imoral  E outras coisas.
 - Logo voc esquece.
 - Nem esqueo e nem perdoo. Nunca. Posso ficar velhinho de bengalinha
na mo, com o queixo tocando nos joelhos que no vou esquecer mais. Voc
no me conhece o  Bastante, Ado. Falvamos baixinho para que ningum
viesse nos molestar.
 - Voc no esquece nem perdoa. Est bem. Mas j ouve um caso em sua
vida que voc esqueceu e perdoou. Fiquei curioso.
 - Conversa. De que voc est falando?

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  - Do seu Portuga, quando voc pegou morcego no carro e ele lhe deu
umas palmadas. Fui l longe na minha saudade e demorei um pouco de tempo
at retornar.
 - Bem ali foi diferente. Por que voc se lembrou disso?
 - Nada. Por nada. Ado estava tentando experimentar as minhas decises.
 - Foi diferente sim. Eu praticava uma m ao. Fazia uma arte. Ontem
foi diferente. Nada fazia de mal, voc sabe disso e fui tratado pior do
que um cachorro sem  Alma.
 -  melhor dar razo a voc, porque na vida existem coisas que a gente
no esquece mesmo.
 - Ainda bem que concordamos.
 - Est sendo injusto, Zez. Sempre concordo com voc e minha misso 
ajud-lo e a esclarec-lo.
 - Eu sei. Obrigado, Ado. Novamente silenciamos. O relgio na sala
batia dez horas. E sabia que a casa se encontrava s escuras. Todo mundo
se recolhera em seus  aposentos. Ningum tinha nada Que conversar ou
comentar.
 - Ado!
 - Hum.
 - Estou morto de sono e no vou conseguir dormir.
 - Est pensando na carta.
 - Sim. Pensando em Godia. Coitadinha. O pior  que no sei escrever
uma carta amiga, reconfortando-a.
 - Pea ao irmo Feliciano que ele ajuda.
 -  uma boa lembrana. Mas voc viu que tudo chegou na mesma hora?
 - So coisas da vida. Tente esquecer. Feche os olhos. Por que no
experimenta rezar?
 - Pra qu? Hoje estou meio de mal com Deus.
 - Que adianta? Voc sai perdendo. Era verdade. Ado tinha razo.
Ningum podia brigar com Deus. Nem Tarz com todos os elefantes da
frica. Deus era uma coisa  grandona demais e que levava sempre A
melhor. Alm do mais ele tinha feito a vida muito bonita vivia
balanando na rede das ondas.

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 Meu corao se angustiou. "No falei de verdade, viu, Deus? Viver sem
voc no corao deve ser uma coisa muito ruim." Meus ouvidos estavam to
apticos que nem  percebi a chegada de Maurice. Uma pancadinha na minhas
costas fez-me revirar na cama. O rosto sol renascia cheia de esperanas.
 - Voc demorou tanto, Maurice.
 - Retardamos umas cenas e o trabalho acabou muito tarde. Sentou-se como
de hbito na poltrona velha. Alisou o seu brao meio esfiapado e tentou
desmanchar aquele  ambiente de tristeza.
 - Voc nunca me falou o nome dessa poltrona?
 - Nunca mesmo?
 - Nunca.
 - Ningum gosta dela. Por isso est jogada no meu quarto. Tem um nome
horrvel. Orozimba.
 - At que  um nome bem simptico para uma velha senhora gordona.
 - S que no tem sobrenome. J que voc achou o seu nome lindo vou
batiz-la com o seu sobrenome. Maurice soltou uma garganhada e comentou
com seu sotaque meio  francs:
 - Orozimba Chevalier! Pois olhe que no soa mal. Quando ele viu que me
acendera o sol, puxou Orozimba para perto da cama e me segurou as mos.
 - Ento, Monpti, como vo as coisas? Contei-lhe tudo tentando evitar
que meus olhos se enchessem d'gua de vez em quando.
 - Foi um dia terrvel, meu filho. Precisamos voltar a crer nas pessoas.
Principalmente nas pessoas grandes.
 - Mas no foi tudo, Maurice. Eu tive uma m notcia da minha outra
casa. Voc sabe aquela minha irm Godia? Pois bem ela sofreu um
desastre medonho de automvel.  Ficou toda deformada. Vazou uma vista e
j fez quatro operaes para consertar o rosto. Pa

119


 se todos os dentes. No  triste? Logo a irm que me queria mais bem.
Ele no respondeu e ficou apertando com mais carcia os meus dedos.
 - Apesar de tudo foi ela que me ajudou a continuar.
 - A continuar o qu?
 - Aqui. Vou continuar. Vou at ao fim.
 - Voc sabe que durante o dia eu pensei muito nisso. Temia que voc
tomasse uma deciso errada.
 - Alguns momentos cheguei a duvidar se poderia. Mas no. Vou continuar.
Penso na vida que levam meus irmos. Penso nas palavras do Irmo
Ambrsio. Eles esto l.  Levantando de madrugada para trabalhar na
cidade e voltando de noite para dormir e recomea Crescer sem ao menos
poder tratar dos dentes ou comprar uma roupa ou um sapato melhor. Eu sei
de tudo. E de l, sem reclamar, eles olham em minha direo contentes.
Porque eu estou livre de tudo isso e um dia poderei ser at doutor.
 - Gostei, gostei, Monpti. Assim  que se fala. Assim  que um
homenzinho age. Estou orgulhoso de voc.
 - Apenas estou repetindo umas palavras que me lanam ao rosto sempre. E
outras que o irmo Ambrsio tentou me dizer naquela agresso toda. Que
no disse mas eu  Entendi. Maurice levou o relgio a altura dos olhos.
 - Infelizmente tenho que ir, meu filho.
 - Pode ir que eu compreendo. S quero que me responda uma coisa.
 - Respondo tudo.
 - Voc teve tambm um dia ruim?
 - Pssimo. Nada dava certo. Um dia desanimador.
 - Ficou cansado?
 - Ainda continuo cansado. Sorri para ele.
 - Por que Monpti?
 - Nada. No  nada. Voc conseguiu riscar o fsforo.
 - Tem certeza?

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 - Tenho. Riscou e acendeu meu sol com esperanas.
 - Melhor assim. Posso voltar contente. Passou as mos como gostava de
fazer nos meus cabelos.
 - Ento amanh ser outro dia?
 - Possivelmente. Ajeitou a minha coberta.
 - Agora feche os olhos e vire-se para a parede como gosta de fazer
sempre. Obedeci.
 - Boa noite, Monpti e durma bem. Saiu de leve como se agitasse o
prprio vento da ternura que ele recriara no meu quarto. Tudo estava
escuro e calmo.
 - Ado!
 - Hum.
 - Voc ouviu?
 - Tudo.
 - Isso  que  ser pai. Passou um dia de muito trabalho, ficou muito
cansado, mas veio assim mesmo at aqui para ver como foi o dia e me dar
boa noite. Isso  que   pai.
 - Tambm acho, mas vamos dormir que estou morrendo de sono. Sentia que
Ado tambm se encontrava muito satisfeito com as minhas decises.
Quando abri a janela  do quarto vi que era "outro" dia mas estranhamente
se assemelhava ao dia anterior. Apenas o co aquele dia seria igual a
muitos dias que iriam seguir. Me vestir. Sentar  mesa. Responder com
monosslabos e no erguer nunca os olhos para ele. E assim um dia  se
uniu a outros formando um ms. E os prximos meses me encontrariam
sempre com a mesma disposio. Ado at que me recriminava.
 - Voc bem que podia passar o po ou a manteiga quando ele pede.
 - No me pede mais. Dirige-se a minha irm ou a minha me.

121


 No colgio no havia ningum mais arredio e mudo. At mesmo Tarcsio
que caminhava comigo ou se sentava a meu lado no banco do jardim pouco
conseguia quebrar o  Meu mutismo. Fayolle respeitava meu comportamento
esperando com calma que passasse aquela fas perguntava se comungara ou
no.
 - No quer ir  praia com seu pai?
 - Estou com dor de cabea e preciso estudar. Dispensava a praia porque
quando queria fugia das aulas e danava-me a nadar no Rio Potengi.
Costumavam aos domingos   tarde dar uma volta de carro na cidade. Era a
rotina de sempre. Um pulo at o Tirol, uma v casa de um amigo da
famlia.
 - No quero sair. Vou ficar lendo. No insistiam. Tanto podia fazer o
que dizia como correr plos muros dos vizinhos. Sentar nos galhos dos
sapotizeiros ou da  mangueira. As galinhas olhavam em minha Direo e
estranhavam que no trouxesse mais farelo mi ele foi  Recife fazer um
tratamento especial. Meu pai teve de acompanh-lo. Na volta me trouxe um
presente. Estendeu-me Em silncio um cinturo preto. Fiquei  indeciso em
segur-lo.
 - Agradea.
 - Obrigado. Virei as costas com o cinto me queimando as mos. Joguei-o
na gaveta do armrio e nunca o usei. Novamente Ado me repreendeu.
 - Tambm, Zez, no precisa exagerar tanto.
 - Voc no veio para me ensinar a ter personalidade? Pois comigo de
agora em diante vai ser sempre assim. Era preciso que acontecesse alguma
coisa para minorar  aquela situao que eu mesmo considerava aflitiva. E
ela veio quando menos esperava.

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 Irmo Amadeu sorriu sem jeito  minha aproximao. Ele j antecipava o
meu pedido.
 - Posso hoje, Irmo Amadeu?
 - Hoje no.
 - Por que no?
 - Combinamos que s deixaria duas vezes por semana. Remexeu na pgina
de um caderno que corrigia. Como eu permanecesse balanou a cabea
negativamente.
 - E eu pensei que o senhor era mesmo meu amigo.
 - Justamente por ser que eu no o permitirei hoje.
 - Que diferena faz? No sei sempre as minhas lies? No sou o
primeiro da aula?
 - Mesmo assim voc est abusando da minha boa vontade. Voc j imaginou
a minha responsabilidade? O diabo me futucava forte.
 - No seria diferente das outras vezes que o senhor deixou. Ele me
olhou por sobre os culos com aqueles olhos muito claros, quase cor de
manteiga e manifestou-se  um pouco preocupado. Reconhecia a fora do meu
argumento.
 - Escute Irmo Amadeu. Eu estou nadando cada vez melhor. No h perigo.
S vou treinar uma horazinha e volto. Baixou os olhos para o seu servio
e no respondeu.  Insisti.
 - Garanto ao senhor, que s hoje. Depois voltarei a nadar s duas horas
por semana. Duas vezes por semana. Sabia estar mentindo porque no
voltaria em uma hora.  Iria esperar a mar encher. A mar estava de
vazante cheia de estranhos "navegantes" que des dar tempo at que viesse
a encher. Tempo para voltar ao colgio. De l o jeito era sair
diretamente para casa. Importunado com a minha insistncia ele
concordou.
 - Vasconcelos, voc promete que  s hoje?
 - Juro.
 - No precisa jurar.
 - Vai falar com o Irmo Feliciano?
 - J falei e tudo depende s do senhor.

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  - Est bem. Mas olhe l. Na hora da chamada ele abonaria a minha
falta. Agradeci e sai voando. A meninada toda estava sentado sobre os
fardos de algodo do  cais esperando a mar crescer um pouco mais. Dali
a gente nadava at o club do Sport. Quem tinha ainda se tornava cedo
para tal faanha. Era uma altura bem razovel.
 - Vamos fazer ginstica com Dr. Renato Vilman?
 - Vamos embora. A gente adorava acompanhar o Dr. Renato em tudo. Ele
tinha um fsico perfeito. E ensinava a gente a se locomover nos
movimentos. Corrigia quando  qualquer um errava. O Homem devia ter uma
fora dos diabos. Ele sozinho suspendia a iole e l ajudar. Carregando os
remos. Ele agradecia.
 - Quando eu crescer quero ser assim como o senhor. Ele ria com
pacincia. Respondia com uma voz de gente do sul.
 - Ento precisa comer bastante angu. E a discusso se ferrava entre o
mundo mido.
 - Ele  mais forte do que Johnny Weissmuller.
 - Que nada. Tarz  mais forte e mais alto.
 - No cinema todo mundo fica forte.
 - Pois ento vai l e veja se fica. Cada um caoava do outro. Porque
todos estavam fazendo uma fora danada para aumentar as bolotinhas dos
msculos e alargar  a magreza do peito. Nisso apareceu Ebenezer. Era
outro heri nosso. Ebenezer quando pegava um  e a embarcao parecia
Obedec-lo at num movimento que fizesse com o pescoo. E pra nadar era
aquela calma. Sabia todos os estilos. Ebenezer chegou perto da  rampa
onde estvamos sentados e sondou a mar.
 - Vai nadar Ebenezer?

124

 - Estou pensando.
 - A mar j est boa, no est?
 - Logo ela fica melhor. A gente grudado de olhar nele e ele a olhar o
rio l longe, vendo as margens verdes cheias do verde mangue. De repente
ele voltou a vista  para nosso lado.
 - No gosto de nadar sozinho. Tem a algum cabra corajoso pra me
acompanhar?
 - Onde voc vai?
 - Vou nadar at o cais do Porto enquanto a correnteza est fraca.
Depois volto a favor at o cais Tavares de Lira. Ningum se animava.
 -  muito longe pra gente.
 - Vocs no querem aprender? Eu estava louco para topar. Mesmo que
ficasse depois no maior cansao.
 - Vamos com ele, Lei?
 - Ele nada muito depressa, a gente no pode nem chegar perto dele.
Ebenezer riu.
 - Pois bem, prometo que nado devagar. Quem vem comigo? Lei e eu nos
levantamos. Ebenezer deu um pulo de estilo e mergulhou nas guas do rio.
Agora ficava feio  a gente desistir. Tomava vaia na certa. Fizemos o
mesmo e nos pusemos a seu lado. Como promet da correnteza. Ali a gua
era limpinha e transparente. Nadamos mais. Agora Ebenezer Para nos
forar se adiantara bastante. A gente podia ver a sede do Sport e  do
Centro Nutico bem pequenininhas. Havia vrios barcos ancorados. E
ficando para trs A lancha da Polcia Martima. Foi Ebenezer que deu o
alarme.
 - Melancia! Melancia! Meu corao quase rebentou no peito. Melancia.
Havia cao por perto. E o cheiro se aproximava mais. Ebenezer j nadara
para uma lancha.  Lei se virara e procurava Um barco mais prximo para
subir. S eu nadava como um

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 louco. Ouvia que Ebenezer me gritava e no conseguia distinguir suas
palavras. Comecei a rezar por dentro. "Minha Nossa Senhora de Lourdes me
proteja. Prometo  que no desobedecerei mais." E o cheiro aumentando em
minha direo. Parecia que A gente estav os meus membros tremiam a cada
braada e o cheiro j agora me perseguia. Tentei acalmarme E consegui
ouvir a voz de Ebenezer gritando.
 - Nade, rpido. Nade para a Lancha da Polcia. Nade. A lancha nunca me
pareceu to grande. Nadei em sua direo. O corao batia tanto que
estourava o peito. Fuime  Chegando. Olhei em desespero para as suas
bordas altas. Mesmo que conseguisse alcan-las Ou o medo que me
assaltara todo, nem sei mesmo como agira naquele momento. Minhas mos se
grudaram nas bordas e subi o meu corpo, jogando-me dentro da embarcao.
Fiquei debruado olhando a gua do rio com vontade de chorar e de
vomitar. O cheiro vinha mais forte ainda. E diante dos meus olhos
apavorados vi a lmina do rabo  Do cao cortar a gua fazendo pequenas
mareas. Tinha sido obra de um instante. Aquele rabo cinza e prateado
foi-se afastando e desapareceu. Deitei no fundo da  embarcao e comecei
a tremer. Nem era medo e sim horror. Tentava respirar fundo mas sentiame
gelado. Os joelhos batiam um no outro. Agora criava-se O problema  da
volta. Cad coragem. S ento Ado se manifestou no meu desespero.
 - Puxa, Zez, por pouco. Fiquei irritado com ele.
 - Nessa hora voc nem se manifestou.
 - Estava morrendo de medo. E voc balanava tanto o corao que quase
vomitei.
 - E agora, Ado?
 - Precisamos voltar.
 - E se ele ficou rondando por a.  s eu pular ngua...
 - Vamos ficar calmos e esperar. Olhe onde esto os outros.

126
 Lei se achava na mesma situao que eu. S que tivera tempo de nadar
para um barco mais prximo ao clube. Ebenezer em p fitava as guas e
aspirava o ar. Quando  Pareceu no sentir mais o cheiro de melancia
gritou pra mim.
 - Daqui a pouco a gente pode voltar. Passou o perigo. Esperou bem uns
dez minutos que me pareceram duzentos e cinquenta horas. Pulou ngua e
nadou para a minha  Embarcao.
 - Pule que eu nado junto de voc e devagar. Balancei a cabea
negativamente.
 - Agora no.
 - Vamos. Coragem. Eu vou at o barco do outro menino. Vamos. Nadaremos
os trs juntos.
 - No vou. Vou ficar aqui at morrer. Se tentasse nadar no
conseguiria.
 - Se no quer ir, eu vou. No posso ficar a vida inteira esperando por
voc. Aguardou um segundo e vendo que no me decidia nadou para o lado
do club pegando antes  o Lei. Vi os dois desaparecendo, desaparecendo.
Chegando ao clube. Subindo na rampa e ap um milagre. A tarde dava
mostras de se aproximar e essa hora eu j deveria estar indo para o
colgio ou para casa. A o tempo no demorou mais. Chegou o vento da
noite e o sol comeando a declinar. Sentia frio e o meu calozinho
molhado aumentava a minha angstia.
 - E agora, Ado? Falava quase chorando.
 - Eu no vou sair daqui. O bicho pode estar por perto.
 - Nem eu.
 - Lembrei-me de uma coisa que faz bem a nervoso.
 - O que ?
 - Se eu conseguisse fazer pipi melhorava.
 - Ento porque no tenta?
 - Estou tremendo tanto que nem posso ficar de p.
 - Faz no barco mesmo. Ningum vai saber quem foi. E o sol amanh apaga
o cheiro.

127

  -  o jeito. Comeou a escurecer. E o medo aumentando.
 - Minha Nossa Senhora de Lourdes me ajude, por favor! As luzes do cais
acendiam-se. A cidade estaria fazendo a mesma coisa.
 - E se fecharem o clube? A gente vai morrer de frio essa noite.
 - Tudo isso  muito bom. Mas j imaginou o que vai acontecer em sua
casa, Zez?
 - Nem quero pensar nisso agora. Quero  sair daqui. Ficamos calados
escutando.
 - Est ouvindo, Ado?
 - Parece um barulhinho de remo.
 - E  mesmo. Procurei escutar mais.
 - E est vindo para c. Uma iole apareceu perto. Era o Dr. Renato
Vilman.
 - Que foi isso, seu moo? Segurou a borda da lancha e parou a iole.
Estava to emocionado que no falava.
 - O cao ia pegando voc? Agora j passou. Vim busc-lo. D para
passar para a iole?
 - Minhas pernas esto tremendo tanto que nem sei.
 - D sim. Fique calmo. Sua voz era de uma bondade imensa.
 - Vamos. Pendurei as minhas pernas fora da embarcao e tentei descer
meu corpo na parte dianteira da iole.
 - Pode ir com as pernas dentro d'gua esticadas para frente. Agora no
h mais perigo. A gua estava morninha e o meu medo se dissipava aos
poucos. Logo os remos  puxados por seus braos fortes foram nos
conduzindo para a rampa do Centro Nutico Potenei. meia hora e em
seguida caminhvamos para a sala grande do Estudo. Aproveitara aquele
tempo E me

128
 Dirigira at a sala de Fayolle. Sabia que me esperava impaciente. Ele
estava l. No lia, no corrigia caderno, no brincava com a rgua na
mo. S me esperava.  E quando cheguei deu-me aquele sorriso onde os
olhos sumiam-se no Rosto gordo e avermelhado.
 - Mon cher frre Felicien Fayolle. Ele apontou o dedo em meu peito.
 - Chuch, Chuch, um dia voc me mata do corao. Soltei uma risada me
lembrando do cao.
 - Isso se eu no morrer antes. Indicou-me a cadeira a seu lado.
 - Agora sente-se e conte tudo. Quero saber de tudo. No neguei os
detalhes dramticos da histria. Quando acabei ele suava frio.
 - J imaginou se o tubaro pega voc?
 - Nem quero pensar. Quando fecho os olhos ainda avisto aquele rabo
cortando a gua. Como  mesmo que se chama aquilo, Fayolle? Suspirou
forte antes de responder.
 - Barbatanas, Chuch. Tentou franzir a testa, fazer-se srio. No mnimo
o Irmo Diretor exigira que ele me fizesse um sermo daqueles.
 - Voc prometeu que no nadaria longe dos prdios, Que no arriscaria a
vida, no foi?
 - Foi sim.
 - E onde est sua palavra?
 - Ora Fayolle nunca tinha feito isso antes. Ebenezer comeou a mexer
com os brios da gente.
 - E se voc morre comido pelo tubaro? J imaginou?
 - No morri, no foi? Se morresse iam fazer naturalmente como fizeram
quando aquele menino, o Chico Dantas, morreu na Lagoa do Bonfim. Todo
mundo chorou. Rezaram  Ofcios fnebres por ele. Foi tanta coisa que eu
at que fiquei com vontade de morrer afogado.
 - No diga bobagens. A pose do caro passara. Ele comeara o sorrir da
minha ideia.

129

9 Vamos aquecer o sol

  - Deu encrenca pra voc, Fayolle?
 - Nem vou contar um pedao. Mas foi duro. Toda culpa caiu sobre minha
cabea e o pobre do Irmo Amadeu. No tem importncia, j passou.
 - Como  que souberam de tudo?
 - E como iriam deixar de saber? Voc no chegava em casa, ficando de
noite. Telefone pra l. Telefone pra c. Cidade pequena. Lngua ligeira.
Todo mundo sabe logo  De tudo. "Imagine que o Vasconcelos ia sendo
comido por tubaro."
 - No foi tubaro. E sim, cao.
 - E que diferena faz, Chuch?
 - Tubaro  um pouco maiorzinho e comia mais depressa. Fayolle deu uma
risada.
 - E com voc?
 - Nem fale. Deu um bolo dos diabos. Nem sei como consegui entrar em
casa. Se no fosse Ado me encorajar... Ouvi tanta coisa que perdi a
conta. S me deram direito  A dormir em casa a noite de ontem. Ontem
mesmo arrumaram minha mala para vir o mais cedo  L estava se tornando
impossvel. Pelo menos se ficar interno at o fim do ano, quando voltar
estaremos mais esquecidos de tudo...
 - Voc gosta de vir interno?
 - Vou lhe contar outro segredo, Fayolle. Em casa pensam que  o maior
castigo do mundo. Mas pra mim  o maior paraso da terra. Principalmente
nesse estado em que  Andam as coisas.
 - Sabe o que exigiram de mim, Chuch?
 - No.
 - Muita coisa, meu filho. Exigiram que no o deixasse de forma nenhuma
fugir para nadar no rio. E sabe o que eu fiz?
 - Calculo.
 - Prometi que no permitiria mais. Voc compreende o que quero dizer?
Olhei meio emocionado para os seus olhos.

130

 - No fugirei mais. No quero ver voc complicado por minha causa. Ele
riu.
 - Eu sabia que voc iria me prometer isso. E sei tambm que no
desobedecer. Ficamos nos analisando brevemente.
 - E tem mais, Chuch. No poder sair aos domingos. Nem para ir em casa.
 - Isso  bom. Ser que nem um cineminha aos domingos?
 -  um caso a estudar. Depois  bom voc acabar um pouco com essas
histrias de cinema. Dizia brincando eu sabia.
 - Sua famlia est numerosa demais.
 - Quanto a isso pode sossegar. Eu reduzi um pouco a turma. Tinha que me
dividir com muita gente. Fiquei s com Maurice, Tarz e Joan Crawford.
Tudo se desanuviara.  Fayolle estava o mesminho de sempre. O final fora
feliz e pra ele, naquela sua calma, mel
 - Est na hora da Banca. Precisa ir. Levantei-me. Fayolle pediu-me.
 - D uma volta. Quero v-lo. Rodei nos ps e ele sorria.
 - "Que cet animal a grandu!" Quem riu dessa vez fui eu.
 - Entendeu?
 - "Como esse animal cresceu!" Sa da sala to leve e acalmado que nem
parecia ser o mesmo menino ameaado pelo cao na vspera. At Ado dera
para estranhar o  meu comportamento. Muito embora a mim no fizesse
diferena nenhuma. Desde pequenininho que d Jesus e sim o diabo em

131

 pessoa. Pois se no nasceu, agora ele me acompanhava. Torna-se amigo
ntimo e "ensinador." Quando no imaginava uma coisa o diabo me
ensinava. No sabia ficar  parado. Com as mos quietas. At os outros
irmos, os outros professores ficavam me olhando se  espera de uma
traquinagem. Todo mundo tinha uma rgua de borracha negra. Entretanto a
minha me fazia ccegas. De tanto mexer nela descobri que a gente
raspando-a  contra a madeira da banca At que esquentasse bem, vinha um
cheiro de matar. Pois Irmo Estevo veio substituir o professor de
religio que adoecera e eu achei  que... bem... O Irmo Estevo Tinha um
narigo pingoso e vermelho. Prprio para aquele cheiro. Foi pensar e
realizar. Requet-requet-requet. Nem precisou muito  requet. Foi um tal
de puxar leno Do bolso e cuspir no cho que no acabava mais. A aula
empodreceu. Deu tosse na macacada. Debandaram abandonando o Irmo
Estevo  de olhos afogueados por trs dos  culos. Ele veio direto a mim
no corredorzinho da aula. No disse nada. S me arrastou pela manga da
farda e me ps de castigo junto ao quadro negro. O cheiro com  o calor
Da tarde ficara insuportvel. Deixou-me l no canto e saiu da sala
fechando todas as janelas para que eu sentisse bem qual era o preo de
uma aula de religio  inacabada. Ficara to arteiro que me colocavam na
fila de trs sozinho numa banca. Abria o meu estojo de desenho
analisando o seu contedo. A vista se grudava na  gilete velha. Ficava
com pena dela. Que vida besta ser uma lmina usada. S servia para fazer
ponta em lpis ou cortar dedos. Peguei na coitada e abri a tampa  da
carteira. Prendi-a No vozinho e baixei de novo a tampa. Ela estava
segurssima. Dei um peteleco com o dedo e saiu um som gemido lindssimo.
Fiz uma vez, duas,  trs. Comeou gente A virar-se para trs para
descobrir o que era aquilo. Ficava com a cara mais sonsa do mundo
olhando o quadro negro interessadssimo na aula.  As duas mos
superpostas Escondiam o meu brinquedo. A aula sossegava mais e
zum-zum-zum. A j aparecia uma risada meio canalha. Aquietava-me por
instantes  e quando a aula retomava o Seu ritmo l vinha o zum

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 De novo. A deu bolo. O irmo veio chegando, chegando e parou perto de
mim. Olhou-me seriamente e eu santinho da silva com as mos no mesmo
lugar.
 - Sr. Vasconcelos, o senhor gosta de harpa?
 - No senhor e nem de piano. Estendeu-me a mo.
 - Cad? Que adiantava negar. Peguei a gilete e entreguei-lhe.
 - Ora, Irmo Joo, era s uma giletezinha...
 - Est bem. Mas v acabar sua aula junto do quadro negro, de ps juntos
e braos cruzados. Quando sai de l, mudaram-me a carteira e eu fui
parar junto da janela.  Que pena a gente no poder ver a rua. S se se
trepasse na carteira. A folha da janela me  experimentaria uma ideia
genial. E foi mesmo. A gente colocava a folha meio dobrada e empurrava O
centro para frente. A janela dava um estouro gozadssimo. No  podia
usar a minha descoberta logo. Mas na primeira aula chata ia ter. J nem
contava mais os momentos em que caminhava para perto do quadro a guardar
a postura  do castigo. Parecia que aquele cantnho tornara-se
propriedade minha. E O diabo me convencendo a ser cada vez mais seu
amigo. Foi por isso talvez que Irmo Luiz  que tomava conta do Estudo e
do dormitrio dos maiores me avisou que queria Falar-me logo depois do
ch. O ch no passava de um caneco de mate e de trs bolachas  duronas
que se cassem no calo, matavam.
 - No recreio ou na banca, Irmo Luiz?
 - Logo que a gente entra na banca. Dito e obedecido. L estava eu
enfrente a sua mesa alta.
 - Pronto, Irmo. O senhor me chamou. Ele me olhava sorrindo. Porque
nunca se zangava e achava tudo na vida muito gozado. No deixava de ser
enrgico, mas se a  coisa tivesse graa, ele ria.

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  - Sabe por que o chamei, Zeca?
 - No tenho a menor ideia.
 - Garanto que tem! A eu fiz aquela cara de sonsice costumeira.
 - Se o senhor falar fico sabendo.
 - Vou direto ao assunto. Quem inventou a guerra das bolachas?
 - Por que seria eu, Irmo? Tambm levo culpa por tudo errado que
acontece.
 - Explico. Essa guerra apareceu h dois dias. Justamente uma semana
depois que voc veio interno. Fiz um ar espantado.
 - No havia antes?
 - Em absoluto, tenho certeza, Zeca. E voc vai fazer um favor. Estendeu
a mo para baixo reclamando o meu "tesouro." Pensei comigo. Que pena.
Era tima aquela  guerra. Aquela guerra que no possua aliados. Todos
eram inimigos. Na hora do ch cada aluno  no bolso do pijama para o
dormitrio. Irmo Luiz apagava a luz geral e ficava andando bem uns
quinze minutos at se certificar Que tudo estava em paz. Dirigia-se
silencioso como uma sombra para o seu pequeno quarto no fundo do
dormitrio. A estourava a guerra. Todo mundo entrava na parada. Era um
tal de bolacha voar pra  todo lado. A gente at trepava na cama pra
atirar o petardo com mais fora. O zunido era acompanhado por risadas
abafadas. Na primeira Noite, mal o Irmo reacendeu  a luz, j todo mundo
estava deitado em seu canto. A segunda noite ia no mesmo ritmo, quando
uma bolacha atingiu um caipira do interior Apelidado de Chico Ventosa.
Foi um berro s. Quando a luz apareceu o nariz de Chico Ventosa sangrava
como fonte. Precisou ser atendido na enfermaria. Irmo Luiz passou
impassvel. Observou  o mundo de bolachas espalhado pelo cho do
dormitrio. Voltou com Chico j tratado, apagou a luz e nada disse.

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 Agora ele estava ali me estudando. Fazendo a coisa bem feita como seu
costume. A mo reclamava insistentemente.
 - Vai me dar ou no, o que voc tem no bolso? Enfiei a mo no lugar
indicado e com grande pesar trouxe cinco petardos.
 - Cinco, Vasconcelos? Voc est imitando o milagre dos pes?
 - Eu s recebi trs. As outras eu negociei porque tem gente que no
gosta de guerrear. Colocou as bolachas em fila sobre a mesa. Ele olhou
pra mim e riu com toda  a simpatia.
 - So duras como pedra, no acha irmo?
 - Sem dvida. Mas o que quer que o colgio faa? Dar po-de-l pra
todos esses marmanjos?
 - Tem razo.
 - Pode ocupar o seu lugar. Levei um choque.
 - O senhor no vai fazer nada contra mim? Ele riu bondosamente.
 - No. Por que, Zeca?
 - No sei. Se fosse outro Irmo em seu lugar me tirava o "escalpo" ou
me cozinhava em banha fervendo.
 - Pois eu no. Foi uma ideia muito engraada. E quando deitei o Chico
Ventosa e fui pra minha rede ri que no podia mais. Pode ir. Eu vou ter
uma conversinha geral.  Quando me sentei, ele bateu palmas e pediu
ateno.
 - Senhores eu queria falar de uma coisa terrvel que est acontecendo.
No. No  sobre a guerra das bolachas.  algo mais srio e mais
impressionante. Fez sinal  para um aluno e ele se levantou.
 - Sr. Clvis, o senhor  homem de serto, no ? Clvis concordou.
Chamou outro.
 - Senhor Jos Arnbio, o senhor de onde ?
 - Do serto do Acari.

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 Olhou em volta analisando o espanto daquelas perguntas.
 - Que  do serto levante o brao. Quase todos eram de l e ergueram os
braos.
 - Alguns dos senhores j ouviu falar de seca? Quem sendo daquelas
bandas podia ignorar? Eu mesmo assistira h poucos meses os flagelados
invadindo a Vila Barreto  e devorando tudo. At os frutos verdes das
mangueiras. Bebendo a gua lodosa do pequeno lag e fedidos. Todos
ostentando ossos em vez de pele E garras sujas em lugar de dedos. A
Irmo Luiz foi tomado de uma emoo to grande que os seus olhos se
mantiveram  completamente molhados durante o tempo em que falou. E falou
sobre a seca, sobre toda a desgraada seca que varria os sertes do
Nordeste. Falou de coisas que ningum  ignorava. Falou de fome que ns
no conhecamos E de sede. Coisa que jamais passramos na vida. Foi
dando um encolhimento total na gente. Terminou segurando carinhosamente
as bolachas entre os dedos.
 - Isto que diverte aos senhores daria para matar a fome de muito
retirante. De muito faminto que os senhores do serto muito bem
conhecem. Tornou a colocar as  bolachas no antigo lugar.
 - O colgio no pode fornecer coisas mais finas que isto aos senhores.
E se os senhores no querem comer dessas bolachas  porque evidentemente
no tm fome. No  Usarei nenhum castigo nem tomarei nenhuma medida
estranha. S peo um favor. Existe um saco Subirmos darei cinco minutos
para os que quiserem colocar as bolachas no saco. Isso ser repetido
todas as noites. Essas bolachas vo ser destinadas aos flagelados.  Fez
uma pausa emocionadssimo. Por pouco mais minhas lgrimas desceriam.

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 Sua voz apareceu de novo to bondosa e to calma que arrasava ainda
mais com a gente.
 - S quero avisar mais uma coisa. S uma. Quem quiser continuar com a
guerra, poder. No haver nenhuma proibio. Ia terminar.
 - Por hoje  s. Saiu da classe atravessando a fila das carteiras com
os olhos baixos. E foi com os olhos baixos que ele entrou no corredor e
desapareceu na escurido  do colgio.

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 QUINTO CAPTULO

 TARZ, O FILHO DOS TELHADOS

 MUITO EMBORA quase no me sobrasse tempo para conversar com Ado ou
mesmo esperar a visita impossvel de Maurice, minha vida no colgio
interno era muito boa.  Se a gente cumprisse os horrios iguais, para
todos, no haveria nunca confuso. E ultimamente horas. E tudo
acontecera por um rasgo de honestidade e muito atrevimento. Irmo Luiz
que tomava conta do nosso dormitrio, apesar de no possuir o tipo se
gabava  de ser cearense de quatro costados. Falar no Cear se tornava o
assunto mximo. No intervalo, antes da ida para o Estudo, como quem no
queria nada me aproximei  dele. Sua mo dentro do bolso da batina
remexia o tero.
 - Que  Zca?
 - Nada, irmo.
 - Alguma novidade?
 - Hoje no. S uma vontadezinha de conversar com o senhor. Para
esclarecer. Esclarecer, no. Elucidar como diz o Irmo Ambrsio quando
est com vontade de falar  Difcil. Irmo Luiz j estava rindo. Tambm
desconfiava de que eu estivesse preparando uma d
 - Pois , seu Waldemar.
 - Cale a boca, Zca. Irmo Feliciano me contara que antes de receber as
ordens o seu nome era Waldemar. E como no existia ningum por perto eu
brincara. A pergunta  veio de sopeto.

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 - Se o senhor tivesse que nascer de novo preferia ser paraibano ou
cearense mesmo?
 - Ora essa! Que pergunta? Cear mesmo. Por qu?
 - Poi eu no. Se pudesse voltar a nascer eu no desejaria ser carioca e
sim cearense. S por uma questo de literatura. Irmo Luiz estava
interessado.
 - Por causa de literatura.?
 - Exatamente. Na gramtica literria tem uns trechos maravilhosos de
Jos de Alencar que me deixam loucos.
 - Precisa ver os seus romances.
 - O senhor prefere qual? O Guarani, As Minas de Prata ou Iracema?
 - Iracema  um poema, mas gosto mais de "O Guarani."
 - S cearense podia mesmo escrever um livro assim, no acha? Os
cariocas tem um Machado de Assis e outros que no me lembro.
 - Ora, Zca. Machado de Assis tambm  timo. So dois estilos
diferentes.
 - Eu sei. Mas Alencar escreve sobre a selva como ningum. Pena  que...
 - Pena de qu?
 - Eu bem que gostaria de ter uma oportunidade de ler Alencar.
 - Pois  to simples logo que aparea essa oportunidade voc aproveita.
 - No me deixam ter essa oportunidade.
 - Mas isso  um crime. Se voc tem essa curiosidade, coisa to rara nos
meninos de hoje, deviam at aplaudir.
 - Infelizmente...
 - Na sua casa?
 - L em casa  proibidssimo. No faz mal...
 - Escuta, Zca, por que essa conversa to comprida?
 - Talvez por uma razo. Irmo Luiz o senhor no acha que eu sou bom
aluno? Nunca perdi o primeiro lugar. Apenas em Matemtica sou fraco. Mas
no  por falta de  Estudo. Ou melhor, no adianta estudar porque eu no
gosto. No resto pode ver os meus boletin

139

  - E da?
 - Da eu queria fazer uma homenagem ao senhor e ao Cear. Ele ainda no
descobrira meu intento mas encontrava-se espantado.
 - Que histria de homenagem  essa, Zca?
 - A tal de oportunidade que ningum me d o senhor poderia me
proporcionar. Sabe o que , irmo, eu estou justamente com esses trs
livros. E queria pedir licena  Para usar o horrio da banca para ler os
bichos. Pegara-o de surpresa. Ele pensou um pouco
 - No sei, no.
 - Puxa, Irmo Luiz a gente querendo se ilustrar e o senhor faz como as
outras pessoas. Vivia intoxicado com o portugus brilhante que Irmo
Ambrsio nos ensinava.  Ainda assim no se decidia.
 - E as suas matrias?
 - O senhor pode conferir sempre as minhas notas, se achar que piorei,
pode cortar-me essa "oportunidade."
 - At a, muito bem. E se os outros alunos quiserem seguir o seu
exemplo?
 - No descobriro. Os livros esto encapados com o mesmo papel dos
livros de estudo.
 - Voc pensou em tudo, no? Deu uma risada. E ele rindo era quase uma
vitria.
 - E tem mais eu me mudarei para a ltima banca, bem longe dos outros.
 - Vou lhe dar uma resposta que  quase um sim. Entretanto preciso
conversar com o Irmo Feliciano a esse respeito.
 - Nem  preciso. Ele j sabe. Eu pedi os livros e ele Me conseguiu. * 
Depois de Alencar fui devorando mais coisas. Tudo que me caa na mo
engolia, mastigava, ruminava. Quando todo mundo, na maioria se dirigia
para a sala da  banca De m

140
 Vontade, bocejando e reclamando aquele tempo que no acabava nunca, eu
me deliciava. De dia, a histria se tornava diferente. No sei o que me
dera. Mas no podia  ficar embaixo com os outros alunos. Vivia
encarapitado em tudo que se pudesse subir. Pendu os forros e telhados.
No usava a escada do dormitrio. Dava a volta plos fundos do pteo,
Subia num paredo. Saltava para uma rea onde os alunos guardavam as
malas e chegava na frente dos outros. Muitas vezes levava pito.
 - Desa da, Vasconcelos. Obedecia para mais adiante descobrir um lugar
onde pudesse subir de novo.
 - Est louco, menino! Quer cair da e quebrar um brao? Minha mania era
to grande que juntada a outra, a de nadar, me criaram um apelido:
Tarz. Mas bom mesmo  era quando fugia a vista de qualquer vigilncia e
me danava para a torre. Atravessava o coro  oito a nove degraus, mas que
importava para Tarz dos Macacos? Tarz, o filho das selvas? Chegava
perto do sino. Sentava-me com as pernas para fora e ficava Vendo  a
vida. O sino se habituara a emudecer h muito tempo. Eu at j tinha
combinado que na primeira oportunidade amarraria um barbante grosso e
jogaria a corda Para  baixo. Quando fosse de noite algum dos alunos
maiores viria dar uma badalada  meia-noite. O diabo  que no
encontrara at o momento uma cordinha que fosse Resistente.  Porque no
mais o sino era fcil de mexer-se. J experimentara de leve e ele
obedecia. Que maravilha todo mundo dormindo e o sino comeando a badalar
Sozinho. Iam  jurar que era alma do outro mundo. No dia seguinte as
beatas viriam trazer velas para Santo Antnio. E Garrafinha de Busa,
ficaria um dia dentro da Igreja acalmando  sua loucura. A velhinha
ficava fula se a chamassem por esse nome. J acontecera que algum a
chamara de Garrafinha de

141

 Biusa dentro da igreja. E foi um escndalo. Ela se esquecia do local
sagrado e xingava a me do... Voltava a ver a paisagem e a pensar no
sino. , nunca poderia  fazer o que planejara. Porque quem puxasse o
sino, fugiria deixando a corda no lugar. Iriam  como daquela vez quando
eu era pequenininho e fiz uma cobra de meia para assustar na rua.
Apanhei como O diabo. E minha bunda ficou num estado de no poder
sentar,  sem resmungar. Bonito daquela altura ver tudo. Sentir-me como
um pssaro livre. Ficar quase do tamanho da torre grande da Matriz que
se encontrava na Praa Andr  Albuquerque. Tarcsio Era amigo do homem
que indicava navios com bandeirinhas naquela torre. Ele me prometera que
um dia subiramos l. Todavia minha torre se  tornava mais importante.
Porque ningum conseguia subir aqueles degraus com medo que desmoronasse
tudo. Sendo assim a torre era s minha e dos meus sonhos. At
arquitetara um plano que contaria A Tarcsio. Quando a gente quisesse ir
para a Legio Estrangeira e ficar amigo de Beau Geste e de seus irmos e
precisasse cometer  um crime. No havia lugar melhor. A gente roubava
ter da farmcia do Colgio. Enchia o leno e afogava o Irmo Diretor.
Arrastava ele escada acima, puxando o  seu corpo gordo e pesado com uma
corda. E de l de cima empurrava. O corpo viria estatelar-se no cho.
Seria um benefcio danado para os outros alunos que iriam  obter trs
dias de feriados. E a gente cometendo O crime podia embarcar para a
frica. Onde era mesmo? Em Marrocos ou no Senegal? Precisava esclarecer
essa dvida  perguntando a Fayolle. Longe os barcos velejavam pelas
guas do Pontengi. Pesadas alvarengas empurradas por grandes zingas se
arrastavam nos lugares mais rasos.  E os iates salineiros aportavam No
Cais da Tavares de Lira. Os navios trazendo gente que viajava sonhos
esperavam a mar crescer para ganhar a barra e sumir no  horizonte.
Vrias vezes fui levado  sala do diretor e levei caro, promessas de
castigo. Ameaaram de trancar a porta da

142
 Torre e eu ri por dentro. A fechadura estava to velha que nem
funcionava mais. Ficava afastado da minha tentao, maldizendo por
dentro.
 - Diabo de gente velha malvada! Que mal h na gente subir e ficar vendo
tanta coisa bonita? Se esses danados tem medo de uma simples torrezinha
como podero pensar  Em chegar no cu que  to alto? Quando aparecia o
esquecimento l voltava eu. S que com dentro. E Moiss at estranhava
Quando ficava muito tempo sem aparecer. Moiss era o nome do Sino
sempre mudo. Agora quem morria e se pelava de medo era Ado.  Ele que
tinha tanta deciso para Certas coisas se tornava um patife de primeira
em certas ocasies. Acontecia por vezes sentir uma grande saudade de
nadar. A  gua macia fazia uma falta danada a meu corpo. Quando estava
sozinho no dormitrio e olhava aquele tamanho Silencioso convidava
Ado.
 - Vamos nadar. E agitava os braos como se estivesse nadando no prprio
Rio Potengi. Ia e vinha pelo dormitrio caprichando nas braadas. Uma
vez eu no sabia  que Irmo Luiz se Encontrava no seu quarto e dera uma
mergulhada gostosa. Ia fazer duzentos me Deu uma risada To gostosa que
quase me encabulou.
 - Que  isso, Tarz?
 - Nada. Estava nadando um pouco. Ele se aproximou de mim e viu todo o
esprito de aventura estampado nos meus traos. Compreendeu o que se
passava.
 - No vai mais  praia aos domingos, Zeca?
 - No deixam. Estou de castigo.
 - Mas bem que voc gostaria, no? Balancei a cabea resignado.
 - E quem no gostaria?

143

  - Vamos dar um jeito nisso. Afinal voc  um bom rapaz. Um pouco
maluquinho, mas um bom corao. Comecei a implicar com as beatas. Toda a
hora dava uma espiada  na igreja e elas estavam l. Pareciam fazer parte
da igreja, das velas, das Via-Sacras, das  prpria igreja. As danadas
no deviam fazer nada na vida seno rezar. Possuam um cantinho prprio
do Lado esquerdo bem ao fundo. E na missa retardavam tudo porque  at
que chegassem a mesa da comunho perdiam duzentos milhes de minutos. S
o Padre Monte mesmo tinha Aquela pacincia de santo. Ora, menino que
machucava o p  no futebol no podia calar. E calando mesmo que fosse
um s p, deixava de entrar na igreja por se tornar Anti-esttico como
dizia Irmo Ambrsio. E para que  no se perdesse a missa diria quem
tinha p machucado assistia a missa no coro. Foi s machucar um p e
descobrir Uma coisa. Que o velho assoalho do coro deixava  vrios
buracos aparecer. Plos buracos a gente via a cabea coberta por
mantilhas, vus ou lenos das beatas. Entre Ver e agir no havia
distncia. Quando acontecia  eu ser o nico p-machucado do coro fazia a
reinao. Andando sem fazer barulho recolhia tudo que me aparecia.
Pedacinhos de madeiras, cascalhs Das velhas paredes  que esburacava mais
com as unhas. Pedaos de besouro, asas de barata, teias de aranha que eu
enrolava para fazer mais volume, palitos de fsforos Queimados, etc.
Quando vinha o ofertrio que elas se entregavam mais  piedade
ajoelhava-me perto dos buracos, despencava a colheita na cabea delas.
Era um resmungar que no acabava  Mais. Tudo mundo se virava para o lado
do "beatrio" estranhando as velhas se abanando, sacudindo os vus as
mantilhas. Nessa hora j voltara para o meu cantinho  Bem longe da
tentao. Fiz isso trs dias. No mais que isso. Irmo Luiz quando me
viu com a topada cercada de curativos, riu.

144

 - Posso ir para o coro. Irmo?
 - De agora em diante, no, Zca.
 - Quer dizer que estou dispensado da missa?
 - De jeito nenhum. Voc vai subir para a enfermaria, abrir a janela que
d para o interior da igreja e assistir a missa dali todos os dias at
curar essa topada.  Obedeci resignado. Daquela janela a gente ficava em
cima da mesa da comunho. Via tudo que  De olhos baixos e muito
contritos se encaminhando para a mesa da comunho. Bem que eu imaginei
se a gente passasse vela naquele lugar. Era cada trambolho de rolar.
Mas mudei de ideia. Afinal a Comunho era coisa muito sagrada. E mesmo
no meio deles estava o Irmo Feliciano que poderia se machucar. Jurei
que um dia me vingaria  daquelas beatas. No que planejasse chamar a
velhinha malcriada de Garrafinha de Biusa. Longe disso, que seria um
bruto escndalo. Mas Haveria de aparecer uma  maneira. Sempre a vida se
encarregava de que aparecesse uma maneira das coisas acontecerem. E como
tudo que se deseja acontece mesmo, um dia aconteceu. No era
propriamente dia e sim ao entardecer na hora em que elas ficavam mais
fanatisadas. A gente, depois das aulas, ia jogar futebol no stio novo
que os irmos compraram.  Ali pretendiam construir o novo colgio
Marista. Existiam j dois campos de futebol Um dos maiores e outro dos
menores. Meu negcio, estava escrito, no era futebol.  Meu mundo se
ampliava naquelas rvores enormes. Naqueles cajueiros magestosos, Nos
ps de pitomba, naquela selva dos meus sonhos. Tudo muito ao gosto de
meu Tarz  particular. Ficava descobrindo jeito de passar de um galho
para outro com uma Habilidade rara. Caminhar pelo cho era proibido.
Muitos alunos que tambm no jogavam,  tentaram me acompanhar. Logo
desistiram porque acompanhar Tarz dos Macacos No era sopa no. s
cinco horas Irmo Luiz dava o sinal apitando como s ele sabia fazer. A
gente voltava para o colgio. Podia pas-

145

O Vamos aquecer o ol
 sar por um trecho da descida pr Alecrim sem sapatos. E aquilo era
sublime. Todo mundo sujo, despenteado, suado. Quando chegvamos, amos
direto ao dormitrio e  J vestamos a cala do pijama. Descamos para o
banho. Como os banheiros eram somente seis  De pegapega. Sempre havia os
que gostavam de icar para o fim. Descobriram e dessa vez no fui eu, a
guerra das toalhas. No fui eu mas gostei muitssimo da ideia.  A gente
enrolava a toalha e dava uma chicotada nas costas nuas de algum
distrado. Era aquela correria para se vingar. Na verdade a brincadeira
no gerava nenhuma  Briga. Mas havia os que no gostavam. E um deles, o
Arnbio. Caboclo marrudo, de um muque respeitvel, criado derrubando
boi pela cauda no serto, em resumo, um  Preo duro. Ningum tinha
coragem de toalhar o Arnbio.
 - Quem se habilita?
 - T besta, nego!
 - Mas olhe s que convite. Est de costas pra gente. Sem camisa ele
fica mais forte. S enrolar a toalha e fupt. Que era uma tentao
incrvel, isso era. Ado  ainda me aconselhou medrosamente.
 - No v. Zez, ele mata voc.
 - Duvido. Ele est to certo que ningum vai mexer com ele, que ficar
paralisado de espanto. Quando vier atrs da gente, eu ganho o mundo.
Tenho certeza que corro  Mais do que ele.
 - Mesmo assim eu no me arriscava.
 - Vai ser gozado. Aproximei-me de fininho, enrolei a toalha bem durinha
e lapt chicoteei Arnbio. O monstro deu um pulo e cresceu. Ficou de
cinco metros. O seu  rosto inchou, o seu peito inchou. Jogou a toalha no
cho e voou pra cima de mim.
 - Aguenta, Ado. Desembalei na carreira pelo recreio e o Zebuzo
bufando atrs de mim. Dei um drible de costas e ele quase bateu contra a
parede. Foi uma risada  s. Aquilo serviu Para enfurecer mais Arnbio.
Atravessamos voando de novo o recreio e ele n

146
 Varei os arcos, entrei pela quarta srie, pulei a janela, ganhei o
corredor e ele fazendo tudo que eu fazia. Se me pegasse me amassava, me
esganava. Retornei ao  Recreio fiz a mesma coisa de incio, dei outro
drible e notava que ele se cansava, mas no d E ele j mais distanciado
ainda me perseguia. Corri para o lado das malas, saltei as grades,
grudei-me no teto e pulei para o paredo. Ele parou. Aquilo no podia
Fazer.
 - Eu te pego, desgraado. Fez meia volta e foi procurar a escadaria.
Saltei no cho e decidido a pegar mais distncia. Ele vinha bufando ao
meu encalo de novo.  S havia um jeito e iria arriscar. No meu
desespero pensei nas beatas, iriam morrer de susto Mal alcanara a porta
Arnbio j Ingressara no corredor. Ia ser um escndalo. Mas estava
disposto a vender caro a minha vida. Que me importava se vestia s uma
cala de pijama? Meti o corpo e penetrei  s carreiras na igreja.
Pensava que como sendo maior ele desistiria. Mas qual o que.
Atravessando entre filas dos bancos no me importei com mais nada. S
ouvi o  Berreiro das velhas.
 - Credo.
 - Que imoralidade!
 - Dois homens nus na igreja.
 -  um sacrilgio. Se era sacrilgio passar assim na igreja, pior foi
na rua. Todo mundo parando atarantado para espiar aqueles dois homens
seminus correndo pela  rua empoeirada. Esperei que ele se aproximasse de
mim, controlando o mais que podia a respi me pegar. Corri Por um beco
que dava na vendinha de seu Artur, onde uns maiores costumavam tomar uma
bicada de pinga, escondidos, nos dias de sada. Entrei como  um furaco
na venda E foi aquele espanto. De um salto atravessei o seu interior e
sai pela outra porta. Arnbio acabava de entrar tambm na venda e eu j
ganhara  a sada pela porta Dos fundos.

147

 "Corre que corre" que ele j est dando prego. Peguei o beco de volta e
ele vinha mais distanciado. Novamente o povo da rua parando para ver o
que era aquilo. Nem  Estava medindo as consequncias daquela maluquice
toda. Urgia retornar ao colgio. E a ni Dei um salto e ganhei o
interior do templo. O berreiro que se acalmara renasceu.
 - Que indecncia, meu Deus!
 - Os homens pelados de novo! Arrisquei um olho para o lado e divisei o
que queria. Meti o berro.
 - Garrafinha de Biusa! A velha xingou forte. Apanhou a sombrinha e
ficou no meio dos bancos interceptando a passagem de Arnbio. Desceu a
sombrinha nele que nem  podia se explicar. Que se arrumasse. Eu tinha
era que me esconder. Voltar para o recreio era cansao me pegava. Ouvi
Um rudo no corredor.  ele, meu Deus! S havia uma salvao, procurar a
sala de Fayolle. Segui o meu instinto. Mas qual o que, a sala  se
encontrava vazia, vazia. Retornei ao corredor e vi a escadaria dos
internos menores. Nessa hora a turma estava toda jantando. Tinha que
arriscar. Subi a escadaria  e me encostei na parede Por dentro. O
corao quase saa pela boca.
 - Pare, Zez seno voc me vomita.
 - S um pouquinho. Logo chega a hora do banho dele e ele desiste. E se
por acaso um dos irmos que dormiam tambm naquele dormitrio
abandonassem as oraes que  faziam em conjunto e viesse buscar algo que
esquecera? Nem pensar. Arnbio na certa perdera  minutos e retornaria ao
corredor e dele ao grande recreio. Meu corao Deu um salto. O danado
no me esquecera. Seguira as minhas passadas e agora bem devagar,  bem
de leve subia os degraus para pegar-me. Que fazer? No tinha outra sada
Seno aquela. Precisava tonte-lo de qualquer jeito para fugir. Enrolei
a toalha que  sempre trouxera co-

148
 Migo, enxuguei o suor do rosto e do corpo e senti medo. Medo com todas
as letras grandes. Em um segundo ele penetraria no dormitrio. Preparei
a toalha pronto  para O golpe. Era s enfiar a cabea e sentava a
toalhada. Encostei-me mais  parede e quando  abalou O prdio. Uma voz
grossa e tonitroante. Talvez o susto tivesse sido maior do que a
pancada. A minha frente na ltima luz da tarde, Irmo Estevam se
encontrava  de Olhos fagulhantes. No o Irmo Estevam de nariz pingoso
que comeava todas as aulas de religio como "Naquele tempo disse Jesus
aos seus Discpulos". E sim  o Irmo Estevam enorme, de mos de Cristo
do Corcovado, que se desse uma palmada deslocava a espinha da gente. O
irmo Estevam apelidado de Frankstein. Nem falou,  me pegou Pelo pescoo
e me suspendeu alto como se fosse uma folha. Nessa hora eu descobria que
para ser Tarz dos Macacos e lutar contra o Gorila Kerchak ainda
faltava muito. Fiquei tremendo, gelado, suando frio, encostado l no
alto sem poder nem mexer com as pernas que se achavam comprimidas contra
o seu peito imenso.  Ele foi me deslisando Como se eu fosse um
lagartixo de coqueiro da praia. Sem me soltar perguntou.
 - Que significa isso seu idiota? Cad voz para responder? Soltou uma
das mos e me ameaou com um tabefe. Me puxou at o ltimo degrau da
escadaria e indicou  para baixo.
 - Eu devia era jogar voc daqui de cima. Sem me soltar foi se
acalmando.
 - Vamos, o que significa isso? Com voz de galo que perde o canto,
engasgando-se, expliquei rapidamente a histria. Que Arnbio me
perseguira. Que me escondera  bem ali para escapar. Que confundira A sua
cabea com a de Arnbio.
 - Muito bem. E agora? Fiquei meio desanimado.
 - Agora eu acho que o senhor deveria me matar.
 - Matar? Isso  o que voc pensa, menino. Matar ainda seria pouco perto
do que espera voc.

149

 - E se eu lhe pedisse perdo realmente arrependido?
 - Pra voc isso no adianta. Vai pagar por essa famazinha marota que
tem de ser cumpadre do capeta. Olhou-me ainda muito bravo. Seus olhos
claros se assemelhavam  a fundos de garrafa quebrada.
 - Imagine para comear o que dir ao Irmo Diretor. O que um maior
fazia num dormitrio de menores? Hum! Perdi a fala de novo. E algo de
mais impressionante me  acusava na conscincia. Isso no era nada. E o
que explicar quando as beatas contassem a corr do padroeiro Santo
Antnio? Pedi por dentro: "Nossa Senhora de Lourdes, valei-me! Prometo
que... Que fazer, meu Deus? Que embrulhada dos diabos! Que adiantava
prometer  a Nossa Senhora. Possivelmente No acreditava mais no que
jurava, porque sempre na primeira oportunidade criava uma confuso. No
meu desespero pensei em invocar  um santo novo que nada soubesse Do meu
passado. E o nico que me apareceu foi So Geraldo. E implorei com a
maior humildade do mundo que me ajudasse.
 - Ento no diz nada?
 - Tudo que disser no vai adiantar nada. Porque no tenho nenhuma
razo. Sou culpado de tudo.
 - Ainda bem que tem um pouco de honestidade. Vamos. Descemos a
escadaria juntos. Depois fui caminhando a sua frente. O silncio fazia
ampliar o chiado dos nossos  ps. Uma vozinha apareceu l do infinito.
 - Zez, voc ainda est vivo?
 - E voc?
 - Estou ressuscitando.
 - Ainda bem. Aguente firme que a lenhada vai ser Dura. *  * Irmo Luiz
nos levara a ambos. Trancou o dormitrio para que no fosse alvo de
curiosidade. Sentou Arnbio numa cama e eu noutra. Caminhava preocupado
antes de comear. Felizmente ele foi rpido.

150

 - Afinal de quem foi a culpa? Sua, Ambio? Ele fez uma voz de tanto
medo que nem parecia o boizo que era e sim uma criancinha de cinco
anos.
 - Eu estava quieto no meu canto esperando a vez do meu banho.
 - Isso  verdade, Zca?
 -  sim, Irmo Luiz. Ele no tem culpa de nada. Eu que provoquei tudo.
J que estava perdido melhor era continuar sendo honesto. Mesmo porque
se ele no fosse  castgado, desistiria de me pegar depois.
 - Ento voc assume toda a culpa? Toda a responsabilidade?
 - Assumo.
 - Ento Arnbio voc est dispensado. Antes de ir no quero inimigos no
meu dormitrio. Apertem as mos. Apertamos e olhei bem dentro dos olhos
dele para ver se  ele ainda ajustaria as contas comigo. E o que vi at
me emocionou. Ele tinha uma expresso t
 - Arnbio, quando sair tranque a porta do dormitrio e jogue a chave
por baixo. No quero ser interrompido por ningum. Agora Irmo Luiz
caminhava pra l e pra  c me observando. At que parou.
 - Zca, o que  que se passa nessa sua cabea para inventar tanta coisa
maluca? Estava chocado. No ia chorar nem nada, mas encontrava-me j
perto disso.
 - No sei, Irmo. A coisa vem sem esperar e quando vejo j fiz ou estou
fazendo. E se estou fazendo no sei mais parar. S quando tudo ficou
completamente complicado.
 - De fato. Olhei Irmo Luiz meio splice.
 - Irmo Estevam no vai me perdoar, no ? Ele usou a nossa expresso
costumeira.
 - "Frankstein" est furioso. Quer ver o seu sangue. O que faro com
voc nem adianta perguntar. Esto em reu-

151

 niao na sala do diretor. Agora me conte tudo como foi. Sem omitir
nenhum detalhe. Sentara-se numa cama a minha frente. E eu desembuchei. 
medida que contava tudo  ele comeou a rir. Quando chegou no pedao das
beatas ele ria tanto que balanava A cama.  poderiam tambm achar. Na
certa o meu novo protetor So Geraldo estava me dando Uma mo. Quando
acabei ele ainda balanava a cabea com os olhos cheios dgua de  tanto
rir.
 - Olhe Zca, o que voc fez foi to doido, to varrido, to impossvel
de acontecer que se fosse comigo at que o perdoava. Isto , diminuiria
a metade da sua pena.
 - E agora, Irmo Luiz? Ele puxou o relgio do bolso e ditou o comeo da
minha sentena.
 - Agora vamos l.
 - No posso nem tomar um banho. Estou todo sujo, Irmo Luiz.
 - Nem pensar. Hoje voc vai dormir assim mesmo. Isso se tiver muita
sorte. Porque a meu ver voc vai passar a noite de castigo, de braos
cruzados contra uma coluna.  Ainda caminhando no dormitrio perguntei.
 - O senhor acha que vou ser expulso?
 - No sei se h agravante para tanto. Mas que voc chegou bem perto,
chegou. E pela segunda vez na vida eu enfrentei aquela funesta sala de
mesas colocadas em  crculo.
 - Braos cruzados! Pronto, braos cruzados.
 - Quando lhe perguntar alguma coisa olhe para mim. Quando acabar de dar
a resposta mire o quadro negro. Pronto, l estava minha vista pregada no
maior quadro negro  do colgio, olhando o seu preto riscado de giz. E em
certas partes mal apagado, deixando  ao

152
 Irmo Luiz. S que dessa vez ningum estava achando graa. Resultado
final: no seria expulso nem suspenso mas...
 - Ter que fazer banca durante todos os recreios.
 - Ficar de braos cruzados durante todos os estudos noturnos.
 - Finda a hora da banca permanecer por mais duas horas na mesma
posio: de p e braos cruzados.
 - E para finalizar ter que escrever mil linhas. Engoli em seco. Mil
linhas? Melhor seria escrever mesmo um livro. Um romance. Sei l. Uma
porcaria qualquer. Mas  Mil linhas, uma por uma repetindo a mesma frase,
seria passar alm do Purgatrio. E ainda t A minha famlia? Contudo o
massacre no terminara ainda. Cabia agora a escolha da desgraada frase.
E ficou decidido que a frase seria da minha prpria autoria.  Raciocinei
rpido. Mas a sentena exigia que usasse algo que no gostava para dar
maior volume ao castigo.
 - Vamos, Sr. Vasconcelos, a frase? Ento pensei numa coisa que gostava
muito desde pequenino. Diria que detestava e ficaria escrevendo pelo
menos uma coisa que  amasse.
 - A FRASE!
 - "Ouviram do Ipiranga as margens plcidas"... Foi um desapontamento
geral. O Irmo Diretor ergueu As sombrancelhas formando aquele arco
negro. m arco- ris de luto e de decepo.
 - Esse moo  completamente maluco. Detestar o prprio Hino Nacional?
Com os dedos presos sobre os braos cruzados fazia figa pedindo perdo
ao meu hino predileto.
 - Muito bem. O senhor escolheu mas no fica nisso s. Irmo Joaquim,
por favor escreva no quadro negro. Irmo Joaquim dirigiu-se at l e
apanhou o giz.
 - Escreva, por favor, Irmo. Cresceu de dignidade e falou pausadamente.

153

  - Ouviram do Ipiranga as margens plcidas que eu sou um aluno ingrato
e irresponsvel. A eu gemi. Ado gemeu tambm. O tiro sara pela
culatra. Se eu tivesse  escolhido qualquer outra frase no teria aquelas
consequncias. Quando iria acabar com aquele "Ouviram do Ipiranga as
margens plcidas que eu sou um aluno ingrato e irresponsvel?"  meu So
Jesus do Carneirinho nas costas! Pensei nas pilhas e pilhas de folhas
De papel-almao e nos dedos calejados de escrever minha sentena
desgraada. Enfim tinha que passar. Dez dias, vinte dias?
 - Coragem, Zez. Foi melhor do que se tivesse sido expulso.
 - Eu sei. E no vou amolecer agora. Tarz dos Macacos acabar vencendo.
Quando voc sentir que eu estou fraquejando, lembre-se de me lembrar:
acender o sol. Entretanto  um grande desnimo me achatava. Tinha que
acender muito sol de dia e muita lua de noi adivinhar o meu pensamento.
 - Nada de banho, Zca. Vai  comer muito o que vocs chamam F.T.D.
(Feijo todo dia) para aguentar o rojo. Porque dessa vez, Zca, as
coisas esto pretas. Mais  Ainda por suas amadas beatas que fizeram a
maior intriga da cidade. Assistiu a minha angsti e pedi para ir ao
banheiro.
 - Pode ir. Faa tudo que precisar porque depois s perto da meia noite.
Deu-me um tapa nas costas, encorajando-me.
 - Pobre Zca. Dessa vez no h santo que salve voc. Nem o Irmo
Feliciano vai poder interceder ou fazer um daqueles seus milagres
conhecidos. Fiquei as duas horas  e banca na mesma posio. Depois o
salo estava quase todo apagado. S as duas luzes pert

154
 Os olhos querendo fechar. O corpo indo pra frente e voltando  posio
inicial. A noite se adiantava e eu me lembrava do mutismo de Moiss. Bem
que ele poderia  dar Uma badalada amiga para que acordasse todo mundo.
A aquela gente sem corao ia ver como Turvos se tornavam os meus olhos
quando percebi junto do quadro negro Maurice a me fitar com um sorriso
de apreenso.
 - Est vendo, Maurice. Nem posso abrir os braos para abra-lo.
 - No faz mal. Que fizeram com voc, Monpti?
 - Coisas de gente grande sem corao. A gente faz uma coisinha de nada
e leva um mundo de castigo.
 - Coragem que isso passa. A primeira noite sempre  a pior. Depois voc
se acostuma aos poucos.
 - Voc trabalhou muito?
 - Bastante.
 - Sabe que se demorar mais tempo eu vou cair de cansao?
 - Aguente as consequncias. Nunca reclamar daquilo que voc mesmo
procurou. Firme. Olhou o relgio de ouro to lindo. Aquea o seu sol.
No foi isso que voc me  contou? Pois aquea o seu sol que s faltam
dois minutos. Irmo Feliciano veio me buscar. N Chuch. Descruzei os
braos e parecia que eles estavam viciados querendo voltar  posio
anterior. Sorri para o quadro negro e falei baixinho com Maurice.
 - Boa noite.
 - Tome, Chuch.
 - O que Fayolle?
 - Um copo de guaran bem gelado que eu trouxe Voc deve estar com sede.

155

 Nem enxergava direito o copo entre seus dedos. Bebi tudo quase de uma
vez.
 - Vamos, Chueh, que voc j est sonhando. J estava sonhando em p.
 - Sabe, Fayolle?
 - O que, meu filho.
 - Na outra encarnao eu vou querer nascer um boto. Qualquer um. Mesmo
que seja um boto de cueca.  melhor do que ser gente e sofrer pra
burro...

 Fim da segunda parte.

 TERCEIRA PARTE

 O MEU SAPO CURURU

156

 PRIMEIRO CAPTULO

157 - 158

 A CASA NOVA, A GARAGEM E DONA SEVRUBA

 PASSOU A raiva, Zez?
 - No sei, Ado.
 - No minta pra mim que eu descubro a verdade, Zez.
 - Est quase passando. Daqui a pouco eu esqueo. Senti que Ado
suspirou aliviado.
 - Puxa! Voc  duro de roer. Afinal morar num casaro desses d pra
perdoar qualquer erro de qualquer pai. Na realidade eu me encontrava
fora de mim de alegria.  As frias tinham acabado de chegar e sara do
colgio para uma nova casa. Casona. Aquilo sim brancas e vermelhas que
ficaram na antiga residncia. No sei se foram vendidas ou dadas. O
certo  que elas No foram dignas da nova casa. Na frente, um terrao
que no acabava mais e que circundava tambm a parte da esquerda. Vidro
por todo lado. Na frente a balaustrada de Petrpolis. L embaixo, um Mar
to grande que  cabia todos os oceanos do mundo juntos. De cima  que se
podia ver bem o tamanho do bruto. E como se no bastasse isso, tinha
ainda um grande quintal todo cimentado,  bom de correr a vida inteira.
Ganhara um quarto meu todo novo tambm. Cama maior e sem Cabeceira.
Armrio brilhando com cheiro de madeira moa. S uma coisa faltava  no
ambiente. Minha velha poltrona Orozimba. Algum a herdara. Em seu lugar
estava uma Outra de ramagens vermelhas muito chie e elegante. Tocava
experimentar tudo.  Bunda na cama, bunda pulando na cadeira. Tudo
gostoso e macio. Comentei para Ado.

159

  - Foi bom mesmo a gente no ter voltado para aquela casa. Referia-me
ao episdio da gatinha.
 - Quem sabe se o seu pai no pensou o que voc est pensando? Fiquei
meio coufuso.
 - No creio no. Eu sou muito sem importncia. Sou uma grande porcaria.
Ningum ia se incomodar comigo.
 - Quem sabe? O corao humano tem surpresas sempre.
 - No foi no, Ado. Mas em todo caso morar aqui  uma maravilha. E
toca a correr para ver tudo, descobrir tudo. Acostumar com tudo. O que
me deixava mais louco  era o lado direito da casa. Uma mangueira
soberba, cheia de galhos tarznicos e convidativos urgia descobrir como
seriam os vizinhos. Era muito importante. Entre a casa e a mangueira que
tinha um jeito enorme de se chamar dona Gustava existia um enorme
galpo. Olhava encantado para o seu teto. Ali podia armar pelo menos
dois trapzios. Tudo se transformava numa festa. E festa maior ainda
para o cachorrinho Tuiu  que com o tempo consertara a espinha e podia
correr como qualquer outro cachorrinho, Que nunca fora atropelado. Tuiu
grudava-se em meus calcanhares como se quisesse  recuperar o tempo
perdido no meu internamento. Dormia deitadinho na porta do meu Quarto e
mal o dia clareava arranhava a porta com muita delicadeza. Se no estava
junto a mim bastava assobiar e l vinha ele com a caudinha branca
balanando.
 - Vamos ver a garagem, Tuiu. Corramos para l, ele se embaraando em
minhas pernas.
 - Que bruta, no? Dava para dez carros ou mais. Quem morou antes nessa
casa devia ser rico pra burro.
 - Que janelo. Abri-a e pulei. Sentei-me com as pernas de fora a anali-

160
 Sar o resto do quintal todo separado de muro. Tuiu ganiu desesperado e
ficou em p tentando me alcanar com a patinha. Que mundo se desenrolava
a meus olhos. Quanta  rvore. Quanto cajueiro. Tinha ainda mais
coqueiros naquela banda. Nem sabia para onde i E pelo menos trs meses
para reinar. A areia do quintaizo era branca e macia como a areia da
praia. Boa para a gente imaginar ali um segundo deserto do Saara. Mas
Deserto tinha cajueiro? Acho que no. Ento o meu seria diferente. Ia
ter. Desci para o interior da garagem e fiquei examinando umas estantes
grandes, cheias de  coisas velhas que ainda poderiam prestar. Na certa
como a gente deixara as Galinhas, os antigos moradores abandonaram todo
aquele mundo de coisas. E o que me  fascinava mais era um amontoado de
cmaras de ar naquelas prateleiras. E num Canto uma gorda mquina de
encher pneus. Ser que funciona? Soprei a muita poeira  que havia nela,
coloquei-a de p entre os meus joelhos. Suspendi a sua cabea e Ela se
elevou. Era cabea ou braos? Devia ser o segundo. Estava toda azeitada.
Dei um empurro para baixo, ela obedeceu, fez um rudo e soprou a poeira
do cho. Exultei.
 - Funciona, Tuiu. Agora vamos pegar um pneu e experimentar se enche.
Ajustei a cmara de ar e comecei a suspender os braos da mquina de
encher. O pneu foi engordando,  engordando e ficou duro para que o
enchesse totalmente.
 - Que exerccio pai dgua! Sentei-me no cho para descansar e observar
satisfeito a bomba encostada na parede.
 - De agora em dante, vou encher todos os dias, todos esses pneus
velhos. Nem quero sair mais aos domingos. Vou ficar enchendo e
desenchendo essa coisada toda. Vou  Criar cada muque que nem Tarz vai
acreditar. Ado me perguntou. J achou nome para a gara
 - Vamos pensar um pouco.  gente muito importante para ir dando um nome
qualquer.

161

  - Para a garagem, no sei, Zez. Mas se voc deixar eu baizo a bomba.
Estava curioso. Nunca Ado me pedira tal coisa.
 - Est bem. Dou licena. Ado falou todo encabulado.
 - Dona Celeste.
 - Puxa, Ado. Que beleza. Se ela no era, j  e ningum tira mais o
nome de Dona Celeste. Tuiu se deitara aos meus ps e ouvia com
naturalidade a minha conversa  com o meu sapo. Olhei prolongadamente a
garagem. Sabia que tinha que escolher um nome bem B e uma elegncia
inconfundveis. A cabea fez tuim! E pronto, j descobrira. Iria
submeter   aprovao dele.
 - Ela no parece uma empregadona gorda e simptica?
 - Parece, Zez.
 - E no tem jeito de quem usa um avental de xadrez vermelho e branco?
 - Tem.
 - Pois ento vai se chamar Dona Maneca.
 - Uma lindeza. Demos os parabns um para o outro.
 - Sabe, Ado. Eu acho que ns somos os maiores botadores de nome do
mundo.
 - Tambm acho. *   Nas primeiras refeies a coisa ficou meio
embaraada. Eu ainda no falava com o meu pai, mas a gente j se olhava.
Ado, nervosamente me cutucava por  dentro. T Indo bem, Zez. T indo
bem. A ele olhou pra travessa de arroz e olhou pra mim. Eu olhei a
travessa de arroz e olhei pra ele. A eu peguei a travessa  de arroz e
levantei pra ele. A ele suspendeu A mo e segurou a travessa de arroz.
Ado exultara. T indo bem, Zez. T indo bem. Sabia que no comeo a
coisa  custaria um pouco. Que existia muito a e muito arroz entre ns,
mas acabava passando.

162
 E passou tanto que no primeiro domingo, ele bateu na porta do meu
quarto e acendeu a luz.
 - Quer ir  missa da madrugada?
 - Quero.
 - Ento ande ligeiro que temos quinze minutos para chegar na Catedral.
Voei. Desci e abri a porta de Dona Maneca para sair o Market que era o
carro mais bonito  de Natal. A cidade estava escura. As luzes se
encontravam acesas ainda. Ele me falou.
 - Voc no precisa comungar se no quiser. Olhei-o meio de lado e ele
firmava a vista para a frente como se no notasse.
 - Eu no posso. No me confessei.
 - Est bem. Continuou dirigindo em silncio. Ado me confessou.
 - Sabe, Zez. Eu at que estou comeando a gostar dele. Afinal...
 - J sei. Afinal ns somos dois bobes. Nos primeiros momentos foi a
coisa mais dura que podia acontecer. Mas ele tinha que aprender.
 - Olhe Tulu. No tenha medo. O cachorrinho em cima do muro queria
tentar e tremia todo. Tentava acalm-lo.
 - No tenha medo que voc no cai. Isso  mais prprio de gato, mas com
jeito voc tambm caminhar. Tulu deixava cair fora da boca a lngua
vermelha e seus olhos  se dirigiam a mim amedrontadamente.
 - No seja bobo. No v que embaixo s tem areia macia. Ningum se
machuca se cair. Venha. Sentei-me no muro me distanciando um metro.
 - Venha, querido. Vamos. Abri o brao para apar-lo. Ele gemeu baixinho
e ficou em p.
 - Venha com calma. No adianta correr, assim voc no aprende. Um,
dois. Um, dois.

163

 Obedeceu tremendo tanto que eu estava pronto para segur-lo se as
patinhas falhassem no muro. Ele veio, veio e o aparei com amor.
 - Isso, Tulu. Voc  o cachorro mais corajoso do mundo. Precisamos
tentar outra vez. Vamos. Arrastei meu corpo sentado por mais dois metros
e Tulu observava tudo.
 - Agora. Repita como j fez. Devagar e com calma. S o primeiro mpeto
o amedrontava. Mas bastava erguer o corpo e a vontade de se aproximar de
mim se tornava grande.
 - Vamos ficar mais longe um do outro. Afastei-me mais de trs metros.
 - Um, dois, um, dois. Fora muito mais fcil dessa vez. Em menos de duas
horas, o cozinho j me acompanhava. No era mais preciso ficar sentado,
chamando-o. Caminhava  de p a sua frente, Lentamente. Virava-me e Tulu
se encontrava cheirando os meus calca
 - Onde j se viu uma coisa dessas. Cachorro andar por cima de muro.
Soltei uma gargalhada. Pulei no cho e peguei Tulu nos braos.
 - Agora, descance um pouco que daqui a pouco vamos praticar mais.
Aliviado ele correu pelo quintal e foi regar uma ramada de maracuj que
se enroscava num p de  caju.
 - Logo, logo, ele vai at correr no muro. No comeo at que desanimei,
porque ele tremia muito. Como j quebrou a espinha pensei que ele nunca
teria equilbrio.  Dadada me olhava sorrindo.
 - O que voc tem  miolo mole mesmo. S da sua cabea fazer cachorro
andar pelo muro que nem gato. Sentei-me num monte de telhas.
 - Dadada, quem  o vizinho da esquerda?
 -  s um casal sozinho. Disseram que tem uma filha que estuda no Rio e
que vai chegar nas outras frias.

164

 - E essa mulher que mora do outro lado?
 - Ih. Essa  uma inglesa braba pra burro. O nome dela  Dona Sevruba.
- Como ?
 -  um nome muito difcil. A empregada no sabe chamar direito e fala
Sevruba. Dei uma gargalhada.
 - Isso no  nome de gente. Mas que  gozado . Dadada me avisou.
 - No v muito pr lado dela. Ela no deixa nem uma empregada comer uma
fruta do seu quintal. Tem um cime danado. Sorri e perguntei de sopeto.
 - Voc gosta de goiaba, Dadada? Goiaba vermelha como sangue?
 -  das que gosto mais.
 - Ento, espere. Levantei umas telhas e mostrei mais de meia dzia de
goiabas.
 - Prove como so gostosas. Ela deu uma dentada e se deliciou.
 - Como  que voc arranjou isso? Aqui no quintal no tem goiabeira.
 - Da casa de Dona Sevruba.
 - Ela lhe deu? Arregalou os olhos ao perguntar.
 - Deu coisa nenhuma. Olhe que todas elas tm um buraquinho. Dadada
examinou umas duas. Estava encafifada com os furos. Cada goiaba possua
um.
 -  buraco de bicho?
 - Nada.  furo de prego. Cada vez entendia menos. Expliquei logo.
 - Eu peguei uma ripa comprida daquelas da sala do POO. Enfiei um prego
bem seguro numa das pontas. Subo no muro de l e quando no tem ningum
por perto, com o  Prego derrubo as goiabas no cho. Depois finco as
goiabas io mesmo prego e puxo com cuidado.

165

  - No disse que voc tem miolo mole!
 - Quando quiser goiaba  s me pedir. Ou ento procure nesse
esconderijo. Mas j sabe: segredo. Era uma recomendao desnecessria.
Dadada se afastou ainda se  deliciando com os frutos e eu chamei Tuiu
para continuar as lies.
 - Aprenda logo, seu bobo. Voc ser como cachorro amestrado de circo.
Circo. Circo. Circo. Os circos me fascinavam. J tinha preparado dois
trapzios no galpo.  Fazia misrias nele. Tuiu ficava acompanhando
tudo. Depois que virara Equilibrista do muro n Subia numa mesa e
arrojava-me no ar. Ficava de cabea pra baixo. Pendurava-me na ponta dos
ps. Ficava preso plos joelhos, soltava o corpo e o aparava na ponta
Dos ps. A primeira vez que executara isso ficara gelado. Olhava os
ladrilhos limpinhos no cho e tremia. Se falhasse rebentava a cabea
neles. Mas precisava tentar.  Se no circo tudo que era trapezista fazia,
porque haveria de errar? Depois foi sopa. S doa um pouco o peito do p
contra as cordas. At que me acostumasse fiquei  Cheio de verges. O
trapzio virara sonho. Subia em cima da mesa com o corpo vestido com uma
malha colante e cumprimentava o pblico. Ouvia o domador embaixo falando
com aquele cone Na boca. Anunciando o meu nmero.
 - Agora senhores e senhoras, Caldeu, o homem mais forte do mundo ir
executar o seu nmero arriscado. Jogava meu corpo no espao e via o teto
do circo aproximar-se  de um lado e do outro conforme o jogo do
trapzio. As palmas estrugiam. Descia do meu nm do meu rosto e eu o
acariciava.
 - Pena voc no fazer isso, Tuiu. Mas se  difcil pra mim, quanto mais
para um cachorrinho que j teve a espinha quebrada por um automvel. Mas
no faz mal. Quando  Voc estiver bem seguro, a gente vai andar todo o
quintal plos muros. Andar no cho  p

166
 S quando descansava bem  que ouvia as reclamaes de Ado.
 - Fiquei com o estmago todo embrulhado.
 - Que exagero, Ado.
 - Exagero porque no  voc que fica no seu corao. Quando voc faz
essas evolues o ambiente fica quente e apertado. Um dia voc me mata
sem sentir.
 - Puxa, Ado. Voc sempre disse que queria que eu fosse corajoso. Agora
o medroso  voc.
 - Claro que eu quero que voc vena qualquer medo, mas no precisa
exagerar, t? Ficava possudo de uma pena danada e abria bem minha
camisa para que penetrasse  mais ar e Ado melhorasse Logo. * * * Se
algum dia desistisse de viajar para a selva, de ganhar todos os
campeonatos mundiais de natao como Johnny Weissmuller, de me tornar
Caldeu o maior  trapezista Do universo, bem que poderia abraar uma
outra profisso: A espionagem. Dava a vida para isso. Agora mesmo minha
vtima constante se encarnara em Dona  Sevruba. Conhecia todos os seus
passos. Todos os seus horrios. Desde A hora em que percorria o jardim,
molhando as flores com a mangueira at que vinha contar  os frutos que
amadureciam. Montava num galho folhudo de Dona Gustava e ficava
quietinho sem fazer um s movimento. Com os seus olhos muito azuis e o
rosto riscado  como um mapa orogrfico, Ela franzia as sobrancelhas e
observava um certo mamo que crescia assustadoramente. Devia contar nos
dedos os dias que o fruto ficaria  de vez. E eu tambm. Saa Satisfeita
sempre seguida por um cachorro policial, deixando esvoaar uns robes
transparentes e amarelados e por vezes apertando um  coquinho magro em
cima da cabea Onde os cabelos esticados tanto poderiam ser louros como
avermelhados. Diziam que o cachorro era muito bravo e plos latidos que
soltava a noite parecia confirm-lo. Mas eu gostavadele. Se me
pertencesse iria cham-lo de Rin-Tiniin e no de Leo. Muitas vezes ele
me descobrira encara-

167
 Pitado no muro e eu o chamava baixinho, dando-lhe pedaos de po ou
pastel. A gente fazia amizade. Trs dias se passaram e eu nos galhos de
Dona Gustava, Leo  no encalo de Dona Sevruba e Dona Sevruba de olho
no mamo que principiava a raiar amarelos
 -  hoje que ela arranca o bicho. Mas no foi. Esperei o outro dia
impacientemente.
 - Hoje no pode passar sem que ela o apanhe. No apanhou.
 - Se demorar at amanh, vai se arrepender. Dona Sevruba olhou o lindo
fruto. Calculou. Analisou e ficou convencida que aguentaria mais um dia.
Mal sabia a pobre  que dois olhos selvagens mediam todos os seus Passos.
Que Tarz dos macacos, implacvel na dar uma volta na balaustrada
acompanhando os outros no passeio que raramente faziam. Desculpei-me que
ia ler um pouco e depois dormir. Tranquei-me no quarto e fiquei  
escuta de todos os movimentos na casa. Estavam custando a voltar. E
quando retornaram, levaram um mundo de tempo para usar o banheiro.
Contava cada abertura  da porta e cada fechada. Depois calculava as
luzes apagando-se em cada quarto. Agora toca escutar o rangido da porta
do quarto de Dadada, perto Da garagem. Como  se demorava. Estava na
certa conversando com a empregada de Dona Sevruba. Cus, minha excurso
 selva iria sair l pelas onze horas. Fiquei rolando Na cama,  to
excitado, que nem temia adormecer. Hoje, no. Urgia agir porque aquela
era a ltima noite do mamo no p, de qualquer forma. At que o mundo
todo adormeceu.
 - Voc me acompanha hoje, Tarz?
 - No. Hoje a tarefa  muito difcil e cedo o meu lugar de Tarz a
voc. Agradeci e procurei a minha tanga no fundo da gaveta. Tirei o
cinto e amarrei a bela tanga,  branquinha e minscula. O pano encurtado
cobria s um pouquinho da parte Da frente. A pa

168
 Podia fazer aquilo tudo sem acender uma luz. Minha vista se habituara 
escurido.
 - E a faca? Remexi na mesinha de cabeceira e ela estava rente ao fundo.
Enfiei-a na cintura e experimentei se se encontrava firme.
 - Agora, Zez, conter a respirao, abrir a janela sem fazer rudo. J
ia para a minha expedio quando me lembrei de uma coisa. Voltei at a
porta do meu quarto,  entreabri-a e alisei Tuiu que dormia num
tapetinho.
 - No faa barulho por nada desse mundo. Eu vou sair. Alisei seu plo e
ele com sono abanou apenas o rabo. Na sua comodidade, ele era homem pra
tudo durante o dia,  Mas de noite... Tomada aquela precauo, retornava
 janela. O trinco bem azeitado girou  A noite sem vento, morna e
gostosa, no oferecia perigo. Olhei para o cu to negro que se
tranformava numa Mangueira imensa onde todos os galhos seguravam
estrelas  brilhantes. Deslizei macio para o galpo. Os trapzios dormiam
a sono solto. Prendia respirao e recomendava a Ado que no se
sobressaltasse porque no existia  o menor perigo. Ergui o meu corpo
procurando o galho de Dona Gustava que ultrapassava o muro. Fiquei
escutando algum tempo e verificando a segurana. Talvez Leo  sentisse o
meu Cheiro e aparecesse. Qual o que. S o silncio da noite que dormia.
Desci no muro. Sentei-me e escorreguei para o quintal vizinho. Dali ao
p de  mamo foi um segundo. Como era desagradvel subir num p de
mamo. Pior do que no coqueiro. Exigia um cuidado extremo porque
qualquer arranhadura deixava escorrer  um leite que queimava. Pronto.
Fiquei torcendo o mamo com cuidado. Era maior do que pensara. Teria que
torc-lo e segur-lo. Se casse no solo fazia um barulho  dos diabos.
Desloquei O fruto e com esforo tive que descer forando mais as pernas
e me amparando com uma s mo no Mamoeiro.

169

 J em terreno seguro meu corao disparou. No de medo mas de alegria.
Bastava colocar o mamo equilibrado no muro, erguer meu corpo e saltar
para o terreno da  Minha casa. Tudo feito. Segurei o mamo morno contra
o peito e desci para o lado da garagem.  Sombra. Bem no fundo, joguei o
mamo na areia macia. Segurei um galho de um cajueiro e saltei. O velho
galinheiro cheio de caixotes imprestveis, e de outras coisas  que no
se usavam mais iria abrigar o meu tesouro. Aquela era a mina de
Mo-de-Ferro. Mas longnqua E menos perigosa. A mina de Winnetou se
compunha daquelas telhas  velhas. Ali tornar-se-ia perigoso uma
descoberta. Melhor caminhar por toda aquela selva e deserto E ter uma
garantia de tudo. Sentei-me numa caixa grande e retirando  a faca da
cintura, sorri. Aquela faca fora surripiada do pavilho onde o meu pai
esticara a biblioteca mdica pelas estantes. Era uma faca formidvel que
estava  orgulhosa de ter abandonado a profisso de abrir livros. Quando
meu pai sentiu falta dela, reviraram tudo.
 - Deve ter se perdido na mudana. Desistiram da bichinha e agora ela me
pertencia. Ainda no a amolara bastante, mas para retalhar um mamo
chegava de sobra.  Terminada a ao escondi-o dentro de uns caixotes,
cobrindo-o com folhas velhas de coqueiro. El com ele.
 - No fique com medo. Com o calor do dia, voc vai ficar madurlho e
todas as noites virei comer um pedao. Agora, at logo. Refiz a
caminhada que se tornara mais  breve, visto a misso ter sido cumprida
com xito surpreendente. Voltei  cama do meu quar mostrar que estava
ciente da minha chegada. Fiquei nu algum tempo para refrescar o corpo.
Bem que precisava ir ao banheiro e lavar

170
 Meus ps mas qual o que. No queria deixar nenhuma pista, nenhuma
suspeita. No dia seguinte na hora da espionagem j me encarapitara no
meu esconderijo. Meu So  Jesus do Carneirinho nas costas! Dona Sevruba
parecia uma gravura de Jpiter Lanando raios e apontava o mamoeiro
vazio. Tinha vontade de dar uma baita gargalhada. Bem feito Quem mandou
demorar demais. Como  que Irmo Ambrsio dizia sempre. Ah! da colher  
boca se perde a sopa. O mamo estava era no meu papo. De noite ia ser
aquela Maravilha. De noite, nas vestes de Tarz dos Macacos comecei a
devorar o mamo.  Doce como mel. Fiquei to empanturrado que Ado me
recriminou. No era s pelo gosto, mas pelo Indito da aventura. Pela
lembrana da cara desvairada de Dona Sevruba.  Guardei mais da metade
para as noites seguintes. Ia jogar fora as cascas usadas quando uma Voz
estranha me aconselhou.
 - Se eu fosse voc guardava.
 - Pra qu?
 - Guarde que voc vai ver. Gozado aquilo, ia guardar quando Ado me
aconselhou.
 - Jogue fora, Zez. Isso no tem serventia nenhuma.
 - Mas pode ter. Juntei as cascas e escondi-as tambm no caixote. Nos
dois outros dias Dona Sevruba ficou rondando a rvore como para obter
uma pista, descobrir  um indcio. Na certa ela mesma se convencera que o
mamo fora retirado Dali por mos crimino
 - Voc foi o mamo mais gostoso que eu j comi. As ltimas cascas
balanavam vazias em minha mo.
 - E agora Vozinha que fao eu das cascas? Ado interceptou a resposta.
 - Jogue tudo fora, Zez. Mas no obedeci. A Vozinha insistia comigo.
 - Junte todas elas. Obedeci.

171

  - E agora?
 - Agora voc no quer morrer de alegria?
 - Quero.
 - Ento pegue as cascas e leve l. Deposite bem aos ps do mamoeiro.
Amanh voc vai ver o bode que vai dar.
 -  mesmo. Nem tinha pensado nisso. Obrigado, Vozinha. Que ideia
maravilhosa! Nem adiantava Ado reclamar. Nada no mundo iria me fazer
mudar. Subi em Dona Gustava,  com as cascas amontoadas na mo. Dessa vez
existia um pequeno vento dentro da noite. Jogu uma pirmide de cascas.
Todas muito bem dispostas. A eu levei um susto to grande que at os
meus cabelos se arrepiaram. Leo sentira o meu cheiro no vento e vinha
se aproximando com os plos do pescoo em p.
 - Meu So Francisco de Assis, ajudai-me! Nossa Senhora de Lourdes venha
em meu socorro. Prometo rezar trs rosrios se ele no latir. Minhas
almas do Purgatrio,  Eu rezarei por vocs o que quiserem, mas deixem
que o cachorro me reconhea. Leo estava pe me avisara. Por que aquela
maldade? J roubara o mamo. J o comera. Viu? No Avisei. Aquela
Vozinha era a tentao do diabo. Meu corao batia tanto que dessa  vez
perdoaria o Ado se ele sentisse nuseas. Meu corpo estava molhado de um
suor frio e pegajoso.
 - Minha Nossa Senhora de Lourdes, por favor! Valeime meu So Francisco
de Assis. Tentava erguer o meu corpo e minhas pernas no queriam
obedecer. Os joelhos castanholavam  um no outro. Consegui encostar-me no
muro. Meus olhos se grudavam no enorme polici
 - Leo! Leozinho!... Tutututu!...

172
 Minha voz sara to anmica como a de um velho grilo aposentado.
 - Sou eu, Leozinho. Eu? Se lembra. Amanh eu arranjo pastel pra voc.
Vem c Leozinho... Vem... Vem... A ele sacudiu a cauda me
reconhecendo. Veio se aproximando  e me lambeu as mos. Alisei o seu
plo bem de leve. Porque se ele mudasse de ideia e me  alheios.
Acalmei-me mais. Meus santos tinham me ajudado. Jurava no fazer outro
roubo daqueles. O cachorro tambm devia ter entendido sobre o pastel.
Fingi mais  coragem e alisei todo o seu dorso. Ele gostou e abanou o
rabo. Como quem no queria nada caminhei para a parte do muro de onde
saltara. E o co no meu Encalo.
 - Agora, Leo, eu vou subir. Qualquer hora dessas eu dou o prometido.
Rapidamente galguei o muro. Leo deu um pulo para pegar-me. Mas senti
que ele no queria  agredir-me. S brincar. Sentei-me na mesa do galpo
com a alma em pedaos. Parecia um picadinh um susto maior que O meu. A
diaba da malvada da Dona Sevruba deixara na certa o cachorro solto de
propsito.
 - O que eu comi de mamo todas essas noites pagarei rezando teros e
rosrios. No faz mal. Sbado vou me confessar com Padre Monte e pedir
se ele reduz a minha  Penitncia. E se ele aumentar em vez de diminuir?
Duvidava. Padre Monte era to bonzinho. Um Fechei-a e novamente fiquei
todo arrepiado. Um vulto estava deitado na minha cama. S podia Ser meu
pai. Mas a luz do abajur se acendeu e dei com Maurice deitado  na minha
cama. Ele comeou a rir dos meus trajes. E eu tremia todo com a minha
faca na cintura. ~ Que roupas, Monpti.

173

 As lgrimas desceram aos borbotes dos meus olhos. Suado e sujo me
atirei nos seus braos. S aos poucos fui me acalmando. Era muita coisa
para um Tarz s. Dois  sustos daquele tamanho.
 - Conte tudo. Mas mudou de ideia.
 - Primeiro v at o banheiro se lavar e beber um pouco d'gua com
acar. Depois volte e conte. Obedeci sem fazer barulho com medo de
acordar a humanidade. Depois  de pronto relatei-lhe tudo. Maurice ria de
balanar todo o corpo.
 - Cuidado, Maurice, voc pode despertar algum.
 - No tem perigo. Mas que aventura, hem, Monpti? Quase no podia parar
de rir. Mas eu no achava graa nenhuma. Quando ele parou de rir,
olhou-me bem analisando  A minha reao.
 - E amanh voc vai espionar o resultado das cascas?
 - Deus que me livre. Maurice passou a mo na minha cabea.
 - Meu louquinho absoluto. Minha me comentou na hora do almoo.
 - Essa vizinha  maluca.
 - Qual? A da esquerda ou da direita?
 - A da direita. A da esquerda parece um cuco. S de hora em hora bota a
cabea na janela. Estou falando da gringa velha. J estvamos at a nos
olhar com certa  Simpatia. Hoje quando fui cumpriment-la, sabe o que
ez? Olhou a todos antes de responder.
 - Enrolou a lngua como se tivesse zangada e virou-me a cara.

174

 SEGUNDO CAPTULO

A MATA DE MANUEL MACHADO

ASSOBIEI E Tuiu correupressuroso, adivinhando coisa.
 - Vamos fazer um passeio. Nessa hora a gente indo at o fim da
balaustrada prs lados do Hospital Juvino Barretto  uma beleza. Bastava
falar e l ia na frente  correndo esperar-me no porto. Atravessamos a
linha do bonde e fomos andando sem pressa nenhu o vento batia contra o
meu rosto Desfiando os meus cabelos claros. Podia-se ver na praia do
meio a chegada das jangadas. As velas enrolando-se e jogadas na areia
branca. O povo se aproximando para comprar o peixe fresco. Nos recifes
negros pescadores aproveitando a baixa da mar empunhavam canios. E l
longe o Forte dos  Reis Magos onde existiam os calabouos de prender
heri nacional. Os pobres ficavam quase enterrados l e quando a mar
enchia chegava at os seus pescoos. Assim  diziam e devia ser verdade
porque a Histria nunca mente. Sente-me no balaustre e Tuiu ps-se em p
nas patinhas. Aquilo me fez sorrir. Voc est viciado. No  pode ver um
muro e quer logo Subir. No disse que voc se transformaria no maior
murista do mundo? Abaxei-me e o suspendi na amurada. Por tras do sol era
o q  havia mais bonito. No mais, dunas abandonadas aparecia o bairro das
Rocas Se encontrava o Canto do Mangue onde nessa hora tamm se dana a
volta da pesca. Os grandes  barcos com as

175

 velas ainda maiores sendo descidas sem pressa para tambm dormir a
noite. Meus olhos se dirigiram para a minha frente. Ali comeava a
descer a linha do bonde amarelo  de Petrpolis. Mas o que me atraa
agora no era o bonde e sim a grande Mata verde. A m A Vozinha
recomendou.
 - Bem que voc podia dar uma voltinha por l.
 - Est ficando tarde.
 - Mas ainda longe de escurecer. Afinal voc  que vive se fantasiando
de Tarz. Ado preocupado distraiu-me a ateno.
 - Voc viu, Zez, como voc est ficando importante?
 - Em que sentido?
 - Todo mundo se preocupando com voc. Ado se referia a minha visita
que fizera ao Irmo Feli- Ciano que chegara de Recife e das frias na
praia. Estava Mais  vermelho e com a pele descascando. Depois do abrao
j ele me aparecia com as rugas da Preocupa
 - Chuch! Chuch... L vinha o dedo apontado para mim exigindo alguma
coisa.
 - Voc j sabe o que quero falar com voc.
 - Advinho. Fayolle sabia do meu ltimo entusiasmo. O circo. Nem gostava
mais de ir ao cinema. O meu sonho estava pregado em todos os panos
circulares e mastros  dos circos. Pena que cada sesso s demorasse duas
horas. Dino, o malabarista da motocicleta  desconfiava Logo que no eram
parentes. O corpo vestido com malhas brilhantes. A dana no ar. O Homem
dominando a ferocidade do leo cansado, acostumado a fingir  zanga. A
mocinha Que atravessava o picadeiro com uma sombrinha, executando passos
nervosos de uma dana balanante. Indo e vindo no arame. E eu sonhava
dormir  tambm naquelas carroas Viajando lentamente pelas estradas do
mundo. O circo Ste-

176
 Vanovitch. O circo Olimecha. Tantos outros e eu nas folgas rondando,
rondando. Poderia provar que tambm poderia ser trapezista. Mostraria
minhas pequenas habilidades.  E se num ambiente pequeno como o meu
galpo eu fazia misrias o que seria ento num l trazia-me  realidade.
 - Isso prova que voc significa alguma coisa para ele. Se no no viria
me visitar e pedir que lhe falasse.
 - Est certo. Mas a gente no pode ser nada na vida que goste.
 - Por que diz isso, Chuch?
 - Porque uma vez contei-lhe o meu entusiasmo por Astronomia e o que
Padre Monte me ensinara. Mostrei desejo de estudar isso e sabe o que
ouvi?
 - Desista. Astronomia  carreira para gente rica. E voc precisa se
formar em qualquer coisa mais prtica para comear logo a ajudar sua
famlia. Agora, o circo...
 - Mas voc gostaria mesmo de virar trapezista?
 - Nem se fala. Olhe minhas mos. Exibi as minhas palmas calejadas do
exerccio do trapzio.
 - . Esto bastante machucadas, estragadas. Deu um tapa nelas e sorriu.
 - Isso  um entusiasmo que passa logo, Chuch. No h futuro algum em
voc seguir essa gente. Converse com eles e ver que qualquer um
desejaria abandonar a profisso  Perigosa para ter uma casa e uma vida
mais calma. O que diria Maurice disso?
 - No diria. J disse. Que eu estava era ficando maluco. Que nem mais
falaria comigo se eu pensasse num despropsito desses.
 - E Ado?
 - Esse pior ainda. Pois se ele fica vomitando quando eu me balano na
mangueira, imagine dando saltos mortais, voando at as proximidades do
teto, dando passadas  De trapzio, suplantando o corpo do outro
trapezista. Ele tambm, o tonto, ameaou-me de ir
 - Pois ento, Chuch, todos os seus melhores amigos e

177

2 Vamos aquecer o sol
 agora eu, no esto gostando dessa ideia. Voc sentiu que no aprovo,
no?
 - Como o saberia se  a primeira vez que estamos falando disso. Voc
viajou para Recife e eu no tive oportunidade de contar-lhe a minha
descoberta.
 - Vai desistir?
 - Qual  o jeito? Como  que eu podia viajar com eles?
 - Gostei de ouvir a sua deciso. Mesmo porque no acredito que voc
gostasse de deixar de nadar.
 - O que  que tem uma coisa a ver com a outra?
 - Tem sim. No circo voc no teria tempo para mais nada. Durante o dia
eles ensaiam doze horas sem parar. S param o exerccio de tarde se
houver espetculo. As  Matins. De noite tem funo. Muitas vezes nas
cidades grandes eles se exibem duas vezes por Um regador de plantas.
Olhei Fayolle espantado.
 - Como  que voc sabe de tudo isso?
 - J conversei com muita gente de circo na vida.
 - Se realmente no puder nadar, desisto de uma vez. Fayolle respirou
aliviado.
 - Foi bom voc ter desistido por vontade prpria. Seria mesmo
impossvel voc fugir com um circo. Alm de no ter idade...
 - E o que mais?
 - O seu pai tomou as precaues necessrias. E voc faria o mesmo se
estivesse em seu lugar...
 - Que precaues necessrias?
 - Voc no conhece o Dr. Francisco Veras que  chefe de polcia?
 - Sei.
 - Ele e seu pai so amicssimos Da... O vento voltou a bulir com os
meus cabelos e voltava a ver a balaustrada e o rudo do bonde que vinha
vindo abalou os meus  ouvidos. A Vozinha me cutucou.
 - Ainda d tempo.
 - Logo fica escuro.

178

 - Escuro por escuro, voc no anda de noite em suas aventuras?
 -  outra coisa.
 - Porque voc no viu como  maravilhosa aquela mata. Digna mesmo de
uma selva amaznica, de uma floresta virgem da frica. E no precisa se
desculpar que  tarde.  Com calma ainda teremos bem uma meia hora para
que se acendam as luzes.
 - Vamos Tuiu? Nem quis ouvir os sbios conselhos de Ado. Tentei
acalm-lo garantindo que naquela hora, depois de ter tomado o meu banho,
no iria me sujar subindo  em qualquer  rvore. A mata de Manuel Machado
me atraa como im. Atravessei o areial, passando perto de vrios
casebres. Aquela gente lavava roupa e deixava as peas coarando  no
sereno A noite inteira. De noite, eu j vira, as peas balanando ao
vento pareciam um bando de fantasmas brincando de procisso. At que me
dera vontade de  cortar a corda Como fizera em pequenino e apanhara uma
surra tremenda de minhas irms. Agora no. S ficara na vontade. Aquilo
era ganha-po daquela gente pauprrima  e no sentia Vontade nenhuma de
tanta maldade. O cheiro da noite j se espalhava vindo do corao das
rvores. Tuiu, nervosinho empacara quando eu abaixei o  corpo e passei a
cerca de arame farpado.
 - Venha, seu bobo, no tem perigo algum. Ele obedeceu quando viu que eu
penetrava mesmo. Fui procurando trilheiros. As folhas estalavam sob os
ps. Dentro j escurecera  Quase. Primeiro fui transpondo uma srie
seguida de paus-ferros de perninhas finas.  Imaginei a delcia de subir
em todas aquelas ramas. Ficar olhando o mundo agradvel daquelas copas.
A Vozinha entrava no meu encantamento. Isso, sim, rapaz,   que se chama
uma grande aventura.

179

 Seguia as picadas no cho. Picadas largas. Muita gente tinha permisso
de apanhar lenha e galhos secos durante o dia. A Vozinha me excitava
mais.
 - De noite aqui vagam as almas solitrias, os duendes, os sacis e as
caaporas. Tem at mapinguari e urutau.
 - Est exagerando. Isso tudo a gente estuda e sabe que s se encontra
no Amazonas ou em outras selvas do Brasil. Ela ficou meio engrogolada e
disfarou.
 - Bem. No quero dizer que existam em grande quantidade. Mais unzinho
ou outro sempre aparece. Quando eles vm trazem ao seu redor fachos de
vagalumes para alumiar  A escurido. Encontrava-me completamente
encantado com a beleza da descrio.
 - Voc  escritora?
 - No. Mas gosto de ver a vida nesse ngulo.
 - Ento eu posso botar o que voc falou em minhas composies
literrias? Irmo Ambrsio gosta de quem descobre coisas muito bonitas.
 - Claro que pode. E voc ainda no viu nada. Quando se decidir a
conhecer a mata de noite. No momento em que as estrelas se grudam na
rede da noite ou que a lua  Faz cafun nos cabelos das rvores, a sim,
voc descobrir muita coisa bonita para colocar
 - Obrigado. Vou pensar no assunto. Agora preciso ir. J devem estar
pondo a mesa de jantar l em casa. Sa correndo ao lado de Tuiu para
fora da mata. Mas meu  corao extravasava alegria e beleza. Medo
danado. Foi preciso que Tarz me empurrasse para a que nunca, nunca
ningum saberia daquela Nossa expedio. Ou expedies porque foram
vrias. Anteriormente j me arriscara visitar at prximo da casa das
lavadeiras  e outros recantos. Mas penetrar na mata  noite, foi uma
faanha extraordinria. Cada noite

180
 Marcava encontro com Tarz no comeo da mata. Isso no comeo, porque
quando ele se certificasse de que eu estava perfeito nas minhas
caminhadas, deixaria de me  acompanhar. Seu mundo africano de gorilas,
lees e panteras precisava muito do seu auxlio. B os mesmos rituais:
hora do Brasil, volta na balaustrada, um pouco de conversa e cama.
Depois As luzes apagadas. A pausa da espera do silncio total. A tanga
da  camisa da ginstica. A faca na cinta e a aventura da noite. Nem
sequer me preocupava se alguma Vez, meu pai precisasse falar comigo e
encontrasse a minha cama  vazia. No queria nem pensar porque por mais
que inventasse no haveria mentira suficiente que pudesse Explicar
aquela ausncia.
 -  hoje, Zez? A voz de Ado eram pulinhos de angstia.
 - Hoje mesmo.
 - Ficou decidido.
 - Mas voc acha que d?
 - Estou preparadssimo. Voc acredita que Tarz me deixaria fazer isso
sozinho se no estivesse mesmo afiado? Ado deu um trubufe no meu
corao.
 - Fique calmo que nada acontecer.
 - Voc disse muitas vezes essa mesma coisa no caso do mamo de Dona
Sevruba.
 - Na mata  diferente. No haver ningum. O povo tem medo de entrar
l. Ningum apanha lenha ou gravetos durante a noite.
 - Se eu fosse voc desistia dessa ideia.
 - E como no , no desisto. Irei tantas vezes at me acostumar andar
nela como se fosse de dia. Ado soltou um gemido quilomtrico e
resmungou.
 - Ainda bem que est chegando a minha hora. Hora de qu?
 - De ir embora, tratar da minha vida. Porque medo mesmo  o que voc
no tem mais. Dei uma risada gostosa.

181

  - Isso  timo. Voc veio me ensinar a perder o medo e agora fica
tremendo como vara verde. Fiquei logo com pena porque amigo maior pouca
gente teria.
 - Fique calmo que tudo d certo. Passei o dia sem preocupao alguma.
Nem mesmo um vago sintoma de inquietao. Fui tomar banho de mar. De
tarde fiquei fazendo  ginstica com Dona Celeste. Endurecendo E
aumentando os msculos para que Maurice no caoass todos os muros que
precisava usar naquela Noite. Tudo se encontrava perfeito. Passaria pelo
muro de vrios quintais a comear pelo da vizinha que no falava com
ningum. No terceiro quintal desceria e caminharia Pelo areial porque
existia um cachorro de muito mau humor. Procuraria sempre as sombras,
evitando a aproximao  de qualquer rancho daquela parte. Tudo como
fizera Com Tarz. Abrigando-me quando ouvisse qualquer rudo suspeito.
Esconder-me-ia numa touca de capim para ver  se no vinha ningum. Daria
uma carreira como se fosse Uma flecha at ao cerrado de carrapateiras.
Dali com todos os sentidos  prova examinaria os lados da rua.  Bonde
no haveria perigo, porque o ltimo passava s dez Horas. Atravessaria a
rua como o pensamento e jogar-me-ia  sombra de outras carrapateiras.
Alcanar a  mata era uma Sopa. *  *
 - Viu como deu certo, Ado?
 - Por enquanto deu.
 - E vai dar. Agora podemos abaixar para atravessar o arame. A mata vai
ser toda nossa e j conhecemos todos os caminhos.
 - J pensou, Zez?
 - No qu?
 - Em duas coisas. Primeiro que voc est longe de casa mais de dois
quilmetros.
 - E da?
 - Se pegam voc com essa roupa? Que diro de voc com a bunda  mostra
e com uma faca na cintura.

182

 - E por que vo pegar? No h viva alma. Ningum vai passar por essa
mata.
 - Voc falou em alma, no foi?
 - Falei. Alma no existe e se existe no  pra assustar ningum, seu
bobo. Se gente viva no faz mal, alma  que no poder fazer. Vamos
aproveitar a noite. Voc  Sente o cheiro da floresta? Vm de toda parte.
Que delcia! Do cho, das cascas, das folhas
 - Zez, voc promete que no vai esperar a meia-noite?
 - Prometo. A gente fica sentado l em cima s uns quinze minutos. Se
tiver sorte a gente vai ver a bicharada da noite. Os sacis, os
mapinguaris... os cometas de  Vagalumes. Vamos. Procurei a rvore que
mais gostava e fui suspendendo o corpo sem fazer o m se tornava ainda
melhor. A gente habituava a vista no escuro e deixava o ouvido alerta 
qualquer barulho. Tinha sapo cantando longe.
 - Conhece aqueles sapos, Ado?
 - No. Minha raa  especial e no  cantadeira. Ado falava to
baixinho que quase no se podia distingui-lo. Os grilos serravam por
toda parte. Devia haver um  batalho deles. As ratazanas corriam sob as
folhas Secas e amontoadas. L nas grimpas, desca Segurava-me numa
forquilha com a mo direita. Mesmo que no fosse aparecer Nada, a
sensao no podia ser mais gostosa. To gostosa como nadar no mar
quente. Liberdade  seria aquilo ou coisa muito parecida. Ado
choramingou.
 - Zez.
 - Diga.
 - No est perto da meia-noite?
 - Falta bastante pelo meus clculos.
 - Voc no pensou numa coisa?
 - No qu?
 - Que dia  hoje?

183

  - Sei l. Cinco ou seis.
 - Pergunto da semana?
 - Sexta-eira. Sorri.
 - J sei est pensando que sexta-feira  dia de alma do outro mundo,
no ?
 - .
 - Mas Ado, isso  bobagem. Tanto podia ser na quarta, na quinta ou na
segunda. O povo  que inventou isso de sexta-feira ser dia de alma
penada. Tudo bobagem.  No Receie que no existe alma do outro mundo.
 - No existe por que voc no quer! Cheguei a me segurar com as duas
mos na forquilha.
 - Ouviu isso, Ado?
 - Ouvi e estou tremendo todo.
 - No reconhece a minha voz? Fiquei aliviado. Quase me assustara mesmo.
Era a Vozinha.
 - Que est voc fazendo aqui?
 - Vim lhe trazer inspiraes. No quer?
 - Depende do que. A Vozinha falou bem ao meu ouvido, coando a minha
mola de artes.
 - Por que voc no vira alma do outro mundo?
 - Eu? Ado deu um pulo l dentro.
 - Tape os ouvidos, Zez, no escute. Entretanto estava
interessadssimo.
 - Como  que eu posso virar alma penada?
 - Ora, Zez. Voc  sempre to esperto.
 - Sim, mas vi no cinema que quem vira Lobisomem fica difcil depois
desvirar.  preciso que acabe a lua cheia.
 - Mas voc no precisa virar coisa nenhuma. Basta imitar. Comeava a
compreender e a gostar da proposta.
 - Hoje no  sexta-feira? O povo no tem um baita medo desse dia?
 - Acho que todo mundo deve ter.
 - Pois bem, voc mete o berro, d uns gemidos de cor-

184
 Tar o corao. Todo mundo ficar certo de que aqui tem alma do outro
mundo.
 - Mas isso  uma maravilha!
 - pois o que est esperando?
 -  que nunca imitei...
 - Experimente. A essa altura Ado j se resignara. Nem me aconselhava
mais. Fiquei em p no galho, apoiei-me bem com a mo direita e a
esquerda trouxe junto   boca. Soltei um ai Entrecortado que repercutiu
na mata e foi se perder l longe.
 - Foi bem?
 - Para o primeiro, regular. Mas voc precisa botar mais emoo. Mais
dor. Como se tivesse sendo serrado ao Meio.
 - Como se fosse serrado por um cao?
 - Mais ou menos.
 - Ento eu sei. Meti o gemido mais doloroso do mundo. Um gemido
misturado com soluos. Dava paradinhas e recomeava.
 - Esse foi bom. Voc precisa fazer mais duas vezes. Alma do outro mundo
no fica gemendo a noite inteira. Obedeci. Cansei-me um pouco e me
sentei de novo no galho.
 - Agora escute. Pus meus ouvidos alerta. Um cachorro metera a boca no
mundo, despertando uma poro deles.
 - Viu como faz efeito? Ficaram uns dez minutos latindo e aos poucos
foram se acalmando.
 - Agora, faz s mais uma vez. E por hoje chega. Cortei a solido da
noite com o gemido mais torturado Do mundo. A canzarrada ladrou de novo
e dessa vez mais Excitada.
 - Quando eles pararem voc deve ir. Muita gente j ouviu.
 - Quando devo repetir tudo isso? .~~ De trs em trs dias e depois s
nas sextas-feiras. Fica mais real.

185

  - A Vozinha bocejou.
 - Estou com sono vou dormir. Boa noite! Olhei em volta e a noite
voltara  calma anterior. L em cima milhares de estrelas faziam a
expedio da noite.
 - Vamos voltar, Ado. Voc viu que formidvel?  a brincadeira mais
maravilhosa que eu j fiz. Vou dormir Como um anjo. * * Nem precisou
inteirar quinze dias e o negcio comeou. Em todo canto j se comentava.
 - Tem alma gemendo na Mata de Manuel Machado.
 - Eu j ouvi. Fiquei toda arrepiada e rezei trs AveMarias para as
almas dos enforcados. Cruz-Credo! Cada comentrio aumentava mais o meu
orgulho e a vontade de  retornar  Mata para cumprir a minha misso. O
zum-zum foi to grande que chegou at a nossa
 - Isaura me contou. O pessoal das lavadeiras est morrendo de medo. Tem
alma gemendo na Mata de Manuel Machado. Um gemido to triste de cortar o
corao.
 - Isso  inveno do povo. Povo pobre tem mania de estar vendo coisa.
Isaura que servia o caf em silncio quebrou o seu mutismo.
 -  verdade, Doutor. Laurinda que mora perto diz que tem noite que
quase morre de agonia. Elas s sossegam quando passa a meia-noite e
algum acende uma vela.  O meu pai parou de ler "A Repblica" e se
interessou mais pela conversa.
 -  o caso de se mandar rezar uma missa pelas Almas do Purgatrio.
Recolocou os culos e voltou ao seu jornal. Aquela conversa me
deliciava. Estava to artista  como alma do outro mundo que todo mundo
comeava a falar. S que ficava de sonso como se tive Deu-me uma
guloseima qualquer e abordou-me em cheio.

186

 - Chuch, voc j ouviu falar da alma penada da Mata de Manuel Machado.
Engoli antes de responder, com a maior calma do mundo.
 - A empregada l em casa falou disso.
 - Voc acredita nisso? Que alma venha l do Purgatrio para assustar
gente pobre?
 - Acredito sim. Vou at rezar por elas.
 - Pois eu no acredito. Disfarcei a conversa.
 - Mas o catecismo no ensina que a gente tem corpo e alma?
 - Isso  outra coisa. Ficou olhando dentro dos meus olhos e eu fazendo
uma fora danada para no me trair.
 - Eu tenho a impresso de que voc sabe mais sobre esse assunto. No
sei no. Essas assombraes apareceram de um tempo para c. Logo depois
que vocs se mudaram  Para aquelas bandas.
 - Est pensando que eu estou metido nisso, Fayolle?
 - Quem sabe.  uma coisa muito ao seu gnero. Quem sabe se voc no
est colaborando com algum grupo de meninos levados... Com a maior calma
e fingindo tambm  a maior inocncia respondi.
 - Logo eu, que me pelo de medo do diabo de alma penada. No quero nem
pensar numa coisa dessas. Se se convenceu ou no, o certo  que me
dispensou e voltei meio  encafifado ao recreio. Danado, aquele Fayolle,
ele ia direto ao alvo. No gostava de mentir- O que eu no esperava era
o volume que aquela coisa estava tomando. A notcia tinha invadido o
bairro das Rocas e era at comentada nas bancas da feira do Alecrim.
Comecei a amendrontar-me. Os comentrios voltaram a mesa do caf.
 - Esto pensando at na sexta-feira, trazer Monsenhor Landim para
benzer a mata.

187

  - Esto pensando em fazer uma prociso de velas  noite em plena
sexta-feira.
 - Dizem que  a alma de um enforcado. Um velho cego que se enforcou num
galho baixo de um pau-ferro. Saia sem nada dizer. Se descobrissem em
casa eu seria sei  l at colocado no Hospcio onde meu pai era diretor.
Ado me recriminava.
 - Viu o que voc inventou?
 - Em todo caso foi bom pras almas. Tem muita gente rezando pra elas.
 - Voc vai parar?
 - Vou hoje e fao uma pausa. Quando estiverem bem esquecidos eu volto.
 - Mas para que, Zez?
 - No sei. Mas de tudo que fiz at hoje  a coisa que eu gosto mais. A
gente fica parecendo dono do mundo.
 - J vou.
 - Por amor de Deus, Zez desista disso.
 - S hoje, Ado. Depois paro uns tempos.
 - Voc precisa tomar um cuidado doido. Pode ter gente esperando armada
de pistola e uzil.
 - Que nada. Gente dessas bandas s usa a peixeira. Executamos tudo e
como tudo que se faz pela ltima vez foi mais perfeito. Gemi e solucei
de cortar o corao.  Pausadamente como ela me aconselhara. Vozinha
danada Estava ali. A noite escura escondia o m da minha casa. Dei um
pulo e cai perto da Mina de Mo-de-Ferro. O que vi fez meu corao dar
um salto to grande e o suor frio molhar em segundos todo o meu corpo.
O susto foi to grande que quase fiz pipi na tanguinha. Um vulto
acocorado embuado no cobertor ergueu-se  minha frente. Encostei-me ao
muro para no cair.
 - Seu diabo danado! Que  que voc est fazendo? Era Dadada. Acalmei
meu peito e quase no podia falar.

188

 - Puxa, Dadada, pensei que voc fosse alma do outro mundo. Ela estava
furiosa.
 - Ento era voc, seu peste. Bem que estava desconfiada. Era voc a
alma que gemia na mata de Manuel Machado. Comecei a tremer como vara
verde. Por pouco mais  chorava.
 - Por favor, Dadada, no conte a ningum.
 - Eu devia era levar voc pela orelha e acordar todo mundo da casa. Que
escndalo.
 - No faa isso, Dadada. Eu prometo que no fao mais. Se fizer eu vou
parar no hospcio ou preso na cadeia.
 - E era o menor castigo que merecia.
 - Se voc guardar segredo eu juro que nunca mais fao isso.
 - No devia. Mas olhe bem, se isso acontecer de novo. Se algum ouvir
falar mais em alma na Mata de Manuel Machado eu vou correndo e conto
tudo.
 - Nunca mais vou l.
 - Jura?
 - Pelo que voc quiser. Ela pensou um pouco e viu que no adiantava
nada jurar pelo meu pai ou algum de casa.
 - Jura pelo Irmo Feliciano que voc no repete isso. JURO PELO IRMO
FELICIANO. Ela se acalmou. E veio aquele medo em sua alma.
 - J imaginou se algum lhe d um tiro. Se os cabras de ia fazem uma
turma e lhe enchem de peixerada? A ela comeou a rir. Ria como doida ao
descobrir que Eu  estava vestido com o traseiro ao ar livre. Ria tanto
que sacudia o muro.
 - Chega, Dadada. Algum pode ouvir voc. Ela ainda rindo apontou o
dedo.
 - V dormir, seu doido varrido. Maluquinho do po. ias no se esquea
de uma coisa. Se voltar l, j sabe.

189

 Sa correndo para o meu quarto. O corpo ainda se encontrava molhado de
suor. Precisava me deitar e rezar bastante. Reiniciar um novo rosrio
pelas pobres almas  Do Purgatrio. E se por ventura aquela Vozinha me
aparecesse de novo, eu quebraria a cara del Mata de Manuel Machado.

190

 TERCEIRO CAPTULO

MEU CORAO CHAMAVA-SE ADO

 AQUELA NOITE algo de
muito estranho e pesadamente triste achatava-se em mim. Depois do jantar
fiquei ao p do  rdio ouvindo a hora do Brasil, mania em casa. Apesar
Do execrando aviso aos navegantes no h as notcias vindas do Rio de
Janeiro. Rodei pelo terrao. Olhei as estrelas do cu muito negro; No
desejei dar uma volta at o fim da balaustrada. Nem mesmo apreciar
algum navio todo iluminado, fora da barra esperando a mar alta para
entrar no Rio Potengi. Bocejei demoradamente e espreguicei-me todo. Tudo
indicava que numa  ocasio dessas, o melhor refgio seria a cama. Em
cinco minutos escovara os dentes e vestira o pijama. Fazia um pouco de
calor. Empurrei a janela e deixei-a meio  aberta para sentir um ventinho
encanado que vinha L de longe do lado do mar. O comeo do sono
manifestava-se to forte que renunciara at a rezar. Melhor apagar  a
luz antes que ele desabasse de uma vez. Com um esforo ingente obedeci a
minha Vontade. Novamente a cama macia, gostosa. O pensamento agonizava
lentamente.  Pequenas coisas. Pequenos pedaos de lembrana. Longe bem
longe uma mida saudade de Maurice. Ultimamente ele sumira um pouco. Na
certa descobrira que o tempo passava  e que eu criava uma confiana
maior em m mesmo. E tambm porque o pobre arranjava contraos por cima de
contratos. Filmes aps filmes. Restava to POUCO tempo para  sua vida
particular que no me sobrava

191

 a certeza de quando viria novamente. Ah! Maurice era uma pessoa
realmente maravilhosa. Maravilhosas tambm as aulas de literatura do
Irmo Ambrsio. Ele nos ensinava,  Instigava para que fizssemos
composies literrias. Aquele seu tique nervoso de aper no me deixava
nenhuma perspectiva de ser Tarz essa noite. Os muros dormiriam em paz,
os cajueiros, o meu mundo de reinaes, perdiamse Na distncia, l no
comeo  do infinito. No podia certificar se dormira muito, mas meus
olhos foram despertos com luz no quato. Esfreguei-os resmungando.
 - Diabos! Tenho absoluta certeza de que apaguei a luz antes de me
deitar. Uma Vozinha apareceu debaixo da cama.
 - E eu tenho a certeza absoluta de que acabei de acend-la. Virei-me
para ponta da cama e procurei logo de onde viera aquela voz. Lembrava um
pouco de Ado. Mas  nos ltimos anos adquirira uma voz mais grave, mais
calma e Sobretudo velada. Perguntei a el
 - Ado, voc est escutando essa voz? E o peito mantinha-se mudo. Nada
de corao responder. Enchi-me de preocupao.
 - Ado! Ado! Voc est me escutando. Est a?
 - A, no. Encontro-me exatamente debaixo da sua cama. Acordei de todo.
Uma estranha surpresa me atingia.
 - Por que no est no meu corao? Que faz debaixo da minha cama?
 - Olhe. Descubra por voc mesmo. Estiquei o corpo e debrucei o meu
rosto para l. O meu sapo-cururu puxava uma malinha num esforo enorme
para fora da cama.
 - Quer que eu ajude?
 - No precisa. Dou um jeito.

192
 Fazia tempo que no me sentia to espantado. Decidi a observar um pouco
antes de fazer novas perguntas. Ado soprou a poeira da malinha e
experimentou os trincos  meio enferrujados at que com um pequeno estalo
ele conseguiu funcionar. Tudo era ordem em  se misturavam com as meias e
outros objetos. Ado apanhou um chapeuzinho negro de abas curtas e
colocou na cabea. Olhou-me sorridente.
 - Fica-me bem?
 - Extraordinariamente bem. Deu de ombros com uma certa indiferena.
 - No sou nenhum Maurice Chevalier ma tambm tenho direito de usar os
meus chapus. O espanto crescia em mim. Ser que Ado depois de tanto
tempo sentia mgoa  ou cimes de Maurice? No podia ser. Sempre
manifestara uma imensa simpatia por Maurice. Admir meio sarcstica?
Retirou o chapu e depositou-o ao lado da mala.
 - No gosto de usar chapu dentro de casa. No  de bom agouro. De
imediato desenrolou um cachecol e cuidadosamente colocou-o no pescoo.
 - Pode ser que faa frio l. No quero irritar minha garganta.
 - Mas "l" aonde, Ado?
 - Em breve explicarei.
 -  melhor. Existem muitas coisas que voc deveria me explicar. Por
exemplo o que est fazendo fora do meu corao.
 - E no posso?
 - Que pode, pode. Seno no estaria a. O que voc esta me aprontando,
Ado?
 - Pouca coisa. Alis coisa de pouca monta e importnca. r
 - Pouca importncia? Mas voc no pediu licena para sair do meu
corao.

193

3 amos quecer o sol
  - Que diferena faz?
 - Se faz. Quando voc veio morar comigo at que me adulou para entrar.
 - Isso j faz tempo. Tudo mudou.
 - No sei em que. Comigo nada mudou.
 - Pode ser que esse fato tenha se dado comigo.
 - Mesmo que isso acontecesse voc no precisava me falar assim. Dessa
maneira to dura, to rspida. Afinal sempre fomos muito amigos.
 - E somos ainda. Tomei uma atitude meio violenta. Puxei-o para perto da
cama e peguei-o com cuidado, sentando-o nela.
 - Agora voc vai me contar o que realmente est se passando. Baixou os
olhos muito azuis para no enfrentar os meus. Engoliu a emoo num
esforo tremendo. Como  se preferisse morrer a falar.
 - Vamos, diga.
 - As lgrimas fininhas deslizaram em sua face. E aquela moleza de
bobo, aquilo de no poder ver ningum chorar sem ser atingido, comeou
a bulir comigo. Mudei  a rudeza da minha voz.
 - Ora, o que  isso, Ado? No deve acontecer nada de mau entre ns
dois. Conte logo o que o aflige. Afinal sou seu amigo nmero um.
Suspendeu os olhos midos.
 - Zez, eu vou-me embora.
 - Voc est louco. Como vai embora assim sem mais nem menos!
 - Muitas vezes eu avisei que um dia precisaria ir-me. Um pequeno
desespero tomou conta de mim.
 - Mas por que voc no me avisou que iria sair do meu corao?
 - Seria difcil. Pensa que no me custou? Foi por isso que fiz voc
dormir profundamente para retirar-me devagarzinho.
 - E pretendia partir sem se despedir de mim?
 - Quase isso. Pelo menos que me visse assim j decidido a partir.

194
 Tomei-me de uma doura imensa. - ]V[as por qu? Por que tudo isso,
Ado? -  o tempo. Ou ns mesmos. Porque o tempo no existe ns  que
passamos. E como passamos  Chegou a hora De partir. Minha misso est
cumprida. - Ser que eu falhei em alguma coisa?
 - Ora, Zez! Por que tudo isso? Chegou a hora. Preciso artir. Voc j
no necessita de mim. Tornou-se um menino decidido e sem medo. Aprendeu
a se defender. Tudo  Exatamente como mais o desejei na vida, querido.
 - No ser por causa dos medos que lhe causei ultimamente?
 - Em parte, mas uma parte sem importncia, sim. Olhe-me bem! Chegue-se
mais perto de mim. Enxerga as minhas rugas que aumentaram em volta dos
meus olhos azuis?  Viu Como minhas sobrancelhas se embranqueceram. Meus
olhos tambm se gastaram. Vou talvez pre O remorso me atingiu duramente.
Tadinho de Ado. O medo que lhe causara com a histria do cao, com as
minhas excurses na mata de Manuel Machado. Falei-lhe sobre  Isso. Riu
sem querer me acusar.
 - Confesso que sentia muito medo s vezes. Mas no ntimo orgulhava-me
disso. Porque voc se tornava um menino decidido e corajoso. Suspirou
longamente.
 - Foi uma poca belssima em minha vida. Feliz de quem pode ser til a
algum e construir algo. Se voc sente que fiz qualquer coisa por seu
futuro, isso me enche  De satisfao.
 - Voc foi quase tudo na minha vida, Ado. Se no existisse Fayolle,
voc e Maurice... ~ E Tarz.
 - Sim. E Tarz... O que teriam sido os meus dias passados?

195

 Ele guardou silncio.
 - Sabe, Ado. Alguma coisa muito estranha est me acontecendo. Mesmo
Maurice aos poucos se afasta de mim. Suas visitas comeam a rarear. Um
dia, ele j falou, um  Dia ele se afastar de mim. E por que tudo isso
tem que ser assim?
 - Simples, Zez. Voc est crescendo e penetrando aos poucos na
realidade dos fatos. Calamos-nos mas no me conformava. Como sentir o
meu peito vazio de Ado?  Como no conversar com ele? Como ter de falar
sozinho comigo mesmo se me habituara, na Vida, c
 - Voc vai mesmo Ado?
 - No h alternativa. Quando um sapo-cururu tem o destino de penetrar
num peito amigo s o realiza uma vez. Mesmo que decidisse a voltar ao
seu corao no teria  Mais a mgica de faz-lo. No  o meu desejo que
se realiza e sim ordens que vem de longe q
 - Pensei muito, Zez. Onde estiver, longe ou perto nunca o esquecerei
em minha saudade. Soltei um -nem eu - desalentado. Encostei-me  parede
comido por uma pequena  depresso. Quem sabe se no poderia haver outro
milagre de Ado se reconciliar comigo Vo
 - E os nossos sonhos?
 - Sero divididos de agora em diante. Os seus sonhos sero s seus. E
os meus comearei a sonh-los sozinhos tambm. Ado arremessou-se para
mais perto e me pegou  na mo. O contato da sua palma era frio como um
suor de morte. Sentia que o momento se tor
 - Zez amigo, Zez querido. Por favor escute o que vou dizer. Implorava
quase.
 - No recrimino nenhum dos momentos que vivi  sombra do seu corao.
Tantos nos bons momentos como

196
 Nos aus que na realidade foram bem poucos e fceis de esauecer.
Entende? Pois bem, agora chegou a hora de me realizar como sapo, sapo.
Antes que meu corpo se torne  Mais lerdo e mais gordo e que meus olhos
se tornem menos lcidos e mais opacos quero ver  guas caminhantes. Ter
um cantinho entre as folhagens da margem para dormir, sestear, caar
meus pernilongos e muriocas. Fugir do barulho das cidades e ouvir o
Canto da calma de Deus. Molhar meu corpo com as gotas macias da chuva e
aquecer ao sol minhas pequenas dores e reumatismo. Ver a luz do sol
penetrar na gua dourando  Os seixos midos e os caris ensombrecidos. De
noite ouvir o canto da brisa trazendo a msica da noite aos meus
ouvidos; escutar o cri-cri dos grilos serrando as  Folhas das
trepadeiras selvagens. Nas noites de lua cheia deitar-me em seu disco de
prata no meio do rio e cantar as minhas humildes canes de sapo. E
quando o  Cu for muito negro enroscar os meus olhos velhos no colar
brilhante das estrelas. Tudo to limpo e calmo, no acha, Zez? Nem
podia responder. Meus olhos se enchiam  d'gua.
 - Compreendo, Ado. Um mundo muito mais belo do que o interior de um
corao de menino.
 - No, Zez. No se trata disso. No devemos culpar o destino das
coisas e dos seres. Vou sentir muito sua falta. Falta que terei que
substituir pela beleza da  Vida. Porque justamente a beleza vai tentar
preencher uma lacuna: Uma simples coisa chamada t nem na beleza das
estrelas nem no brilhar da luz. Toda essa beleza Vai me apagar aos
poucos e acalmar na saudade da minha alma a falta que sentirei da sua
ternura.  Dei um suspiro quase eterno e murmurei.
 - Voc acaba de provar uma coisa. Gente-bicho  muito melhor e mais
nobre do que gente-homem. Ado rompeu o gelo do desalento que me
atacava. Depois, Zez, durante  todos esses anos que vivi em seu peito
voc nunca demonstrou ser um menino egosta. ma da

197

 E se pensarmos bem, fui eu que mais abusou da sua bondade. Eu morei em
voc sem nunca pagar o aluguel de qualquer coisa. Voc me carregou
sempre sem nunca se queixar  Do cansao ou reclamar do meu peso, no
foi?
 - Voc nunca pesou nada, Ado. Nem me importaria se voc pesasse trinta
quilos contanto que voltasse para mim.
 - Agora,  impossvel. Por isso eu titubiei muitas vezes se sairia sem
que voc me visse. Talvez at voc o preferisse assim, no?
 - No. Nunca. Pensaria que voc fora ingrato ou que me odiava a tal
ponto de partir sem me dizer adeus.
 - Obrigado, querido. Mas no faa esse beio de choro e nem fique de
olhos molhados nesse instante. Tenho que cumprir a realidade da vida de
um sapo. Tudo foi to  Lindo enquanto pude estar com voc. Foi alm do
limite dos meus sonhos. Nem todos os sapos Entre os sonhos da infncia.
 - Est certo. No vou chorar. Voc indo vai deixar um buraco maior no
meu corao. E nesse lugar vou desear a voc tudo de mais lindo em sua
vida.
 - Assim, sim, Zez. Eu sabia que poderia contar com a sua compreenso.
Riu e pulou de novo para o cho. Meu corao deu um toque de medo e
frio. Dali colocaria  os culos, o cachecol e o chapeuzinho mimoso. Mas
ainda no se decidira a isso. Tentava falar
 - Estou ficando um sapo bem velho, no?
 - Nunca, Ado. Voc foi o sapo mais lindo e de olhos azuis que existiu
na vida. Nunca haver ningum igual a voc.
 - Obrigado, mas no me iludo. Estou velhinho. Ne penso mais em arranjar
uma sapinha-cururu de longas tranas louras e touquinha de renda na
cabea. Esse tempo j  Passou, O mehr eu  passei, porque Q tempo 
para-

198
 Do. Um dia voc compreender isso. Quando souber que encontrei o meu
rio e estarei vivendo calmamente... eu sei que voc se alegrar, Zez.
 - Porque voc no vai para a lagoa do Bonfim? L  um mundo enorme de
guas e  to funda que o seu azul  quase roxo. Eu se fosse sapo, iria
para l.
 - Tenho que ir para um lugar que voc no conhea. Um lugar que nunca
poder encontrar-me. Um lugar s encontrado pela sua saudade ou pela
minha. Sabe, Zez eu  J Sondei muito. At que pensei na lagoa da
Bonfim.' Entretanto l est sempre muito cheio de De mim. Que me atirem
pedras ou me batam com paus.
 - Porque iriam fazer isso? Eu nunca maltratei voc com pedras e paus.
 - Voc  voc. E se seu corao no fosse bom nunca teriam me enviado a
voc. Agora vou. Se quiser fechar os olhos eu no me importarei. No
obedeci a sua vontade.  Preferia ver tudo at o fim. Ado se aproximou
da malinha. Ajeitou os culos, o cachecol  para fechar a malinha. 
Trinco se encontrava bastante enferrujado e estalou na manobra. Foi
caminhando em saltos pequenos. S fazendo barulho na minha tristeza,  no
meu corao que agora dava para sentir mais o oco intil. Parou junto a
porta e voltou-se.
 - Deixo a porta entreaberta? Fiz sim com a cabea porque a voz
desaparecera. ~ Apago a luz?
 - Pode deixar acesa. Supendeu a mozinha de luva e o reloginho brilhou
 - Adeus, Zez querido. E sumiu no escuro do corredor.

199

 Foi a que eu acordei. Estava com o corpo molhado de suor. E um
mal-estar me envolvia todo. Tudo no passara de um pesadelo cruel. Mas
os meus olhos estranharam  A luz acesa. Tinha certeza que a apagara
antes de me deitar
 - Ado! Nada de resposta. Insisti.
 - Ado voc est me ouvindo? Meu peito era um silncio liso e mudo.
Debrucei-me angustiado e olhei embaixo da cama. S havia ausncia no
lugar de sua malnha e  um rastro de poeira branca. Pulei at a porta
entreaberta. Meu Deus, eu podia garantir que a  rio e da sua paz. Voltei
desanimado para a cama e fiquei com as mos pendidas entre as pernas.
Uma voz amiga apareceu. A porta se abriu de par em par e Maurice  me
sorria.
 - No me esperava, Monpti? Queria sorrir e o sorrso forado apareceu
entre minhas lgrimas. Mal senti o rosto de Maurice colado ao meu e seu
leno muito branco  de cambraia esvoaante enxugavame O choro.
 - Que foi? Que foi? Abracei-me soluando ao seu peito.
 - Maurice, aconteceu uma desgraa. Ado foi embora.
 - Acalme-se, acalme-se e me conte tudo direitinho. Engoli minha emoo
e contei todos os detalhes.
 -  triste, Monpti, mas eu estou aqui. Maurice est ainda perto de
voc. Implorei desesperadamente.
 - Voc tambm no veio se despedir, veio? Por favor, Maurice.
 - No, eu ainda me demoro bastante tempo. S irei ', embora quando voc
descobrir o amor, O amor que  tudo ; De mais belo que existe na vida.
Isso ainda vai levar  algum | tempo, meu querido. 3 Estvamos agora nos
fitando. No me conformava com a partid
 - Maurice ele partiu do meu corao. Maurice sorriu.
 - Ou foi voc que partiu do corao dele? Funguei e comentei
desanimado.
 - Acho que foram as duas coisas.

200

 QUARTO CAPTULO

AMOR

201

 RONDAVA A cozinha e Dadada me recriminou.
 - Voc no sabe que cozinha no  lugar para homem?
 - S queria saber de umas coisinhas, Dadada. Ela me apontou a direo
da porta.
 - Rua e j. No quero mais complicaes na minha vida. J se esqueceu
da histria da gatinha?
 - No tem ningum em casa e voc sabe de tudo direito. Dadada sentou-se
no tamborete e comeou a rir. Olhavame de cima abaixo como se analisasse
minha pessoa.
 - Puxa, Dadada, pensei que voc fosse minha amiga. Ela parou de
analisar-me.
 - Que idade voc tem agora?
 - Quinze anos quase. Esse ano termino meu curso ginasial e vou embora
para o Rio. Dadada assobiou.
 - O danado do tempo passa. Voc j est ficando um homem mesmo. Parece
que foi ontem. Um fedelho franzino e perrengue. Agora j botou calas
compridas. Daqui a  Pouco Est com bigode e barba.
 - E me caso.
 - L vem voc. Nem engrossou ainda direito essa fala de galo garnis e
j fica falando em besteiras.
 - Como apareceu aquela mocinha?
 - Acho melhor voc dar o fora que estou muito ocupada.
 - Ela  linda, no, Dadada?
 - No reparei direito.

202

 - No reparou e ficou conversando com ela um tempo L no muro. - pois
o muro no deixou ver direito.
 - Dolores. No  Dolores que ela se chama?
 - Como voc sabe?
 - No sou surdo e ouvi sua me chamando: Dolores! Ela  linda.
 - Nem tanto.
 -  sim. Linda, muito clara, olhos castanhos bem claros. m rosto que
parece uma rosa. Uma deusa. Divina. A mulher mais linda do mundo.
 - Chega de exagero.  uma moa bonitinha. S.
 - Voc no entende disso. Como  que ela apareceu? Nunca a tinha visto
antes.
 - E nem podia mesmo. Ela  filha nica daquele casal que no quer
relaes com ningum.
 - E onde estava escondida todo esse tempo?
 - Acabando os estudos interna num colgio do Rio. Chegou as frias e
ela veio. J falamos disso uma vez.
 - Voc sabe se ela vai demorar muito?
 - Parece que uns dias mais. O pai dela  do Banco do Brasil e j pediu
transferncia para Fortaleza. Senti uma pontada dolorida no corao.
 - Puxa que injustia da vida. Logo agora que estou loucamente
apaixonado!
 - Que apaixonado, menino! Voc l sabe o que  isso? O que est
dizendo? Nem sequer falou com a moa. Nem sequer sabe se ela gosta de
voc...
 - No gosta, mas vai me amar. Se vai. Fugiremos para a selva e antes
casaremos na misso de Frei Damio em Currais Novos.
 - Pare de dizer besteiras. E suma. Se a "Piranha" ouvir essa conversa
vai direitinho enredar a sua me e voc acaba interno de novo nos
Maristas. Agora, suma. Me  Deixe em paz. Tenho muita roupa para passar.
 - Por que voc no passa roupa na garagem? L tem mas espao e venta
mais. Dadada me olhou espantada. Por qu esse interese de ltima hora?

203

  - Estou pensando no seu bem, Dadada. E depois quando voc estiver
passando roupa na garagem, fica olhando quando minha me vem e me avisa.
 - Que diabo voc est inventando?
 -  simples. Quando eu estiver "noivando" com minha divina Dolores vai
ser no canto do muro. Da janela voc avisa tudo. Dadada pegou a vassoura
e me ameaou.
 - Suma daqui j. Seno o pau vai comer grosso. Dei uma gargalhada
porque sabia que Dadada nunca Faria nada contra mim. Entretanto
satisfeita uma parte da Minha  curiosidade escapuli da cozinha. Era a
coisa mais sem jeito do mundo. Mas meu corao dava pi olhos e cad
coragem? Ficava vermelho Como a careca do Padre Calasans. Quando
esbarrvamos nossos olhares, abaixvamos depressa para o muro,
completamente encabulados.  Queria demonstrar todo o meu afeto E o que
saa era aquilo.
 - Voc gosta de praia?
 - Gosto, mas papai no deixa. O sol daqui  muito forte e eu sou muito
branca. Disfarava minha vista para as suas mos esguias e bem feitas.
Ah! se eu pudesse  encost-las nos meus lbios e...
 - Voc toca piano?
 - No tenho nem nunca tive jeito para a msica. Sempre fui uma negao.
 - Pois eu no. Estudei uma poro de anos. Diabo eu no saber como
fazia Maurice nos filmes. Era olhar a menina, sorrir e...
 - Eu vi voc patinando na calada da balaustrada. Voc patina muito
bem.
 - No colgio a gente podia patinar nos recreios.  s uma questo de
prtica. Ficamos em silncio e eu de ouvido na janela da garagem onde
Dadada passava roupa.  Se ela comeasse a can-

204
 Tar uma embolada era porque a gente devia parar o noivado e sumir. Nada
naquele setor, tudo se transformava em paz e harmonia. Olhava como quem
no queria para  os seus cabelos encaracolados to louros, quase brancos
at. Divina. Maurice na certa j teri tinha que me ensinar uma poro de
coisas. Na certa ele me falaria: Essas coisas a gente no ensina.
Aprende-se sozinho. Ou ento: "Monpti, No acredite em tudo  que voc me
viu fazer. Aquilo  coisa de cinema."
 - Voc gosta de Tarz? Meu apelido no colgio  Tarz.
 - No gosto nem desgosto. Acho que no tenho muita tendncia para Jane.
Meu tipo mesmo  Clark Gable. Gosta dele?
 - Gosto muito. Um bom artista. Aquilo me desanimava. Afinal Clark Gable
era moreno, um monstro de forte e eu um frangote, meio desenvolvido,
estufando o peito  de tanto nadar e fazer exerccio Em Dona Celeste, a
bomba de encher pneus. Doa mais era o meu de Clark eram negros e lisos
e pendiam Sempre sobre a testa. Resolvi me vingar. Procurei uma artista
bem morena e de cabelos bem negros.
 - Eu adoro a Kay Francis.
 - Credo. Uma velha daquelas. Um cavalo de pau que no tem mais
tamanho. At que de rosto ela passa. E  elegante tambm. Mas muito
velha. Muito velha. Disfaramos  a conversa que estava se tornando
desagradvel. Dolores sentara-se totalmente no muro e e brilhavam
exageradamente. Devia estar usando os Sapatos do uniforme do colgio.
Imaginava que Dolores de maio deveria possuir um corpo muito bonito. A
sua cintura  era fina e delgada. Linda. Divina. Uma deusa. Parecia na A
indiferena desconhecer todo o amor que me consumia.

205

  - Daqui a pouco preciso ir embora. Antes que Mame desconie de alguma
coisa. Trubufe! Meu corao j sentia a partida, a ausncia, o esfriar
do meus anseios amorosos.   cruel vida;
 - J?
 -  preciso. Despedamos-nos. As mos se roavam apenas num tnue
adeus. Dolores descia do muro e sumia em direo ao quintal. Nem se
voltava para me dizer um  adeus. Meus olhos A acompanhavam e at a ponta
do meu corao lhe oferecia um aceno. Incrvel  tambm da hora do
Brasil. Depois que a santa calma reinava na famlia a gente se dirigia
para o terrao da frente. Cada um se munia Do seu tero e na penumbra
do grande terrao envidraado, olhando o mar perdido no negror da noite,
a gente orava em comunidade. At que aquele momento no se tornava
Desagradvel. Por vezes  um navio todo iluminado passava ao longe, ou se
encaminhava para a entrada da barra, buscando o porto no Rio Potengi.
Desagradvel era mesmo a conversa que se fazia  antes do incio da
orao. Sempre o assunto se referia a coisas da igreja, a tema de
meditaes. Meu corao estava assanhado de amor. Porque descendo e
subindo  a ladeira, Dolores enchia de msica a noite. A msica das rodas
dos seus patins. Como era linda, divina, elegante. Parecia at o retrao
da bailarina Ana Paviova  morrendo de cisne, na revista Vinda do Rio.
Mas assim no pensava a piranha da minha irm. - L est aquela exibida
de novo se mostrando. Todas as noites  a mesma  coisa. Meu pai
contraditou e como o amei nesse momento. - Ora, a mocinha no est
fazendo nada. At que pa tina com muita elegncia. E mesmo no incomoda
nin gum.

206
 O veneno piranhou em sua alma.
 - pra mim  que ela no est se exibindo. Uma marreca de pernas finas e
com cara de barata descascada. Urrei por dentro.
 - Burra velha! Anmica! Miss Temporal! Sifiltica! Cheiro de coto de
vela de igreja! Estampa desbotada de sabonete Eucalol! Bruxa! Fosse ela
uma lindeza como Dolores.  Tudo inveja de fsico de tbua de engomar em
p. Meu pai sentou-se na sua cadeira cost o tero entrasse em funo
qualquer coisa de religio Foi abordada. Mas meus olhos estavam noutro
canto. Meu corao patinava com Dolores que ia e vinha numa dana
vaporosa e sutil. Oh! Meu lindo amor! Deusa dos meus Sonhos! E logo no
meio do meu enlevo aquela conversa foi surgir e nem prestara a ateno
de como viera. Fui  despertado pela pergunta imprevista.
 - E o que voc faria? Diabo! Faria o qu? De que estavam falando?
 - Do martrio dos cristos. Meu Deus do cu e essa agora. O que  que
eu tinha com o martrio dos cristos. Uma coisa passada h tanto tempo.
Mas meu pai insistia.
 - Voc daria a vida pela causa. Se tornaria um mrtir? Fiquei um
momento sem responder.
 - Todos aqui aceitaram a coroa do martrio e se deixariam matar por
amor  religio. E voc? Diga o que faria. Eu... eu... Hesitava mas no
podia mentir.
 - O qu?
 - Eu acho que passava para o outro lado. J01 um Ptamento total. Um hum
unssono ecoou Pelo terrao envidraado. Tev comentou mais nada. S o
meu pai resignado  eve um omento de dor incontida.

207

  - Estamos criando uma vbora. Vamos rezar e pedir perdo a Deus de
tanta heresia. Creio em Deus padre... E Dolores rodopiando na dana. E a
gente com o tero  escorrendo por entre os dedos. Quando vinha o Bonde
que passava de vinte em vinte minutos ilum
 - Olha o bonde! A gente escondia o tero abaixando as mos para no
azer ostentao daquela hora de recolhimento e paz. O bonde voltava no
seu gemer reumtico  sobre os velhos trilhos E a gente suspendia o
tero. O bonde desaparecia e Dolores retornava e Barata descascada.
Barata descascada, pura inveja. Ave Maria cheia de graa. Como  que eu
poderia ser mrtir? Com quinze anos? Com uma vontade de nadar e de
viver.  De viver e de amar. Maurice me prometera isso no futuro e
acreditava que o amor me salvaria pela vida afora. S um bobo tendo um
amor to grande como Dolores ia  se atirar de graa nas Dentuas de um
leo luzidio ou de um tigre bem listrado. Com quinze anos eu pensar em
ficar crucificado de cabea pra baixo. Dar o meu pescoo  jovem para um
latago De um escravo decapitar... Glria ao Padre, ao Filho e ao
Esprito Santo. Assim como era  que no podia ficar. Negcio de
Martrio era para  os grandes, os que viveram Muito e foi noutro tempo.
No tempo em que ser santo se tornava mais fcil. L vem o bonde. O bonde
passou. Em seu lugar Dolores com  as suas piruetas maravilhosas. At que
no se podia chamar aquilo de pirueta. Porque na realidade ela s ia e
vinha subindo e descendo a calada da ladeira. Linda!  Divina! Maurice
voc precisa Me visitar para saber da novidade. Maurice, o seu Monpti
est amando. Loucamente apaixonado. Uma paixo que vai virar sculos.
 - Olha o bonde voltando. O terrao iluminado e a gente parando as
preces. O que no diria o motorneiro e o cobrador olhando aquela gente
de expresses paradas  como esttuas num terrao?

208
 Santa Maria, Me de Deus. Rogai por ns pecadores. Os outros, porque
no vejo pecado algum em meu corao de quinze anos estar amando dessa
maneira gostosa e at  Mesmo dolorida. A noite  to longa e no vou
viver nenhuma aventura de Tarz hoje. Vou  d Em meu peito. Pena ela no
gostar muito de Tarz e de selva. Mas com o tempo ela gostaria. Iria se
habituando. A  que eu lutaria com gorilas e crocodilos. Melhor
Dizendo jacars e onas porque no Brasil no havia daqueles espcimes. O
tero estaria no fim. Talvez no pegasse mas nenhum bonde. Heresia a
gente querer viver  uma vida que Deus nos deu para viver? Ora se ele
quisesse que eu morresse Nas bocarras dos tigres e dos lees, teria
deixado que o cao me comesse inteiro no  Rio Potengi. Aquela ideia
ainda me apavorava at agora. Se fechasse os olhos, Viria a barbatana
prateada passando junto ao meu rosto. E no queria nada daquilo.  Queria
sim era ver Dolores. Esperar que a noite passasse rapidamente. Que o sol
Viesse. Que aproveitasse a manh na praia. E que de tardinha ela
voltasse para  o muro com os seus sapatos de verniz e seu cabelo louro
encaracolado que a qualquer Onda de vento se movimentava como uma
cachoeira dourada. Salve Rainha. Estvamos  terminando e na certa meu
pai nem me daria a bno essa noite. Iria dormir com O corao magoado.
Um ser da sua casa com o corao cheio de apostasia. E eu doido  para
viver. Dolores parou. Parecia ter combinado com o tamanho do tero. A
empregada Chegou ao porto e lhe disse que sua me a chamava. A noite da
calada morrera  sem o som dos seus lindos patins.  vida Cruel! Amm.
Vou escovar os meus dentes. Meu corao deseja tanto encontrar Maurice.
Maurice que cada dia se distanciava  mais em suas visitas. Nunca o
apertaria tanto em meus braos. Iria beijar o seu rosto Como fazia tempo
no beijava. Ouviria dos seus lbios aquela observao.

209

1 Vamos aquecer o sol
  - Que  isso, Monpti? Perdeu a vergonha de estar se tornando um homem?
Me beijando tanto assim? A eu olharei em seus olhos claros e contarei
toda a verdade.
 - Maurice! Maurice! Voc estava com a razo. O amor  a coisa mais
linda do mundo. E estou amando. Loucamente apaixonado. Sabe como ela se
chama?
 - Diga, Monpti.
 - Simplesmente Dolores.

210

 QUINTO CAPTULO

PIRANHA DO AMOR DIVINO

-HUCH! Fayolle abriu os braos
para estreitar-me.
 - Abaixe-se um pouco. Pare de crescer, menino, seno no o poderei
abraar mais. Tinha ido  missa no colgio. No havia nenhum aluno.
Impressionante como os corredores  desertos, as salas mudas, o cheiro do
silncio tornava o colgio muito maior. Muito  o velho colgio vivia
cochilando, ansiando para que as frias logo se acabassem. A prpria
igreja parecia dividida em dois. A parte da frente do Padre Monte e  dos
Irmos, o vazio no meio onde ficavam os alunos e depois o povo. Tudo
murcho e abandonado. Os santos deveriam sentir falta tambm.
 - Pensei que voc j tivesse viajado para Recife.
 - Esse ano o nosso retiro vai ser mais tarde. Ento? Fez com que eu
desse meia volta para examinar-me melhor.
 - Terno novo?
 - Estreei hoje.
 - Tem ido  praia? Est bem preto.
 - E de nariz descascado. Agora tenho licena de demorar-me mais na
praia. Gostou mesmo da minha roupa nova? Eu quis que voc a visse at
mesmo antes de Dolores.  Fez um ar de espanto.
 - Dolores?  novidade?
 - Ah! Fayolle, nem lhe conto. Acho que apareceu meslio o grande amor
da minha vida. Deu uma risada.

211

  - Aos quinze anos?
 - Agora  diferente. Completamente diferente.
 - Ento voc me conta depois. Agora eu o convido para tomar caf no
refeitrio dos irmos.
 - Est bem. Aceito. Transpusemos os compridos corredores. As salas de
aulas com algumas janelas abertas para entrar ar e mostrar as carteiras
nuas e brilhantes.  O grande refeitrio Dos alunos internos com os
bancos encostados nas mesas pareciam ter cres presena pareceu alegrar a
todos. Os mesmos comentrios eram repetidos sobre o meu crescimento.
Irmo Luiz me perguntou.
 - No sente falta de ningum, Zca? Olhei os irmos um por um. Faltavem
uns trs rostos conhecidos, mas poderiam ter ido mais cedo para o grande
retiro espiritual.
 - Irmo Gonalo?
 - Foi-se embora.
 - Para Recife? Irmo Ambrsio demonstrou uma certa tristeza.
 - No. Para sempre.
 - Irmo Antonino?
 - Seguiu o caminho do Irmo Gonalo. , Zca, nem todos terminam a
trilha comeada. No falta mais ningum? Claro que havia uma ausncia e
fazia fora para lembrar-me.  m irmo imitou a risada da galinha. A meu
corao deu um tremor dolorido.
 - Irmo Manuel. Ele no podia...
 - Pois foi. Transferido para Macei.
 - Mas logo ele?
 - Meu amigo, a gente faz votos de obedincia, pobreza e castidade.
Felizmente Fayolle estava ali. Iria terminar o meu quinto ano ginasial e
ele no fora transferido.  Era uma graa do bom Deus. Irmo Ambrsio
indagou.

212

 - E o ambiente em casa?
 - Melhorou sim. No sei se porque cresci ou porque  assim mesmo, minha
casa ficou diferente.
 - Voc, cabra,  que ficou diferente! Geniosinho danado estava ali. Se
no colgio voc fazia daquelas, imagine em Casa.
 - Eu concordo. Irmo Ambrsio encostou a mo no bolso externo do meu
palet.
 - E isso, seu moo? Fiquei vermelho como um pimento.
 - J sabem em sua casa?
 - No. De jeito nenhum. Acho que nem desconfiam. Trouxe o mao de
cigarro  palma da mo.
 - Comprei ainda agora na venda de seu Artur.
 - Muito bem. Ento estamos ficando homem mesmo. Foi uma risada geral.
Escondi de novo o cigarro e acabei caindo no riso tambm. Samos do caf
e acompanhei Fayolle  at a secretaria. Sentamos como antigamente. S
que o silncio do colgio adormecido inco
 - Ento? Quero saber de tudo.
 - Simplesmente Dolores. Uma moa linda. Estou louco por ela, Fayolle.
 - E aquela Maria de Lourdes?
 - Aquilo era bobagem de menino. A gente s trocava bilhetinhos e ela
era magrelinha de dar d.
 - E aquela outra? Como era mesmo que se chamava?
 - Valdvia. Mas nem se compara. Uma gorduchinha cheia de no me toque
revirando os olhos toda hora. E ainda por cima a me obrigava ela ir a
matin de lao de fitas.
 - Voc diz isso agora, Chuch. Mas "naquele tempo" no havia coisa mais
linda no mundo para voc.
 - Agora, no, Fayolle. Dolores  maravilhosa. Contei tudo para ele. No
escondi nada. Mesmo porque no havia nada a esconder do nosso namoro.
Ele riu.
 - Chuch, voc vai fazer quinze anos mas tem o mesmo

213

 corao de criana. Graas a Deus. E isso vai ser assim pela vida
afora. Agora me conte o resto.
 - Que resto, Fayolle?
 - O seu sapo-cururu admite todo esse seu namoro. Senti um arranhado por
dentro. Por que a gente crescia?
 - Ado foi embora. Disse que me tornara um menino forte e corajoso e
que precisava tratar da sua vida. Apanhou a malinha, os culos, colocou
o chapeuzinho e o cachecol  E sumiu da minha ternura. Na verdade ele
sempre me ajudou muito.
 - E Maurice, Chuch? Fayolle me olhava com um carinho to acolhedor.
Interessava-se por tudo que envolvera a minha vida e os meus sonhos.
 - Voc vai pensar que eu sou doido, mas ele ainda me aparece.
 - Ficaria decepcionado seno fosse assim.
 - Uma vez Maurice me disse que iria embora quando eu descobrisse o
amor. Parece que ele tambm est indo. Poucas vezes me aparece. De longe
em longe tempo. Como  descobrira que me tornava triste, Fayolle mudou de
conversa.
 - Agora, Chuch, me conte uma histria. Mas sem mentir ou disfarar.
Promete?
 - Sem dvida.
 - E aquela histria das almas penadas da Mata de Manuel Machado? Sorri
gostosamente.
 - Acabou, no foi? Ningum mais ouviu falar disso.
 - Sei, Chuch, o povo acabou esquecendo. Mas tinha seu dedo naquilo
tudo.
 - Como desconfiou?
 - Por ser coisa exatamente do seu tipo. E mesmo porque tudo comeou a
aparecer quando sua famlia se mudou para Petrpolis.
 - Eu no podia lhe contar a verdade, Fayolle. Quando voc me perguntou
a primeira vez. Tinha feito um juramento de sangue com Tarz... Voc
sabe coisas de menino  Sonhador.

214

 - Chuch, Chuch!... Que perigo voc passou. E se lhe dessem um tiro
naquelas noites. Inda bem que tudo acabou Bem. Levantei-me.
 - Preciso ir, Fayolle. Esto me esperando l em casa. Meu corao se
desanuviou quando ele me falou alegre.
 - Aproveite a vida, Chuch. Enquanto tiver sonhos no corao procure
conserv-los. Eu voltarei de Recife e verei voc terminar o seu curso. E
sabe de uma coisa?  Depois Do retiro, os irmos vo passar um ms na
praia.
 - At logo, Fayolle. Deu um tapinha nas minhas costas.
 - Cuide-se bem, meu filho. Dadada passando ferro na paz da garagem e a
gente noivando.
 - Que voc fez no domingo?
 - Bem pouca coisa. E voc?
 - Fui  missa nos Maristas. Tomei caf com eles. Que mais? Deixe eu
ver. Bom, trs irmos foram embora. Um deles eu fiquei com muita pena.
Agora quando chegar o  Reinicio das aulas aparecem novas caras. E  bom
a gente comear a fazer camaradagem com ele
 - Voc gosta dos padres do seu colgio?
 - No so padres. So irmos. Gosto muito.
 - Pois eu quando sair do colgio no quero ver a cara de uma s freira.
J basta o que penei com elas.
 - No sobra nenhuma delas?
 - Nenhuma. Uma por outra no quero troca. Calvamos por segundo. E eu
no sabia se o "noivado" dos outros era diferente do nosso. Se falavam
outras coisas. S sei   que me sentia o homem mais feliz da vida ao
lado de Dolores. Felicidade devia ser aquilo Muito estranho, porque s
quem era noivo era eu. Dolores quando podia me picava de dor lembrando
que breve estaria partindo para o Cear.
 - S quatorze dias?

215

  - Somente.
 - E voc vai me escrever?
 - De que maneira?
 -  verdade, voc  muito vigiada por seus pais. Veio uma onda de
ternura me invadindo.
 - De noite olhe as estrelas que eu estou mandando saudades por elas.
 - E se chover? Ficava sem responder. Porque na certa a chuva molhava as
saudades tornando-as pesadas e retardando sua viagem.
 - Voc foi  praia domingo?
 - Fui.
 - Muitas pequenas?
 - Fui para tomar sol e nadar. No penso noutra pequena, s em voc.
Dolores colocou a minha mo debaixo da sua. Aquilo me inundou de
felicidade. Nunca fizera isso  antes. Sua mo estava perfumada de gua
de colnia. De noite dormiria Com a mo pendurada  Dolores. Dadada
cantou a embolada. Dolores escorregou muro abaixo e eu pulei para o lado
das telhas velhas. Fingi que estava amontoando as melhores. Minha irm
botou a carranca na janela. Fingi que no a via.
 - Faz uma eternidade que voc anda arrumando essas telhas a. Levantei
a vista com desprezo.
 - E isso no  da sua conta, sua... Como um cuco ela retirou a cabea.
O diabo da bruxa estava desconfiando do negcio. Na certa quando se
certificasse faria um  enredo dos diabos. O corao me avisava Que eu me
fosse preparando. Dadada, voc acha Dolore tem pernas de serigaita? No
sei porque.

216

 - Ela  marreca de pernas finas?
 - No.
 - Nem tem cara de barata descascada?
 - Nenhuma dessas coisas. Por que tanta pergunta?
 -  porque ela, a piranha, vive botando defeito em Dolores. Diz que ela
 careca e espinhuda.
 - No ligue, bobo.  inveja. Inveja quando no mata ale j a. Dolores
tem alguma espinha no rosto porque toda moa nessa idade tem.
 - Mas voc acha que ela  careca?
 - Ao contrrio. Sua testa  larga mas os seus cabelos so um sonho.
Muita gente gostava de ter um cabelo to lindo assim. Vinha ento aquela
revolta me corroendo.
 - Piranha. Piranha. Piranha do amor divino. Vive batendo naquele peito
seco, arrotando jaculatrias. Pendurando o beio de rezar e infernizando
a vida da gente.  Voc acha Dadada, que ela vai se casar um dia?
 - Casamento ou mortalha no cu se talha. Quem sabe? Dadada ficou
arremedando a voz da minha irm.
 - Com Dr. Fulano eu no caso porque  muito farrista. Com Dr. Sicrano
tambm no, porque  esprita. Com o Dr. Beltrano no posso porque no 
catlico. S me caso  Com um homem que tenha a mesma religio que a
minha... Dei uma sonora gargalhada.
 - Voc imita igualzinho, Dadada.
 - Tambm com tempo que estou nessa casa, s uma muito burra no
aprenderia tudo. Deu uma passada caprichada numa camisa. Parou o ferro e
concluiu.
 - Conheo muita gente nesse caso. Escolhe que escolhe e o tempo passa.
Quando elas descobrem que o carito chegou, d o desespero e s no casam
com carrapato porque  No sabem quem  o macho. Recomeou o servio e
deu a ordem sem levantar a vista. Agora  servio. E tome cuidado que a
coisa t ficando preta. Jacar j desconfiou. Qualquer hora dessas vai
parar de interno nos maristas.

217

  - Agora no d. O colgio est fechado e os irmos foram todos para
Recife.
 - Ou ento no sei. S sei que d um "frenesim" danado quando quero
pensar no meu trabalho e uma pessoa fica me importunando a pacincia.
Olhei o rosto caboclo  de Isaura.
 - Voc nunca quis casar, Dadada?
 - Pobre no tem tempo pra essas coisas.
 - Eu vi sua prima Rosa falando que voc foi noiva de Lampeo quando ele
atacou Mossor. Ela suspendeu o ferro em minha direo e ameaou.
 - Suma j ou eu te esquento a padaria. Desapareci da garagem o mais
depressa possvel.

218

 SEXTO CAPTULO

A ESTRELA, O NAVIO E A SAUDADE

FALTAVAM TRS DIAS para a
partida de Dolores quando a tragdia explodiu. Vivia contando os dias
que passavam com  uma agonia danada. Nem sabia se o meu corao poderia
Resistir a tanta dor. Por isso aproveit Guardvamos silncio e nos
consolvamos com a presena Um do outro. Agora era eu que tomava suas
mos nas minhas e ficava uma eternidade alisando os seus dedos  longos.
Pra que falar? ramos jovens demais para fazer qualquer Plano no futuro.
A nossa mocidade proibia qualquer sonho, qualquer possibilidade...
 - E se a gente fugisse? Dolores mais realista contestava a hiptese.
 - Fugir para onde? No iramos muito longe. A polcia pegaria a gente
antes que chegssemos  Paraba. Sem dinheiro nada se pode fazer. Melhor
 dar o tempo ao  Tempo. E mais tarde a gente tornar a se encontrar.
 - E voc me espera?
 - Toda a vida. E voc?
 - Toda uma eternidade. Podia constatar nos ltimos dias que ela tambm
ficara "noiva". Que adquirira os mesmos sentimentos meus. Com a unha ela
riscou no muro  dois coraes entrelaados por uma flecha incendiada de
amor. No eram muito bem feitos porque que os coraes fossem meio
trpegos e gordinhos? O que valia era a subline inteno.

219

 De repente Isaura cantou uma embolada a todos os pulmes. At na praia
de Areia Preta dava para escutar. Dolores deslizou para baixo e eu pulei
a arrumar aquelas  velhas telhas. Dadada estava ferrada numa discusso
danada com a Piranha do amor divino. Tr e exclamando: Imoralidade.
Fiquei branco. Teria nos descoberto? Teria presenciado alguma coisa.
 - Que foi, Dadada? Dadada estava fula da vida e descarregou tudo em
mim.
 - Viu em que d servir de bab de namoro de criana? Ouvi o que nunca
escutei em minha vida.
 - Calma, Dadada. Conte o que foi. Ela respirou fundo tentando se
concentrar. Seu rosto caboclo tornara-se roxo de raiva.
 - Ela veio chegando e comecei a cantar baixinho, para que vocs dessem
o fora. Quando vi que ela ia diretinho  janela cantei uma embolada
"forte" para desviar  A Ateno dela. Repetiu a embolada que cantara e
quase estourei na risada. "Embola pai, embola me, embola fia Embola
toda a famia Que eu tambm quero embola... Dona Chiquinha porque chora
essa criana Chora de barriga cheia Com vontade  de caga..."
 - Quando ela ouviu o final me descomps toda. Que aquela casa era casa
de famlia e o que eu cantava era uma indecncia, uma imoralidade. Que
ela ia contar tudo  L dentro. Pior  que ela disse que eu agora vivia
escondida na garagem. Que estava encobrin
 - Ora isso no d em nada. Se ela contar pr meu pai ou pra minha me
eles vo at rir.
 - Pois espere por uma coisa. Pelo jeito ela viu um pouco de vocs
naquele namoro.

220

 - E se viu, no viu nada demais. Nunca fizemos nada que ferisse a
moralidade. Dadada encontrava-se inconformada.
 - Acho que j demorei muito nessa casa. Qualquer hora dessas arrumo
meus "trens" e vou procurar rumo Novo. - Bobagem, Dadada. Isso passa.
Sa do ambiente meio  receoso. Na minha cama revivia a cena revoltado.
Que mal fizramos? Que grande pecado seria aq a honra das filhas
alheias. Tudo uma coisa muito feia. Agarradinhos? Rosto contra rosto?
Onde estavam os meus princpios De moral? Aquela ideia de fugir era uma
loucura, no estava vendo? Iriam avisar a Polcia. Estariam todos de
prontido. O que eu pensava da vida? Casar com menos De quinze anos?
Loucura das maiores...  Ficava matutando como deduziram tudo aquilo.
Porque nem Isaura sabia o contedo completo das nossas conversas. E se
soubesse no diria nada de nada. Que humanidade  Nojenta. Que gente to
cheia de maus juzos e condenaes. E o resultado de tudo? Bem, no
poderia ir ao quintal at que a moa partisse. Deixariam que fosse 
praia  Porque l estaria mais longe das tentaes. De tarde, teria que
dar umas voltas at a hora do jantar. Depois da janta, no arredaria o
p de casa nem para dar uma  Volta pela calada da balaustrada. Isso o
que se referia a mim. E Dolores? Dolores foi castigada duramente. Dadada
me contara que ela levou uns cascudos e outras  Coisas mais duras. Que
at a partida ficaria reclusa no quarto, s saindo para as refeies e
supostas idas ao banheiro. At as nossas empregadas foram proibidas  De
falar. E o que doa mais. O que doa mais era saber que duas horas antes
de dormir, Dolores teria que ficar ajoelhada com uma cadeira de braos
na cabea. Como  Isaura soubera de tudo isso se estava proibida de
conversar com a empregada da outra casa? Um mistrio.

221

 Mal acabava de jantar e penetrava no meu quarto sem saber do que se
passava no mundo. Sem desejar conversar com ningum. S com a minha dor
mordida. Com os olhos  Cheios dgua pensando em Dolores que naquela hora
estaria pagando o seu castigo. Se pelo me Cadeira de braos na cabea.
Nem me importava que fosse uma cadeira, um sof ou a moblia inteira. O
que sangrava meu corao era no poder v-la e no partilhar  Da sua
desventura. Porque se tnhamos alguma culpa devamos pagar do mesmo
jeito, dividir o nosso grande pecado conjuntamente. Rolava com o corpo
porejado de suor  e agonia. O corao diminura tanto que se fosse
preciso abrigar Ado no comportaria mais. No cabia nada nem mesmo uma
pererequinha Desbotada de banheiro. Longe  de mim a ideia de vestir
tanga da camisa de ginstica e pegar a faca de abrir papel. Nem vontade
de voltar a ser Tarz me acometia. Era melhor deixar Tarz De  lado,
porque naquela hora estava entre desanimado e furioso. Tarz que ficasse
na sua selva com as suas macacas pulguentas e piolhudas. S no
vociferava contra  Maurice. Esse no. Mas estranhamente no sentia
desejos de v-lo e contar-lhe o tamanho do meu infortnio. E aquilo
acontecia talvez pela Primeira vez. No mais  vi Dolores. O seu castigo
era feroz. Creio que pensando que eu notasse ela dirigiu uma vez a
lanterna eltrica para o lado da cozinha. Naquele rpido lampejo Queria
dizer que me amava e que no me esqueceria jamais na vida. Tudo acabado.
Tudo morto. Corao pra qu? Que adiantava dizer qualquer coisa. Dolores
partira e nem  sequer vira quando pegou o automvel e se foi para o
cais. Tinham Feito mistrio da data da sua partida. Do navio que iriam
tomar. E eu? Estava ali. Sozinho como  nascera. Vazio por dentro
esperando que um vento enorme soprasse Sobre

222
 Meu corpo e me levasse para um canto do mar de onde visse passar o
navio de Dolores. Era sina do seu prprio nome: Dolor, Dolores... Da
praia descobri que a  mar enchente viria perto das oito horas. E com a
mar cheia o navio de Dolores, sairia da barra que passeasse na calada
entre as luzes da balaustrada. Sabiam at que eu procuraria a descida da
praia para me sentar na amurada e Ver o navio desaparecer aos
pouquinhos. Foi o que fiz. Sentado sobre a minha solido fiquei
aguardando o navio iluminado que atravessaria as guas do Rio Potengi.
No liguei as consequncias  e tirei um Cigarro do bolso. Jogava as
baforadas para o ar e sentia que algo meu acompanhava aquela partida.
Comecei a cantar uma cantiga que era minha e de Dolores. "Olha pr cu
V como est lindo o luar. Parece que as estrelas esto bailando Em
volta da lua que reflete L no mar." No havia lua. O cu era todo um
vespeiro  de estrelas. Estrelas fazendo desenhos de tudo. At a
constelao do Navio parecia querer relembrar a minha dor. Sirius Estava
l. Canopus tambm. Bom Padre Monte  que me ensinara a olhar um pouco do
cu. Continuava a minha cantiga com os olhos quase cheios d'gua.
"Tambm no cu da minha vida Voc foi a estrela que muito brilhou E numa
noite linda voc foi embora E nunca mais voltou..." Ser que voc volta,
Dolores? To  difcil. Tudo to impossvel e longe. E vinha a saudade
danada corroendo minhas lembranas. As suas mos de dedos longos. Afinal
Ela desistira de Clark Gable para  me querer. Podia haver maior prova de
amor? Nem sequer poderia escrever-lhe. Partiu sem me deixar um endereo.
E se me escrevesse Na certa a carta seria interceptada  e no chegaria
s minhas mos.

223

 "As vezes fico a pensar Vendo a lua no cu que se pe a brilhar... E a
lua vem baixinho Dizer com carinho Que voc h-de voltar..." Os olhos
fitos na entrada  da barra. As pequenas luzes das casas dos pescadores
brilhando pequenas como estrelas menores.  majestoso com todas as suas
luzes acesas. Devia apitar para despedir-se do Prtico ou dar adeus s
guas do rio. Engoli em seco seguindo a sua caminhada indiferente.  Ele
levava a metade da minha vida. Metade, no. Toda a minha vida. Todo o
meu corao. Toda a minha angstia Fria. O vapor seguiu em linha reta um
pedao de tempo  at alcanar o mar alto. Depois embicou para a direo
norte. E Dolores? Deixariam que ela ficasse no tombadilho Olhando a
cidade a se perder? Olhando o colarzinho  de luzes que formavam a
balaustrada de Petrpolis. Pensando na calada onde tanto fizera
evolues com os seus Patins. " uma marreca de pernas finas. Uma barata
descascada..." Por que existia gente ruim assim. Tudo poderia ter
acabado to sem maldade. Faltavam somente trs dias.  Era preciso uma
ruindade daquelas? O navio desaparecia entre as estrelas do mar. Dessa
vez meus olhos estavam amontoados de lgrimas. Chorava pelo meu
desespero  e abandono. Por ser to pequeno e frgil e nada poder fazer.
"E a lua vem baixinho Dizer com carinho Que voc h-de voltar..." No me
iludia com coisa alguma. Dolores no voltaria. O corao me afirmava
essa realidade.  No lugar do navio s existia a noite escura cheias de
estrelas e o mar Negro e mudo. Sirius era dona do cu. Canopus tambm.
Lua cad? No havia nada de lua. S  saudade. E se houvesse lua ela no
viria me falar aquilo. Falar de carinho Pra qu? Carinho, uma coisa que
eu conhecia muito pouco na vida.

224

 STIMO CAPTULO

PARTIR

Meu QUINTO ano ginasial surgiu quase ao mesmo
tempo em que completava quinze anos. E com quinze anos j me sentia
quase um homem. A liberdade de sair  noite at  s nove horas, demorar
na praia o tempo que quisesse. Ostentar um cigarro nos dedos atrevidos
do comeo da adolescncia. Ganhar um estojo de barbear para executar
Com orgulho as primeiras barbas, falar alto para demonstrar que a fala
engrossara. Frequentar os sales de bilhar e jogar uma partida numa hora
em que devia estar  Na aula. Flertar com elegncia as meninas do colgio
da Conceio. Enfim um mundo imenso que me abria as portas no s para a
curiosidade como tambm para a procura  De uma afirmao. Dolores? Ora
Dolores. Fora muito bonito enquanto durara. Afinal uma pequena iluso do
resto da minha meninice. Importante agora era frequentar  as sesses das
quarta-feiras, Sesso de mocidade, onde as mulheres mais lindas do mundo
proliferavam. Todos iam para o namoro. Para buscar novas sensaes
romnticas.  E eu no meio de todos para Acompanhar o movimento da moda.
O mximo era se ficar  porta do cinema com um cigarro nos lbios e
sorrir com indiferena para as colegiais  quase sempre acompanhadas Por
uma tia carito ou uma me inoportuna. E com tudo isso meus estudos
relaxaram um pouco. Deixei de ser o primeiro aluno para conseguir  com
dificuldades o segundo posto. Os livros que lia evoluram muito o meu
gosto. Cascudmho continuava a emprestar livros para o meu pai.

225

15 Vmos aquecer o sol
 Mas como quem no queria deixava que eu escolhesse os livros a meu bei
prazer. Foi assim que fiquei ntimo de um monstro maravilhoso chamado
Dostoievsky. As coisas  Srias foram tomando o lugar aberto para as
aventuras e para os meus heris queridos como Estufar o peito em
distncias enormes e sentir o corpo leve deslisando e os braos fortes
que no se cansavam nunca. Tornar o corpo bronzeado o tempo todo. Sorver
o ar marinho e repousar nas brancas areias com tanguinhas smticas. De
noite a ronda para procurar pequenas bonitinhas, mas tudo sem ter o
conhecimento da maldade.  Fayolle me observava e continuava dono de
todas as minhas confidncias. Entretanto algo o preocupava muito. A
minha indiferena quanto ao meu futuro. Tarcsio j  Optara para um
curso de advocacia. Todos planejavam alguma coisa na minha srie. Mas eu
nada.
 - Nem medicina, Chuch?
 - Qual o que, Fayolle.
 - E por que no? Seguiria a carreira do seu pai. Coava a cabea.
 - Quem sabe se um dia.
 - J pensou em advocacia. Voc seguiria juntamente os passos de
Tarcsio to seu amigo.
 - Seria bom.
 - E a carreira militar? Voc se adaptaria bem com todo esse fsico a
uma farda. Via-me de oficial do exrcito, enxergava-me com o uniforme da
marinha, mas entusiasmo  cad? Se houvesse carreira de nadador
profissional talvez. Mas nem isso me Entusiasmava compromisso. Como se a
vida fosse um descer de trem, andar nas estradas, tomar Navios e no
parar nunca. No sabia me explicar. Todavia s aquele desejo de ir  cada
vez mais para longe. Mas uma lonjura que a gente no voltasse nunca.
Fosse andando Sempre...

226
 E a vida passou. Passou to lgera que  nem sentia. A vida tambm
caminhava sem parar sobre o meu corpo. Foi a que eu comecei a descobrir
uma coisa. Uma coisa  que Maurice me falara sempre que um dia iria
acontecer. Comecei a ser amigo do meu pai e a g criarse uma criana,
mormente quando no se era filho e tinhase uma precocidade
desorientante. Apesar de Haver sempre uma parede entre ns. Parede
criada naturalmente  por mim. Com o correr dos dias muitas vezes aquele
pensamento angustioso me perseguia. O ano j passara do meio e logo
viriam as terceiras provas e por fim as quartas  e ltimas. Estaria
formado. Precisava corresponder ao esforo que fizeram por mim. E o
medo? Um medo que nem uma dezena de sapos-cururus amenizariam.
Terminando  o curso teria Que partir. Voltaria ao Rio. E como seria a
minha vida com os meus irmos? Tnhamos-nos separado bastante. E como me
veriam? Naturalmente com alegria.  Mas eu era Outro. Um menino com
educao e estudos. Um menino ou um rapaz de malas cheias de roupa e
bons calados. Um rapaz com os dentes bem tratados. E eles?  A vida das
Fbricas. As viagens massacradas de trem para trabalhar na cidade.
Levantar de madrugada e voltar de noite. Chuva e calor naqueles trens
ora abafados  ora gelados. Nem sempre almoando porque as marmitas por
vezes azedavam a comida. Sem chance, ou pouca chance na vida por falta
de melhores estudos e preparo...  Tudo aquilo apareceria De um j ato no
momento que desembarcasse no Rio. Um mundo to cruel e adverso como
aquele em que vivera no tempo do meu p de laranjalima.  Suava frio ao
pensar em Tudo aquilo e tentava me consolar. Darei um jeito. Darei um
jeito de no enxergar as coisas malvadas da vida e de me adaptar a
qualquer  eio. O pior era quando descobrissem Que eu no queria ser
nada. Ou que pelo menos no encontrara ainda o meu cannnho na vida. Uma
decepo. Talvez qualquer dos  meus rmos merecessem mais a oportunidade
Que me deram e que desperdiava indiferente. Melhor esquecer. Esquecer

227

 e nadar. Nadar e rasgar o mar em pedacinhos gostosos contra o meu corpo
forte como se nadar fosse uma maneira diferente de caminhar. Gostava de
apreciar Tarcsio  jogando futebol. Era lateral direito do primeiro
time. Jogava com uma elegncia impressiona vinha atrada para os seus
ps. Tarcsio sim, um amigo. Sempre com aquele jeito calado, s
gostando de conversar comigo. Compreendendo Pacientemente toda a
maluquice  que me vinha  cabea. Cimentando em seus ideais a carreira
ingrata da advocacia. E eu? Falava o corao sem o consolo do meu
sapo-cururu: E voc, Zez? Ora deixe  de coisas, alguma coisa vai me
aparecer, no  possvel. Por enquanto vamos andar e esperar. Mas, Zez,
esperar andando? Claro, que outro Jeito poderia haver comigo? * *
Encontrava-me no quarto, reclinado na cama, com um livro de
trigonometria e uma tbua de logaritmos. No que estivesse de certo modo
estudando. Entretanto  analisava Comigo mesmo a inutilidade de certos
estudos. Que iria me adiantar no futuro as declinaes latinas, rosa,
rosae? Por que me empanturrar com aqueles  antipticos Logaritmos se no
via nenhuma correspondncia com qualquer carreira que pensasse
ingressar? No era uma burrice ter rebentado a cabea sob os berros  do
Irmo Jos  (que no morrera para que o colgio tivesse trs dias
feriados e que no fora assassinado por mim l da torre. Adeus Legio
Estrangeira) com os clculos da raiz  Cbica? Estava to preso ao meu
desapontamento que no senti a porta abrir-se e um vulto parar a minha
frente.
 - Monpti! Levei um susto to grande que soltei os livros no cho.
Maurice ria gostosamente.
 - Que  isso, parece que est vendo um fantasma? Fiquei calado,
tremendo sem responder. De h muito me habituara que Maurice tinha sido
um dos mais lindos sonhos  Da minha vida. Um cofre secreto de toda minha
ternura extravasada.

228

 - Levante-se, Monpti. Obedeci lentamente.
 - Vire-se. Maurice estalou os dedos no ar e comentou.
 - Meu Deus, como voc cresceu. Que forte est, Monpti. E todo
bronzeado. Eu s olhava fascinado nos seus olhos. Sem saber se chorava
ou sorria. Ou mesmo se estava  fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.
 - No se esqueceu de alguma coisa, Monpti? Claro que no me esquecera.
As suas prprias palavras recordando em meus ouvidos: mesmo que fique um
homem ter sempre  de me beijar como um pai. E por que no? No tinha
sido ele que me embalara na solido do m o meu dormir? Abriu os braos.
 - O que est esperando?
 - Nada. Joguei-me em seus braos e beijei o seu rosto. Apertei-o com
fora contra o meu corao.
 - Ah! Maurice fazia tanto tempo que voc no me aparecia. Procurou
sentar-se e deu por falta de alguma coisa.
 - Cad Orozimba Chevalier?
 - Acharam que eu estava ficando rapaz e que merecia coisa melhor e mais
nova no quarto. Puxei uma poltrona sem significado e sem nome.
 - Sente-se nessa. No foi baizada mas  muito confortvel. Ficou a
olhar-me um segundo, mas bem dentro dos olhos, depois tomou a deciso de
sentar-se.
 - Tanto tempo, no Maurice?
 - Sim.  verdade. Mas andei to ocupado com tanto contrato de cassino,
cinema, shows. Foi um tal de no parar... E como sabia de uma coisa.
 - Que coisa?
 - - - Que voc avanava e descobria a vida sozinho. Que no iria sentir
tanto a minha falta... no  verdade?

229

  - Talvez. Talvez os meus dias fossem muito cheios. Talvez e
infelizmente quando chegava a hora de dormir vinha to cansado que mal
deitava a cabea no travesseiro  J estava dormindo. Tinha vezes que nem
rezar chegava.
 - Eu sabia. Agora me conte. Me conte tudo.
 - Sobre o qu?
 - Ora, temos tanto a conversar. Minha vida voc j sabe, no
diferenciou muito dos outros tempos. Mas, a sua?
 - No sei como comear. Confesso que me desabituei um pouco de voc,
meu querido Maurice.
 - Ento eu o ajudo. Como vai sua vida aqui nessa casa?
 - Sabe que muito bem? Comecei a descobrir coisas novas, fatos novos,
que me convenceram de que ningum aqui  inimigo meu.
 - No disse?
 - Meu pai est revelando encantos comigo que antes nunca demonstrara!
 - Talvez porque voc nunca lhe tivesse dado uma oportunidade.
 - Seria at capaz de confessar uma coisa.
 - Pois diga ento.
 - Eles so timos. Muito bons. Foi uma misso difcil e espinhosa em
educar-me. A verdade eu  que no presto para nada.
 - Concordo com a primeira parte. A segunda no. Confio muito em voc e
na bondade desse corao. Quem teve a capacidade de sempre sonhar coisas
to lindas s poder  Encontrar uma vida maravilhosa pela frente. Voc
se lembra de Ado?
 - Claro, Maurice. Foi to real que parece que o estou vendo agora.
 - Isso me deixa contente, Monpti. Porque na vida voc vai ser sempre
uma criana grande.
 - Est repetindo as mesmas palavras amigas de Fayolle.
 - E ele, como vai?
 - No muda, o mesmo de sempre. Nunca teve uma palavra spera comigo.
Sempre esperando de mim o melhor.

230
 Maurice recostou-se na cadeira.
 - Sabe que vim muito cansado hoje. Mas no poderia deixar de vir. Hoje
especialmente. - por que esse especialmente?
 - Depois lhe digo. Analisou demoradamente o teto e depois os seus
olhos, olhos claros buscando os meus. Sempre gostei de falar com as
pessoas que no desviassem  os olhos. Aquilo me Proporcionava um sinal
de segurana e f.
 - E o corao, Monpti?
 - Descobri, Maurice. Descobri aquilo que voc me ensinara faz tempo.
Descobri que o amor  a coisa mais importante do mundo. Narrei-lhe com
detalhes o meu amor  por Dolores. Depois outras pequenas conquistas sem
maior importncia. Quando acabei ele sorri
 - Sim. Isso  o embrio. O comeo. Porque no dia que voc amar mesmo
pode ficar certo que no haver coisa nem felicidade mais linda nesse
mundo. Fez um gesto  que nunca fizera antes.
 - Voc se incomoda que eu fume?
 - No. Por qu?
 - Por que tem gente que detesta fumar no quarto ou que se fume nele.
 - Mesmo que no gostasse eu seria o primeiro a oferecer os cigarros.
Agradeceu e sorriu.
 - Quer dizer que voc j...
 - Meia carteira por dia e escondido.
 - Estou contente, Monpti. Muito contente com voc. Muito contente
porque na realidade voc est se tornando um homenzinho. Agora sim, um
homenzinho. E foi por isso  Que lhe disse no comeo que hoje era um dia
especial. De repente meu corao deu uma guin
 - Exatamente, Monpti. Eu lhe falei uma vez que quando voc descobrisse
o amor no precisaria mais de mim.
 - Quer dizer que vai me deixar como Ado o fez?
 - Voc vai descobrir que o farei da mesma maneira.

231

 Engoli em seco.
 - Mas Ado era um sapo. Um sonho.
 - E eu no sou a mesma coisa?
 - Como a mesma coisa. Posso toc-lo e ver que voc  real como sempre o
foi. Para provar apertei-lhe demoradamente a mo.
 - Monpti. A vida  assim. A gente est sempre partindo. No que o
corao esquea ou a saudade morra. Essas coisas sempre permanecem em
nossa ternura. Mas a gente  Precisa partir no momento exato. Meus olhos
estavam se enchendo de lgrimas.
 - No quero isso, Monpti. E para espanto maior, Maurice retirou do
bolso um leno finssimo de cambraia mas de xadrezinho branco e preto.
At ele, Meu Deus. Enxugou  o meu rosto com delicadeza.
 - No quero partir vendo suas lgrimas. Tentei controlar-me engolindo a
emoo aos poucos.
 - Tudo que me cabia era desabrochar no seu corao um mundo de
esperanas e sobretudo o amor. Agora, Monpti, eu vou partir. Abraou-me
demoradamente e me ofereceu  o rosto para beij-lo.
 - Nunca mais nos encontraremos, Maurice?
 - Claro, sim. Um dia. Quando formos mais homens e mais maduros. Pela
ltima vez me olhou nos olhos com toda a sua franqueza.
 - E tem mais uma coisa. Seja quando for. Quando nos encontrarmos mesmo
que voc seja um homem feito e realizado, no esquecer que me prometeu
um dia. Sabia o que  estava falando. Que eu devia beij-lo como um pai,
sem receio algum ou qualquer resqucio d
 - Promete?
 - Prometo.
 - Ento adeus, Monpti.
 - Adeus, Maurice.

232
 Minha voz enrouquecera tentando substituir aquilo que meus olhos
estavam proibidos de fazer. O rudo dos livros caindo no cho me
despertaram. Estava s, reclinado  na cama. O corpo meio dolorido da
posio. Meus olhos umedecidos, com a presena da luz a expediente de
Ado. Viera como um sonho e partira em outro sonho. Por que tudo devia
partir na vida? Simplesmente, Zez, porque nascer  partir. Partir desde
a  primeira hora comeada. Desde o primeiro momento respirado. E voc
no pode lutar contra a dura realidade da vida. A porta do meu quarto
abriu-se devagar. Assustei-me  de novo. Teria Maurice esquecido de me
dizer alguma coisa? Em vez dele surgiu o rosto moreno do meu pai que me
Olhava preocupado.
 - Est sentindo alguma coisa? Fui ao banheiro e vi a luz acesa do seu
quarto.
 - No  nada. Precisei estudar at mais tarde.
 - Pois  hora de parar. J passa de uma hora da manh. Olhou-me
atentamente.
 - Voc est com os olhos muito vermelhos, congestionados. No banheiro
tem colrio, no meu armrio.
 - Vou us-lo sim. Sorriu pra mim.
 - V dormir. Boa-noite. Estranho que pela primeira vez ele vinha ao meu
quarto me dar boa-noite. E aquele seu gesto fez nascer um pequeno sol de
agradecimento.

233

 OITAVO CAPTULO

A VIAGEM

L CORRIA aos borbotes. Num timo, j
terminara as ltimas provas do quinto ano ginasial. Passara mal me
equilibrando no segundo lugar,  quebrando a srie dos Primeiros tirados
nos anos anteriores. Num fechar de olhos encontra feiamente na eleio
Do orador da turma. S obtivera dois votos, o meu e de um outro colega.
Fiasco total. A festa seria no dia 23 de novembro no Teatro Carlos
Gomes. A solenidade era assunto constante de Natal. O governador Raphael
Fernandes estaria na entrega dos diplomas. Festana. O Irmo Luiz
ensaiava uma pea com  ndios com penas de espanador. Tudo uma lindeza
at o momento de comear. Em pleno funcionamento deu-se a "melodia".
Estourou a revoluo de 1935. Foi um fogo  na cangica. O alvo tornou-se
o prprio teatro com o governador dentro. Metralhadoras por toda parte
fustigando a parede Do prdio. Todo mundo parecia barata tonta.  Cad
formatura? Cad festa? Cad pea de teatro. O "Triunfo da Cruz" foi por
gua abaixo. Era a gente sentada no palco, Nas cadeirinhas em fila
comeando a debandar.  Os irmos corriam pedindo calma e ordem. ndios
de pena de espanador esbarrando com os empregados do teatro que por Sua
vez tropeavam nos formandos cujas famlias  dependuradas nos camarotes
faziam sinal para que sassemos todos do palco. Foi a coisa mais gozada
que meus olhos De quinze anos tinham visto at aquele momento.

234

 O governador desapareceu como por milagre. Ningum soube imaginar como
o fizera com todo o teatro cercado e a bala comendo feio. Foram cincos
dias de pnico.  Os revolucionrios comearam a bater em retirada e at
procuraram meu pai em casa para lev-lo a fim de que tratasse dos
feridos. Mal Adivinhavam que ele tambm  estava na solenidade. As noites
choviam balas. O quartel da Polcia Militar ficou em petio de misria.
A gente se abrigou numa casa vizinha do teatro e ningum  botava o olho
na rua. Cinco dias numa casa atravancada. Com a cretina roupa de
casemira azul ardendo no calor da casa abafada. At que veio a notcia
de que os  rebeldes estavam fugindo para o interior do Estado. Eu tive
ordem de sair procurando as ruas mais abrigadas e menos perigosas.
Queriam Sondar o que houvera contra  a nossa casa. Achei timo. Porque
no suportava mais ficar encolhido naquele abrigo que caridosamente nos
salvara a vida. Chegando em casa verifiquei que uma fechadura  fora
quebrada e um vidro do terrao tambm. E verifiquei mais que fazia um
dia de sol lindo e convidativo. Nem titubeei. Vesti minha tanga e fui
nadar. Limpar  o calor daqueles dias abafados e com muitas preocupaes
para todos. Nadar, sim. A mar estava cheia. Pegar cavalheiros naquelas
Ondas imensas e verdes. E o mar  parecia s meu. Nem sombra de viva
alma. Esqueci-me da vida. Bom mesmo seria aproveitar o mar. Aquele
marzo que em breve abandonaria. Arranquei a sunga e enfiei  no pescoo.
Nadava livremente. Avanava mar a dentro e retornava at a praia montado
naquele mundo de ondas. Quando reparei levei um susto. O sol estava l
em  cima indicando a aproximidade do meio dia. Precisava correr. Subir a
ladeira botando os bofes pela boca. Uma ducha Fria, toalha ralando o
corpo, sair sem mesmo  passar o pente nos cabelos. Rua. P no cho como
se fosse asa. Porque em os bondes funcionavam. Cheguei passando j Da
uma hora. Quando todo mundo descobriu que  estava vivo da silva, que no
fora metralhado e nenhuma perfurao aparecia em meu corpo... Quando
descobriram o meu Cabelo

235

 despenteado e o meu rosto dourado de sol, o mundo caiu. Levei uma
carraspana to grande que era melhor ter morrido fuzilado antes. Ento a
cidade entrou no ritmo  calmo de sempre. Porque nunca uma cidade como
Natal se apressara para alguma coisa. Talvez  que todo mundo parava mais
para falar o que houvera e o que no houvera. Gente morreu. Conversa
virava tristeza. Mas tinha que ser assim. Revoluo sem morto no  
revoluo, foge s suas caractersticas. E tudo passou. Ficou apenas na
face da cidade a lembrana de muros e casas esburacadas. Algumas cruzes
novas no cemitrio.  O rudo dos bondinhos amarelos encheram De vida as
ruas que estiveram paradas muitos dias. Quando encontrava algum
conhecido mudava logo de assunto. Aquilo j  estava fedendo. Agora era
rumar meus passos em direo do colgio. Precisava encontrar Fayolle
antes que ele partisse para o Retiro anual em Recife. Meus passos
adquiriam um novo significado. O peso da nova responsabilidade que
estava para vir. A meta da minha vida que seria brevemente modificada.
Uma transformao Aconteceria  nos meus prximos dias e aquilo me enchia
de inquietao e medo, por que no dizer? Meus olhos preocupados
analisavam a paisagem com olhos de adeus. Parecia querer  decorar tudo
para lembrarme depois. Pisava nos ficus benjamim, naquelas bolotinhas Na
calada, que sempre me deram um prazer imenso em amass-las, mas pisava
doendo.  L em cima da torre da matriz as bandeirinhas indicando os
navios tremulavam no Ar. Depois a rua do colgio. A calada da igreja
onde uma tarde eu correra com  a toalha e vestido com uma simples cala
de pijama. A venda de seu Artur que comprovava A nossa machice nas
compras de cigarros ou numa batida tomada sem jeito.  A janela que dava
aqueles estouros divinos do meu terceiro ano ginasial. Parecia

236
 Aue a janela fechada estava me dando uma risada de galinha vendo o meu
sofrimento interior. A torre branca e manchada da igreja. Moiss l em
cima, todo mudo,  todo Murcho, todo escuro. Moiss que no tocou nunca
de noite para assustar os outros na calma retrato de ginasiano. A porta
de molas. A secretaria. FAYOLLE.
 - Estava com medo de no encontr-lo.
 - Foi por isso que telefonei a sua casa avisando da minha partida.
Sentamo-nos como antigamente. Toda minha vida de menino estava sentada
ali. Defronte de Fayolle.  Sabia que pensvamos o mesmo. Eu crescera e
na cabea de Fayolle Raspada recente, mas a t sabamos como quebrar o
silncio. Doa conversar o que buscvamos.
 - Ento, Chuch? Engoli espinheiros antes de responder.
 - Estamos preparando os meus papis e em menos de quinze dias viajarei
para o Sul no Itahit. Fayolle remexeu-se inquieto na cadeira. Ficou at
meio plido, coisa  difcil no seu rosto to sanguneo.
 - Ento eu prefiro fazer uma coisa. Demorou a confessar.
 - Vou pedir licena para chegar mais tarde ao retiro e no viajarei to
j. Quero ir ao seu embarque. Quero ver tudo, Chuch. A verdade  que a
vida era cruel e  certos momentos bem que poderiam nos ser poupados. Ele
disfarou.
 - Sua vida comeou de uma maneira muito complicada. Referia-se ao ato
de formatura. Ri sem muita vontade.
 - Talvez seja um aviso de que tudo vai ser muito complicado. Fayolle me
olhou demoradamente nos olhos como semPre o fazia quando queria obter
uma confisso sem  perguntar.

237

  - Diga a verdade, Chuch.
 - Voc sabe a verdade.
 - No resolveu nada, no ? Ainda no tomou uma atitude, certo?
Balancei a cabea confirmando.
 - No sei, no sei, no sei mesmo, Fayolle.
 - Ento o que voc contou ao seu pai no significava nada.
 - Nada. Apenas precisava inventar uma coisa para que no decepcionasse
mais a minha famlia.
 - Ento no vai seguir a carreira de aviador?
 - No. E isso di. Porque j esto me preparando umas cartas para a
Escola Militar de Realengo. Mas eu no quero voar. Nunca quis. Talvez
somente em meus sonhos.  Ficamos em silncio mas eu quebrei o gelo.
 - Eu no devo prestar para nada, Fayolle. Justamente eu que tenho uma
famlia to grande e que poderia ajudar. A minha tribo Pinag como falo
na intimidade. Preciso  No esconder de voc uma coisa. Sempre desejei
sumir daqui, esperava roendo as unhas o t Sido melhor. De ter agido como
um bugrezinho cruel e malvado. Que no aceitava nada, que recusava
qualquer aproximao, que no retribui com o mnimo de boa vontade  Tudo
o que fizeram por mim. Sim, eu no presto. Para voc posso dizer. S via
inimigos a minha frente. Julgava tudo que me faziam eram como coisas
erradas e sem  Sentido. Agora...
 - No, Chuch. No  assim. Voc tem um bom corao e vai encontrar o
seu caminho na vida. Isso vai. Nem que eu tenha de gastar os meus
joelhos e derreter as contas  Do meu tero. Apenas voc sempre foi uma
criana difcil e precoce. Mas sei que voc salt Criatividade numa
cabea como a sua para no chegar a nada. Para desperdiar apenas, no
cr? Os seus olhos crdulos e bons me proporcionavam uma pequena dose de
esperanas. Se no fosse ele, o que teria sido da solido dos meus
primeiros anos? Nunca ele Pode-

238
 Ria ser o pai que sonhara, mesmo porque renunciara s Glrias Vs do
Mundo. Uma vez Maurice me perguntara isso. Perguntara sim. Talvez h
dois mil anos.
 - Voc cresceu muito, Chuch. Quase o mais alto dos seus colegas. E est
forte, cada vez mais forte com esses ombros largos. Isso tudo vai ajudar
muito na vida,  Chuch.
 - Cresci porque voc me convenceu a operar as amgdalas. Voc e
Maurice. Sorri balanando a cabea. Fayolle tambm acompanhou o meu
sorriso.
 - E ele? Estvamos brincando de sonhar de novo.
 - Maurice partiu. Partiu cumprindo tudo o que prometera. No dia em que
eu descobrisse o amor...
 - E depois?
 - Um dia mais tarde nos encontraramos e suas ltimas palavras foram
que o beijasse como um filho tivesse a idade que tivesse. Por que sonhar
com coisas bonitas  faziam tanto bem?
 - Voc vai me escrever, no vai, Chuch?
 - Sempre que puder.
 - Se tiver muitas dificuldades financeiras... tudo pode acontecer.
Talvez eu possa uma vez ou outra lhe dar uma mozinha. Toquei em sua mo
agradecido.
 - Obrigado, Fayolle. Mas se Deus quiser no vai ser preciso.
Levantei-me criando coragem e estimulando o meu corao: Vamos, vida. J
que precisamos viver. Ele  me abraou e s disse poucas palavras. Fez
uma cruz no meu peito.
 - Paz, Chuch. Ame e seja feliz. Meus ltimos dias se resumiram em pouca
coisa. Continuava frequentando a praia e de tarde, logo aps o almoo,
saa. Ficava perambulando  pelas ruas, pelas praas, Olhando a paisagem,
sentindo o tamanho e o comprimento das

239

 vezes me detive no alto da igreja do Rosrio olhando o meu Rio Potengi.
Ali ficaria um grande pedao da minha vida. O rio de prata,
enlarguecendo l longe ao alcanar  A barra. Os botes  vela levando e
trazendo gente da praia da Redinha. As margens chei Borbulhante de
caranguejo e goiamum, quando secava. Todas as duas vezes sentira os meus
olhos se molhando. Faltavam dois dias para partir quando encontrei uma
triste  novidade em casa. Isaura depois de uma rusga bem forte, pedira a
conta e fora embora. Dadada tambm fizera A sua viagem. Senti que no
pudesse dizer-lhe adeus.  Cabocla trabalhadeira e honesta estava ali.
Sertaneja brava ameaando puxar a peixeira por tudo e por dentro Aquela
manteiga derretida de ternura. Na vspera  da minha partida, quando a
minha bagagem se encontrava pronta, fiquei me despedindo do quintal. De
todos os cajueiros, da mangueira onde observava, espionava A  vida de
Dona Sevruba. Os trapzios cujas cordas envelheciam, abandonados. Aos
poucos iriam apodrecendo e seriam arrancados. Trapzios irrealizados que
deixariam  No esquecimento todos os meus sonhos de fugir com um circo e
correr o mundo exibindo a destreza e elegncia de Caldeu, o homem mais
forte, mais forte no, um dos  Mais fortes homens do mundo. Visitei o
velho galinheiro onde guardava as frutas roubadas da vizinhana para
comer no escuro da noite. Rira com tristeza porque ali  um dia fora
baizada a mina De Winnetou. Depois era esperar. Esperar que a noite
viesse, que se passasse o jantar, a hora do Brasil e o tero. Uma volta
melanclica  na calada que fora o reinado de Dolores. Sentar no fundo
da balaustrada e ver a praia do Meio iluminada de luzes frouxas l
embaixo. E perto das suas humildes  luzes o mar batendo contra as rochas
negras, Cheias de ostras e mariscos. Naquelas pedras a gente brincava de
correr procurando os lugares seguros onde apoiar  o p sem perigos de
cortes. Daquelas pedras a gente Mergulhava apavorando os banhistas
quando a mar estava cheia. Da

240

 Do Meio eu e mais dois colegas, o Armando Viana e Praia Geraldo
atravessvamos para a Areia Preta causando inauietao nos moradores da
praia. O medo que nos  faziam os pescadores de jangada: meninos, cuidado
com o tubaro, Cuidado com o cao. Que nada  primeiro o outro. Quinze
anos e muita energia. Quinze anos e muita Preguia de ir a p at a
Areia Preta. Quantos quilmetros d'gua, de ondas? Sabia-se l. Que  era
distncia pra burro, isso ,era. L a gente descansava na praia To
branca e to morna e retornvamos da mesma maneira. Ficava feio e era
desagradvel caminhar  tanto. Depois dormir o ltimo sonho da mocidade e
esperar a hora do embarque. Um embarque diferente, porque quando viera
do Sul enjoara todo o tempo da viagem,  s melhorando Quando o navio
parava nos portos. Viera menino buchudo e franzino e voltava rapaz
forte, mas na verdade morrendo de medo. A chegada a bordo, o cheiro  do
navio por todo o canto que se passasse. A procura do camarote e meu pai
me dizendo.
 - Depois  fcil. Voc se orienta pelas escadas. Fomos ver como era a
sala de refeio. Fazia calor.
 - Quando o vapor andar fica uma maravilha. Faz at frio. Tudo com
afobao.
 - Agora vamos tomar um refresco no bar. Engulimos tudo sem pressa.
 - Vamos que j esto tocando a sineta avisando os visitantes. Corremos
para a escada do tombadilho. Precisei descer correndo porque Fayolle
chegara atrasado e tornara-se  Mais vermelho ainda pelo esforo.
Abanava-se todo com o chapelo preto. O navio sol Calma, Zez, tudo vai
dar certo... Despedi-me de todos e apertei Fayolle tremendo todo. Era o
ltimo a quem queria dizer adeus. 16

241
 Vamos aquecer o sol
 Subi as escadas como se tivesse o corao se embaraando nos joelhos.
Novo apito. O cais cheio de gente dizendo adeus. Suspenderam a escadas e
soltaram as cordas.  O Bote do Prtico j estava pronto para dirigir, o
Itahit desgarrava-se Do cais. Espremia um salto ainda alcanaria a
terra. Contudo precisava partir para desenvolver o mundo Que se abria
ante meus olhos quase inocentes. Nem bem o navio se afastara  cem
metros, meu pai afobado me acenando o ltimo adeus. Com o leno limpava
o calor do rosto e puxava a famlia pelo brao, como j achando O
suficiente o tempo  que ali permanecera. O cais ia se esvaziando 
proporo que o Itahit faziase ao largo e pegava o grande canal do rio.
Quando ele se esvaziou de todo, ficou uma  figura de preto me dizendo
adeus. Uma figura que se abanava com o chapelo e se enxugava com aquele
leno de xadrezinho Que me perseguia por todos os lados da  minha
saudade. Depois tornouse um ponto minsculo perdido na sombra de grandes
guindastes. Possivelmente permaneceria co lado No cais at que o navio
ganhasse  o fora da barra. Seria ento a ltima viso gravada na minha
saudade. Fiquei ali tambm, sem enxerg-lo mais. Certo que sairia sem
pressa, colocaria o chapelo  e procuraria um sorriso de resignao.
Esperaria o bonde amarelo para tornar Ao centro da cidade e ao velho
casaro do colgio. Fora da barra, o navio despediu-se  do Prtico e
soltou um ltimo apito. A cidade ia ficando longe, via-se bem a
balaustrada de Petrpolis como se fosse um brinquedinho De ano. A
catedral com sua  torre alta. A igreja do meu colgio Santo Antnio. A
sua torre arredondada com um galo esperando um raio que nunca apareceu.
Com um sino Chamado Moiss, calado,  parado, mudo. Moiss ajuizado
demais para dar aquela badalada que as minhas peraltices de menino
sempre desejaram.

242

LTIMO CAPTULO

O MEU SAPO-CURUR

J SENTADO na mesa do bar do Museu
de Arte Moderna. Sorvia o meu usque lentamente, meio desligado da
conversa, do assunto  que enchia a mesa. Quase sempre as Pessoas, os
artistas ali se reuniam para bater um papo informal, analisar coisas sem
consequncias, sem compromissos. Uma maneira  de terminar a noite, de
esquecer O dia, os problemas corridos, voados, apressados que se
apresentavam numa cidade que crescia assustadora e desordenadamente como
So Paulo. Duas mos se apoiaram em minhas costas e um beijo amigo
estalou em minha face. Logo uma voz simptica me repreendia.
 - Onde tem andado? Sumiu? Era Maria, a filha do prefeito Arruda
Pereira. Puxei uma cadeira para que sentasse. Logo o garo se aproximou
e ela encomendou o usque  da sua preferncia. Olhoume Nos olhos e
sorriu.
 - Ento? Escrevendo?
 - Como sempre. Tirou as luvas. Jogou-as displicentemente em cima da
mesa.
 - Voc no pode parar.
 - Por isso  que no paro mesmo. Depois de ciente das novidades do
pessoal da mesa ela anunciou a sua.
 - Sabem que vou fazer s noves horas? Duvido que adivinhem.
 - Ento deixe de fazer suspens e diga logo.
 - Vou  Rdio Tupi.

243

 Foi uma risada s. Tambm Maria imaginava cada coisa.
 - Virou macaca de auditrio?
 - Nada disso. Iremos assistir ao nico espetculo, alis o ltimo em
So Paulo, de Maurice Chevalier. Falou aquele Maurice Chevalier como se
todas as letras fossem  maisculas. E no corao aquelas letras ecoaram
muito maiores ainda. Fazia tempo que no  encolhendo, encolhendo e me
revi pequenininho conversando com ele. Que diabo. Depois de burro velho
Dar essa tremenda topada na infncia. Disfarcei tomando um  prolongado
gole do meu usque. Ningum percebeu o quanto minha mo tremia.
 - Dizem que  uma performance notvel.
 - Por isso eu vou. Perdi no teatro, mas aproveito a oportunidade na
Rdio.
 - Vamos, Z? Tenho um ingresso sobrando.
 - O qu? Sem querer dera um pulo na cadeira e me tornara totalmente
vermelho. Maria riu.
 - No precisa se assustar tanto. Todo mundo vai assistir a um
espetculo numa emissora de rdio, para tanto basta que haja um
auditrio.
 - No  isso.  que...
 - Ora, no me venha dizer que voc tem compromisso hoje. Cocei a cabea
encafifado.
 - Vamos? No poderia resistir ao seu convite. Mas o corao parecia
pedir amedrontado que no fosse.
 - No  possvel que voc no goste de Chevalier. Nunca assistiu a seus
filmes?
 - Muitos.
 - E no gostou?
 - Muito mais do que voc pensa.
 - Ento? Sentia a alma toda amassadinha quando concordei.

244
 A verdade  que o auditrio no se encontrava totalmente cheio. Antes
apresentaram um show com artistas brasileiros. Havia uma moreninha de
cabelos negros e ondulados  Muito graciosa cantando um samba de breque.
 - Quem ?
 - A Hebe Camargo.
 - tima, no? Minha voz spera ardia nas paredes da garganta. Queria
dizer qualquer coisa para disfarar minha expectativa, minha agonia.
Quando anunciaram ele  meu corao doeu. Mas doeu mesmo. Mentira dessa
gente que diz que corao no di. Tinha medo De mexer com as mos para
no perceber que elas tinham diminudo, encolhido. Aplaudiam mas me
negava a acompanhar o entusiasmo dos outros. S Deus podia acompanhar  a
tremenda tristeza que se alastrava por dentro do meu peito. Era ele.
Maurice. Igual. Igualzinho aos meus sonhos de menino. Talvez um pouco
mais alto. Talvez  com os cabelos ficando mais brancos nas tmporas. O
mesmo sorriso contagiante, o mesmo Charme, a mesma elegncia. Por que eu
tivera de vir? Por que se defrontar  com uma magia antiga? E sobretudo
para A Que? Quando findou o show as palmas foram tantas que ele foi
obrigado a cantar mais dois nmeros. Depois agradeceu e  se retirou.
Todos se levantavam e caminhavam para a sada. Minhas pernas tremiam.
No conseguia nimo para levantar-me. Maria deu-me a mo.
 - Vamos? Com o auditrio completamente restabelecido de luzes ela viu a
palidez do meu rosto.
 - Olhe, minha gente, Z est com os olhos cheios de lgrimas. Disfarcei
e levantei-me todo desengonado.
 - Emocionou-se tanto assim? No sei porque mas emocionei-me mesmo.

245

  - Pois ento vai se emocionar mais ainda porque preciso ir
cumpriment-lo.
 - No vou no.
 - Vai sim. No soltava a minha mo e me puxava como se fosse um beb.
Atravessamos uns corredores e estvamos agora em frente do seu camarim.
Tinham pedido que  aguardssemos um pouco. E no demorou muito a porta
abriu-se. Era ele, Maurice. Mais alto, si bem se eram azuis ou castanhos
bem claros. Tambm os cabelos estavam todos Embranquecidos. E no rosto
bem rosado ele tinha uma espcie de cicatriz. Talvez um equizema.
Demonstrava um certo cansao. Mas sorria sempre com aquele sorriso que
Me enlevara a vida. Primeiro as mulheres o cumprimentaram. Depois, meio
morto, meio menino  estendi a minha mo fria para receber a sua.
 - Bon soir, Monsieur Chevalier. Nem sei como a voz sara.
 - Enchente, monsieur. Tentei demorar a minha mo na sua
aparvalhadamente. Olhei bem dentro dos seus olhos aguardando que sua
boca se abrisse e ele me chamasse  como antigamente de Monpti. Mas ele
soltou a minha mo sorrindo como sorria para qualquer pess "meu pai."
Sa apressadamente do camarim para que pudesse adiante limpar os meus
olhos umedecidos. Afinal, Ado querido como  que voc me falava
antigamente:  Vamos aquecer o sol. Sim, precisamos aquecer o sol.
 - Vocs podem me deixar na Avenida Paulista?
 - Por qu? No vai jantar conosco?
 - Pra mim j  tarde demais para jantar. Maria me falou sem zanga.

246

 - Que homem estranho voc ! Assiste a um espetculo to alegre e sai
assim deprimido. Disfarcei.
 - No foi o espetculo. J me encontrava muito deprimido antes. Andando
um pouco, passa.
 - Nessa garoa?
 - Eu gosto dela. E hoje com esses prdios todos furando o cu de So
Paulo  to raro a gente ver uma garoa. Precisamos aproveit-la um
pouco. Pararam para que  descesse. Beijei o rosto de Maria.
 - Voc telefona?
 - Telefono. Ciau. O carro desapareceu entre os outros e eu principiei a
caminhar pela avenida. Tudo se transmudava. Os belos casares
tradicionais diminuam na  paisagem. Estavam sendo Derrubados para dar
lugar a novos arranha-cus que viriam por sua vez transeuntes. Isso era
bom porque dava para falar sozinho com o meu desaponto. Dialogar com a
minha pequena dor.
 - Pois  isso, Ado. Quantos anos faz? Vinte um ou vinte dois. Talvez
at um pouquinho mais. Nem precisava fechar os olhos para enxergar Ado
partindo com sua  malinha. Ia pra to longe. Para a ptria da saudade.
Ser que voc foi feliz, querido? O que  a gente passa. Vai passando.
Vai passando. Voc queria, Ado, uma noite cheia de estrelas. Dormir No
disco da luz refletida no rio. Minha noite no tem nada disso  no ? S
essa garoa fina que fere o nariz e empapa o cabelo. Quem sabe se voc
no achou uma sapinha da sua idade? De trancinhas louras e toquinha
branca na cabea.  Caminhei sozinho na calada. Meu corao
sobressaltava-se se escutava alguns passos, raros passos que passavam
apressados a meu lado. Quem sabe se Maurice no apareceria  Tambm e
pegando no meu brao me diria:
 - Sabe, Monpti, eu no poderia reconhec-lo diante de outras pessoas...

247

 Bobagens, no  Ado? Somos dois homens sem sonhos. Ele mais velho. Eu
com meus quase quarenta anos. Que bobagem. Foi o prprio Maurice quem
falou que partiria  Logo que eu descobrisse o amor. O que  o amor,
Ado? Amor, muitos amores que passaram. O amo
 - Vamos caminhar um pouco mais, Zez. Sou eu que me chamo de Zez. Voc
tambm me anunciou que no voltaria nunca mais. S na saudade. Todavia
eu sei que voc no  Se zanga se eu tentar conversar com voc na minha
solido.
 - Bon soir, Monsieur Chevalier.
 - Enchente, monsieur. Sou menino de novo. Menino de sonhos. Menino
sozinho. Por que crescer? Eu no quero. Nunca quis. Mas  que o tempo
parou e eu continuei.  Na verdade ningum pode Saber o tamanho da nossa
dor doendo dentro da gente. S o prprio cora acalmar a minha angstia.
 - Chuch... Chuch...
 - Ah! J sei.  voc. Paul Lus Fayolle. Passo a mo no rosto para no
ver de novo o vulto se perdendo, todo de negro na sua batina, me
acenando com o seu leno  de xadrez. E o navio se afastando, procurando
A barra para atingir o mar. Mas no  o navio q que matou meu Portugus.
Que cortou as iluses do Meu p de laranjalima. Depois de grande eu
viajei muitas vezes nesse trem, Ado. Ningum sabia que sempre as  suas
rodas mastigavam minha tristeza e a ausncia dos ausentes. No contava
Para meus irmos os meus segredos. Como no conto nunca. Preciso
enguli-los pro meu  desespero.
 - Chuch... Chuch...

248

 Faz pouco tempo, Ado, eu estive no Norte, em Natal. Fui visitar minha
famlia. De l escrevi uma carta para o Fayolle. Ele me respondeu quatro
linhas que estava  Muito doente, em Fortaleza. Nem titubiei, Ado. Fiz
uma viagem horrvel de nibus. Encontre E estavam quase brancos. Falava
com dificuldade. Sempre arfante. Sabe como , Ado? Como uma vela no
final jogando as chamas para l e para c no menor sopro da  Brisa.
 - Que carta curta, Fayolle?
 - Ah! Chuch, se voc soubesse como me cansei escrevendo-a. Olhava-me
s. E eu no crescera. Ainda era Chuch. Por que no deix-lo com a sua
iluso? Qualquer hora  dessas, Ado, recebo a notcia de que ele partiu.
Hoje depois de grande, acredito piamente  as asas como os pssaros, como
as borboletas. Que adianta, Ado? Voc est me escutando? Fale Ado.
Ensine-me de novo a aquecer o sol. A me conformar que devo prosseguir,
caminhar, passar.  difcil caminhar E acender o sol, no  querido? Por
favor, pela ltima vez eu lhe peo, me responda como gente grande pode
acender o sol?  S dessa vez. Como no ouvisse a resposta fui
assobiando, depois comecei a cantar para a garoa: "Sapo-cururu Na beira
do rio. Quando o sapo canta, maninha Diz que est com frio"...
 - Est bem, Ado. Gente grande no sabe mesmo acender o sol. Pode ser
ento que a bondade de Deus, amanh, faa que o sol se acenda por si
mesmo. Como o fez por  Toda a eternidade parada. No tem importncia eu
vou continuar cantando para

249

 voc, porque felizmente ainda eu sei o que significa sauj Dade.
"Sapo-cururu Na beira do rio. Quando o sapo canta, maninha Diz que est
com frio... Diz que est com frio... Diz que est com frio... Diz que
est com frio...  Fim.

250

 NOTA SOBRE O AUTOR

 Com o gacho rico Verssimo e o baiano Jorge Amado,
o carioca Jos Mauro de Vasconcelos forma, hoje, o trio exclusivo de
escritores brasileiros  que podem viver Somente com os direitos autorais
de seus livros. Como surgiu e o que repr Vasconcelos nasceu em Bangu,
bairro do Rio de Janeiro, a 26 de fevereiro de 1920. Filho de famlia
muito pobre, a ponto de - ainda menino - ter de Viver com  uns tios no
Rio Grande do Norte, cresceu em Natal. Aos nove anos, aprendeu a nadar
e, com grande prazer, lembra dos seus treinos de natao nas guas do
Potengi,  dos seus sonhos de ser campeo. Ainda em Natal, fez dois anos
do curso de Medicina. Novos sonhos e uma maleta de papelo eram a
bagagem do jovem que voltou ao Rio,  num velho cargueiro. O primeiro
emprego foi de treinador de peso-pena, quando 100 Cruzeiros por luta
eram o limite entre uma vida difcil e a fome. Virou esttua  em 1941,
no monumento  juventude do jardim do Ministrio da Educao, no Rio.
Jos Mauro era modelo e acabou esculpido por Bruno Giorgi. De carregador
de bananas  numa fazenda do litoral do Estado do Rio a garom de boate
em So Paulo, Jos Mauro percorreu distncias e empregos em quantidade,
no aprendizado De vida que parece  essencial a certo tipo de escritores.
Outra experincia foi uma bolsa de estudos na Espanha, limitada a uma
semana pelo estudante, que no aguentou A vida acadmica  e preferiu
correr a Europa. A atividade mais importante foi a que exerceu junto aos
irmos VilIas-Boas, varando rios em plena regio do Araguaia, Conhecendo
o ambiente  hostil e lutando plos ndios. Estava amadurecido o homem
Jos Mauro. O resultado disso foi seu livro de estreia, "Banana Brava",
de 1942. Nele, reflete o mundo  dos homens sem piedade dos garimps Onde
viceja e jamais frutifica a Banana Brava; o livro simplesmente no
aconteceu na poca, apesar de algumas crticas favorveis.  Depois veio
"Barro Blanco", em  1945. Essa estria das salinas de Macau, no Rio
Grande do Norte, conseguiu para Jos Mauro um grande sucesso de crtica.
O livro seguinte foi "...Longe da Terra"  (1949), Marcando a volta ao
serto do escritor ("Difcil encontrarmos um livro que nos oferea de
maneira to natural a embriaguez da terra", disse o crtico Herculano
Pires). Depois de "Vazante" (1951), vieram "Arara Vermelha" (1953) e
"Arraia de Fogo" (1955). Para escrever o livro de 1953, percorreu cerca
de 250 lguas no serto  bruto. "Rosinha, Minha Canoa", de 1962, marcou o
primeiro sucesso da literatura de Jos Mauro. Hoje est em 22 edio e
recebeu elogios como o de Abdias Lima: "A narrativa,  Com sua trama

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 que ocorre como um raio, sem truques e artifcios literrios, as
personagens, com sua dialogao tpica, fazem de "Rosinha, Minha Canoa",
uma grande estria nacional".  A imprensa j procurava o escritor em
ascenso e perguntava sobre suas preferncias l Meus livros em poucos
dias. Mas em compensao passo anos ruminando ideias. Escrevo tudo a
mquina. Fao um captulo inteiro e depois  que releio o que escrevi.
Escrevo a qualquer hora, de dia ou de noite. Quando estou escrevendo
entro em transe. S paro de bater nas teclas da mquina quando os dedos
doem. S a percebo  Quanto trabalhei. Sou um cara capaz de varar dias
escrevendo at a exausto"). "Doido" (1963) conta a adolescncia do
escritor em Natal, claro que de forma romanceada. "O Garanho das
Praias" (1964), com sua ao altamente dramtica,  bem  Diferente de
"Corao de Vidro" (1964), um livro de fbulas em que os animais ganham
dimenso humana e lrica. De 1966  "As Confisses de Frei Abbora",
obra que  Antecedeu o grande sucesso do escritor, "O Meu P de Laranja
Lima". "O Meu P de Laranja Lima" saiu em doze dias. "Porm estava
dentro de mim h anos, h vinte anos", diz Jos Mauro. E o livro,
publicado em 1968, conquistou os leitores  Brasileiros, do Amazonas ao
Rio Grande do Sul, quebrando todos os recordes de vendagem. Hoje, est
na 22.a edio, com cerca de meio milho de exemplares vendidos.  A
crtica tambm se entusiasmou com a obra e no faltaram elogios:
"Qualquer pessoa de sensibilidade que leia esse livro de Jos Mauro se
projeta na figurinha de  Zez..." - Ivone Borges Botelho; "Recomendo a
todos a leitura de "O Meu P de Laranja Lima" e dos outros romances de
Jos Mauro de Vasconcelos, cuja obra est exigindo  Estudos mais longos,
pois  um dos bons narradores que o Brasil j teve em qualquer tempo" -
Antnio Olinto; "O Meu P de Laranja Lima" " um documentrio social  E
um estudo psicolgico - que soa como uma cano, onde h intensa
realidade e, por isso mesmo, ternura e amor" - Euclides Marques Andrade.
Dizia o escritor,  na poca: "Tenho um pblico que vai dos 6 aos 93
anos. No s aqui no Rio ou em So Paulo, mas em todo o Brasil. Meu
livro "Rosinha, Minha Canoa"   utilizado em curso de Portugus na
Sorbonne, em Paris". As tradues no estrangeiro se multiplicavam. "O
Meu P de Laranja Lima" saiu na ustria, Alemanha, Estados  Unidos,
Inglaterra, Argentina e Amrica Latina, Itlia, Holanda e Frana. "Barro
Blanco" tem edies hngara e alem. "Arara Vermelha" foi lido na
ustria e na  Alemanha na lngua local e o ser brevemente na Holanda.
Em preparo, a edio de "Arraia de Fogo" na Hungria. Os direitos de "O
Meu P de Laranja Lima" tambm  esto sendo negociados na Dinamarca,
Finlndia, Tchecoslov-

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 Quia. Em preparo, esto as seguintes edies de "O Meu P de Laranja
Lima": norueguesa, japonesa, sueca e polonesa. Os livros de Jos Mauro
conquistaram tambm  professoras e diretoras, que os levaram para seus
alunos. Adotados em inmeros colgios do pa de crianas e jovens. O
mesmo ocorre na Argentina, notadamente com "O Meu P de Laranja Lima". O
fator bsico do sucesso de Jos Mauro  sua facilidade de comunicao
com o pblico, o que se confirmou nos livros posteriores a "O Meu P de
Laranja Lima" -  "Rua Descala" (1969), "O Palcio Japons" (1969),
"Farinha rf" (1970), "Chuva Crioula" (1972), "O Veleiro de Cristal"
(1973) e "Vamos Aquecer o Sol" (1974).  Jos Mauro explica essa
caracterstica dos seus livros: "O que atrai meu pblico deve ser a
minha simplicidade, o que eu acho que seja simplicidade. A minha
linguagem  Regional est numa atitude compreensiva. Os meus personagens
falam linguagem regional. O povo  simples como eu. Como j disse, no
tenho nada da aparncia de escritor.  a minha personalidade que est se
expressando na literatura, o meu prprio "eu". Alm de escritor, Jos
Mauro j foi artista plstico, ator de teatro e de televiso.  Ganhou
prmios como coadjuvante em "Carteira Modelo 19" e como ator em "A Ilha"
E "Mulheres e Milhes". Fez ainda "Fronteiras do Inferno", "ioradas na
Serra",  "Canto do Mar" (deste, escreveu o roteiro). Seus livros
"Vazante", "Arara Vermelha", "Rua Descala", "As Confisses de Frei
Abbora" e "O Meu P de Laranja Lima" foram filmados. O ltimo foi um
grande sucesso de bilheteria. Escritor de sucesso, homem simples,
artista cuja sensibilidade se exerce em vrias reas, Jos Mauro de
Vasconcelos  um dos autores mais famosos e acessveis da Atualidade,
no deixando o xito impedir seus contactos com o pblico, nem suas idas
anuais  selva.

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 Tradues dos livros de Jos Mauro de Vasconcelos: O MEU P DE LARANJA
LIMA
 Alemo: Wenn ich einmal gross bin Marion von Schrder Verlag,
Dsseldorf, e Paul Zsoinay Verlag, Viena
 Ingls: My Sweet-Orange Tree Alfred A. Knopf, Inc., Nova York, e
Michael Jo Rueda, Buenos Aires
 Holands: Wacht maar tot ik grot ben... A. W. Sijhofs
Uitgeversmaatschappij N. V., Leiden
 Italiano: Zez e 1'Albero d'Arance Amoldo Mondadori Editore S.p.A.,
Milo
 Noruegus: Mitt Stappelsintre Tyri Norsk Forlag, Oslo
 Francs: Mon Bei Oranger ditions Stock, Paris
 Japons: Contrato assinado com Kadokawa Shoten Ltd., Tquio
 Polons: Contrato assinado com Ksiazka i Wiedza, Varsvia
 Sueco: Contrato assinado com Berghs Forlag AB, Malm, e INGSE GmbH, Zug
(Sua)
 Turco: Contrato assinado com E. ayinlari, Ancara e Istambul BARRO
ELANCO
 Hngaro: Fechr Iszap Kossuth Knyvkiad, Budapest
 Alemo: Meine Briider, der Wind und das Meer Marion von Schrder
Verlag, Dsseldorf, e Paul Zsoinay Verlag, Viena ARARA VERMELHA
 Alemo: Ara Ara Marion von Schrder Verlag, Dsseldorf, e Paul Zsoinay
Verlag, Viena
 Holands: Contrato assinado com Zuid-HolIandsche Uitgevers
Maatschappij, Haia
 Noruegus: Contrato assinado com Tyri Norsk Forlag, Oslc ROSINHA, MINHA
CANOA
 Francs: Contrato assinado com ditions Stock, Paris

 *FIM*
